Tempo de morrer. De unicórnios e androides.

FREDERICO MORIARTY – Jung defendia a existência de um inconsciente coletivo. A humanidade produz um arsenal de imagens, sentimentos, conhecimentos e comportamentos arquetípicos que são transmitidos (sem a interferência racional), de geração a geração. Ridley Scott é a prova do acerto da tese elaborada pelo suíço, herdeiro inicial e inimigo visceral de Freud na Sociedade Psicanalítica. Inconscientemente sua ficção científica – Blade Runner – é repleta de alusões inesperadas.

O carro da Tyrell de seis rodas
A réplica do carro da polícia de Blade Runner

A empresa que fabrica os androides ( ou replicantes) é Tyrell. Os carros voadores da polícia são azuis e com detalhes semelhantes a dos carros de corrida. Entre os anos 70 e 80, existia uma empresa inglesa de Fórmula 1, com carros velozes e 2 títulos mundiais na carteira. Seu maior piloto foi Jackie Stewart. Conhecido como o ‘escocês voador’ ( como os carros de Blade Runner), Stewart pilotava um carro azul de nome Tyrell.

Os robôs ( ou clones) rebeldes eram de uma geração especial, a Nexus 6. Entre os anos 30 e 50, o escritor Henry Miller escreveu uma trilogia descrevendo suas peripécias sexuais, sua aversão a uma vida rotineira e a riqueza da vida boêmia. No primeiro livro em que Miller narra a fase tresloucada o título é Sexus. O volume seguinte, com o escritor vivendo em Paris, ainda tem muitas lacunas sobre o papel da escrita, foi batizado de Plexus. O último livro mostra o amadurecimento de Miller como escritor e ser humano. Um homem consciente de seu espaço no mundo. Nexus é este livro. Assim como Nexus 6 produziu a mais avançada e madura forma de Inteligência Artificial.

John F. Sebastian é um cientista rejeitado que vive isolado e em meio aos replicantes defeituosos como ele, portador da doença do envelhecimento precoce. Sebastian é o gênio por trás da corporação de Eldon Tyrell. No filme ele dá vida e os devaneios aos replicantes, Eldon é somente um empresário. Os dois jogam uma partida de xadrez à distância. Claro, o frágil Sebastian não poderia jogar, então é a criatura, Roy Batty quem desafia o Ceo. Inspirada na “Immortal Games”, match de 1851 entre os enxadristas Adolf Anderssen e Lionel Kleseritzky. Sebastian produz as obras para o Deus cibernético da Tyrell, assim como Johan Sebastian Bach compôs as mais belas peças clericais da história da música erudita para o Deus cristão.

o “Immortal Games” original

A mais impressionante imagem do inconsciente coletivo devemos ao prédio em que ocorrem as cenas finais. Elas se passam no Bradbury Building, um prédio de arquitetura revolucionária que, em muitos aspectos, lembram a obra da Escher (Maurits Cornelis). O prédio data de 1893 e tem seu nome associado ao engenheiro que o construiu. É o inconsciente nos dando tombos inesperados.

Bradbury Building em Los Angeles. Detalhes da Escadaria
Escher e a Realidade Distorcida das Escadarias

Ray Bradbury foi um dos mais importantes escritores de ficção científica entre os anos 40 e 70. Uma de suas obras viscerais é o livro Fahrenheit 451. No futuro distópico, a sociedade transformara a leitura em algo criminoso, todos os livros foram banidos e os bombeiros agora tinham como função encontrar livros e incendiá-los.

Blade Runner é uma distopia em que nenhum momento vemos um livro. As ruas são tomadas por propaganda. As relações humanas são por meio de sons, imagens e mensagens lacônicas. Uma das grandes inovações previstas pelo filme são as teletelas. Rick Deckard (mais uma alusão, afinal, Rick é o nome do personagem noir de Humphrey Bogart em Casablanca) e Rachel tem suas memórias advindas de fotos antigas em polaroide.

Nenhuma carta. Nenhuma letra. O mundo do futuro é o mundo das imagens e da ignorância. Como Bradbury imaginou. Ao olharmos para as redes sociais, para o descrédito cada vez maior da literatura, do pensamento crítico, da morte da razão e ao mesmo tempo vendo a realidade virtual contando histórias por meio de fotos digitais, entendemos o porquê de assistir Blade Runner com temor reverencial. O futuro aconteceu.

Philip K. Dick teve várias histórias adaptadas para o cinema: Videodrome (de David Cronenberg), Vingador do Futuro ( duas vezes), Minority Report (sonho atual de nossa sociedade, um super-soldado que prende os suspeitos antes do crime acontecer), O Pagamento (de John Woo), O Vidente (com Nicolas Cage), um desconhecido O Homem Duplo (com Robert Downey Jr, Keanu Reeves e Wynona Rider) e até uma animação da Disney com previsão de estreia para 2021: O Rei dos Elfos. Dick, que perdeu sua irmã gêmea aos 5 anos, escreveu Do androids dream of electric sheep?” em 1968, quando era um consagrado escritor de ficção científica norte-americano.

O desenho da Disney, “O Rei dos Elfos”

Numa Los Angeles pós apocalipse nuclear, o romance narra a saga de um caçador de recompensas que “retira” (eufemismo para eliminar) androides. A história adianta temas do estilo cyberpunk. Ridley Scott, em alta pelo sucesso anterior de Alien (1979) entrega o conto de 97 páginas de Dick para os roteiristas Hampton Fancher e David Peoples em 1981. O filme Blade Runner ( “Androides Sonhando com Ovelhas Elétricas” não ficaria legal) é produzido em poucos meses.

Réplica da capa americana

Para o papel principal de Rick Deckard, o estúdio queria Robert Mitchum, mas este recusou. Veio uma nova recusa de Dustin Hoffman. O terceiro nome era Harrison Ford, maior revelação de Star Wars e que aceitou o papel. O líder da rebelião androide Roy Batty coube a Rutger Hauer. O policial e narrador onisciente de toda história, por sua vez, é Edward James Olmos (Gaff). Para o par romântico, a femme fatale, Rachel, interpretada por Sean Young. Claro, temos ainda Daryl Hannah ( a replicante Pris), William Sanderson ( Sebastian) e Brion James (o androide Kowalski). A trilha sonora foi entregue ao vencedor do Oscar em 1981 com Carruagens de Fogo, o compositor Vangelis (escute a Love Theme, clicando aqui). Blade Runner é daqueles filmes em que entendemos a importância da trilha sonora num filme e mais, a diferença entre os sons e a música.

O filme estreou no verão de 1982 e foi um fracasso de público e crítica. Veio para o Brasil logo depois. Assisti-o a primeira vez numa sala quase vazia do Cinema Ouro de Sorocaba( hoje uma igreja neopentecostal). Revi o filme incontáveis vezes e em cada uma delas me surpreendo com detalhes inesperados. Ridley Scott produziu mais 6 versões, até a definitiva em 2007. Blade Runner tornou-se “cult”, rendeu um bom dinheiro com a venda para a TV, vídeo-cassete, depois DVD e Blu-Ray.

Não é um espetáculo nerd que as gerações jovens adoram. Não vai jamais virar parque temático na Disney. Blade Runner é o mais perturbador cinema de ficção científica da história e um das 5 mais importantes películas da chamada Sétima Arte.

Deckard observa solitária e sombriamente para a Los Angeles de 2019

O futuro distópico de Blade Runner começa hoje. A nave de Deckard sobrevoa uma Los Angeles escura, sombria, coberta por poluição e chuva ácida e iluminada por neons e chaminés de combustível fóssil em chamas em novembro de 2019. Esse é outro grande acerto das “previsões” da história: a destruição ambiental do planeta.

Some-se a isso que o mundo de Blade Runner é dominado pelas grandes corporações como a Tyrell e a Coca Cola. Vemos chineses e asiáticos pelas grandes lojas e comércio ambulante. A língua do policial Gaff é uma mistura de castelhano e húngaro. Nada mais próximo da Globalização do que este cenário.

O olhar onipresente dos asiáticos

A vida em sociedade nas grandes metrópoles é inviável. Violência, abandono, solidão, loucura e senilidade. A rebelião dos Androides de Nexus 6 não busca só a liberdade, mas a vida. Todos os replicantes sofrem da Síndrome de Matusalém. São homens e mulheres perfeitos. São mais fortes, mais belos, mais inteligentes do que qualquer ser humano, entretanto nasceram com prazo de validade: 4 anos. Sebastian, o criador, também sofre com o envelhecimento precoce. Homens e máquinas são similares.

A mágoa e ódio de Roy contra a Tyrell e Eldon é muito mais contra a proximidade da morte do que a escravidão do trabalho nas minas espaciais. A poesia se extrai da vida, mesmo dentro do cárcere. A finitude da existência é a nossa maior prisão.

Qual versão é a melhor? Acredito que a de 2007. Ela contém 5 grandes diferenças que transmutam totalmente a trama.

Capa do DVD de 2007. A “final cut” de Ridley Scott

A primeira é a narração “em off”. Na versão de 1982, Deckard ( Harrison Ford) é um narrador-observador. Apesar de ser comum no gênero noir que o inspirou, a história fica mais truncada. Os filmes noir são típicos dos anos 40 e 50, tem imagens distorcidas, personagens distorcidos, anti-herois que saem do submundo para colocar ordem na realidade abalada por um crime e logo depois jogados de volta ao underground. São os detetives mancos e alcoólatras que frequentam puteiros, bares e vivem na noite. Quase sempre havia um narrador contando a história como em Falcão Maltês, de Dashiell Hammet ou o detetive Philipe Marlowe criado por Raymond Chandler. Blade Runner é considerado em filme neo-noir. Tem todos os elementos das histórias dos anos 40 e 50, mas sobrevive sem a voz ‘em off”.

Segundo ponto: o famoso origami de unicórnio. Gaff explica a Deckard que as memórias de Rachel foram implantadas. Os sonhos dela são baseados em fotos do passado que ela jamais viveu. Deckard sonha com um unicórnio e no filme de 2007, quando entra no elevador para fugir, encontra um origami no mesmo formato do sonho. Sim, Deckard é um androide também e Gaff e a Tyrell sabem disso.

Deckard e Gaff

O terceiro ponto é o final feliz e adocicado de 1982. O casal Rachel e Deckard fogem do mundo devastado para uma imensa floresta verde ( paret das cenas pertenciam a um material extra de Ridley Scott e foram filmadas na Amazônia). Matou a história sombria, a falta de perspectivas do nosso futuro que o aquecimento global, 37 anos depois, vem confirmar.

A solução do enigma dos 5 replicantes é o quarto ponto. No início da trama, a ordem é que Deckard deveria “retirar” 5 androides rebeldes. Ele consegue matar 4 deles. Mas e o quinto, quem seria? Um erro de continuísmo? Falta de dinheiro para fazer uma cena a mais? Uma incoerência do texto? Rachel? Não, a “final cut” de 2007 resolve a hipótese: o quinto replicante é o próprio Deckard, perdoado por Gaff na cena final que o deixa partir com Rachel.

Deckard e Rachel, o casal de replicantes

A última é sobre a natureza do Androide. Primeiro há a questão semântica a ser ressaltada: [Andro] é o órgão genital masculino. Mesmo a ficção científica caiu no erro da questão de gênero. Por que Pris não é Ginoide? Os [Andro/Gine]oides são denominados de replicantes. Réplicas são mais próximos de clones. Sebastian também nos mostra vários elementos para imaginarmos que existem partes humanas nos robôs. A inteligência artificial de Roy é capaz de criar arte e de perdoar. Mais um sinal de que os robôs de Blade Runner são mais do que máquinas. O filme deixa em aberto uma tese: os androides/ ginoides/ clones/ replicantes seriam um híbrido? Meio humanos e meios ciborgues. A fala de Gaff sobre Rachel para Deckard em cima do telhado e debaixo de chuva (uma recriação perfeita da cena final de Casablanca) é reveladora:

– It’s too bad she won’t live. But then again, who does?

( – Pena que ela não irá sobreviver. Te digo mais uma vez, Quem irá?)

Blade Runner faz reflexões profundas disfarçadas em meio a um filme policial de ação. A finitude da vida, a liberdade, o amor, a morte e a poesia. Nada supera a explosão de sentidos de Roy, instantes antes de morrer e ao mesmo tempo de preservar a vida de seu assassino. Rutger Hauer ( falecido este ano), o intérprete do personagem, alterou o texto e declamou os versos a seguir, dos mais belos da história do cinema:

– I’ve seen things you people wouldn’t believe. Attack ships on fire off shoulder of Orion. I watched c-beams glitter in the dark near the Tannhäuser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die.

( – Eu vi coisas que vocês não acreditariam… Naves de combate em fogo ao largo de Orion brilhantes como magnésio… Naveguei nos porões traseiros de um blinker e vi raios-c brilharem no escuro junto à Porta de Tanhäuser. Todos esses momentos serão perdidos com o tempo, como lágrimas em meio a chuva. Tempo de morrer.)

Por tudo isso, Blade Runner é um aprendizado. De como somos infinitamente pequenos e de como nossa passagem pela terra é nada mais do que uma lágrima em meio a um oceano. O sentido e a duração da nossa existência será marcado por nossa vontade de viver e se deslumbrar com a luz em meio à escuridão.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: