Na estreia de ‘Papo de Vinho’, uma conversa com Dominic Symington. Nesta 3ª (12), em SP, ele lança os rótulos alentejanos da Quinta da Fonte Souto

MARCO MERGUIZZO – Não se engane com a tez, o nome e o sobrenome de gringo. Quando abre a boca para falar, sobretudo de vinho, uma de suas paixões, o luso-escocês Dominic Symington não nega a origem portuguesa e a inegável vocação familiar para perpetrar grandes brancos e tintos na pátria de Camões.

Uma das grandes dinastias do mundo do vinho, a família Symington tem uma trajetória que se confunde com a própria história do Vale do Douro, onde o clã de origem escocesa se estabeleceu desde o final do século 19. A partir de então, os Symington permaneceram ligados ao comércio de vinho do Porto e, atualmente, são os maiores proprietários de vinhedos finos naquela cenográfica região vinícola situada no Norte português, com 27 propriedades, cada qual com um terroir único e particular.  

Além de  líderes em vinhos do Porto premium, lapidados na casa Graham’s, os Symington produzem uma invejável coleção de rótulos que é referência máxima em Portugal. O Chryseia, criado em parceria com Bruno Prats, do Château Cos d’Estournel, por exemplo, foi o primeiro tinto português a ser indicado para a lista dos  “100 Melhores Vinhos do Mundo”  da influente revista norte-americana Wine Spectator, em 2003, recebendo estratosféricos 97 pontos (em 100 possíveis) na safra 2011. 

Na histórica Quinta de Roriz, adquirida em 2009, é elaborado, por exemplo, o excepcional Prazo de Roriz, certamente um dos melhores rótulos do Douro.  Já a linha Altano é composta de tintos e brancos de qualidade excepcional.

Neste comecinho de semana, mais precisamente na terça-feira, dia 12/11, Dominic estará em São Paulo para comandar um jantar-degustação e lançar os rótulos alentejanos da Quinta da Fonte Souto – a caçulinha de suas sete vinícolas, e a primeira e única fora da região do Douro, onde o clã Symington de ascendência escocesa, brilha há mais de um século com fortificados ultrapremiados e, desde os anos 2000, com a linha de brancos e tintos tranquilos igualmente elogiados e com altas pontuações.

De quebra, Dominic aproveita sua passagem pela capital paulista para brindar os 25 anos de parceria com a Mistral, de SP, importadora que representa e comercializa com exclusividade seus rótulos no Brasil. Anote: reservas e demais detalhes do jantar, que acontece no restaurante A Bela Sintra, com número limitado de lugares, pelo tel. (11) 3372-3401.

Situada na serra de São Mamede, no coração do Alentejo, região ao Sul de Portugal, a Quinta da Fonte Souto tem solo de xisto e granito e os vinhedos são plantados a mais de 500 metros de altitude. A área de grande biodiversidade inclui uma reserva florestal com castanheiras e sobreiros. Esta paisagem proporciona baixos rendimentos das vinhas, originando vinhos equilibrados, de ótimo frescor, expressando de modo particular um terroir de características únicas naquela consagrada D.O. (Denominação de Origem) lusa.

A primeira safra sob a propriedade da família Symington foi em 2017, e é exatamente estes rótulos que estarão à prova à mesa, nesta terça, em uma oportunidade única. Abaixo, os vinhos do jantar de amanhã:

  • Quinta da Fonte Souto Florão branco 2018
  • Quinta da Fonte Souto Florão tinto 2017
  • Quinta da Fonte Souto Branco 2017
  • Quinta da Fonte Souto tinto 2017
  • Quinta da Fonte Souto Vinha Souto 2017
  • Graham’s Vintage 1994
  • Graham’s 1994 Single Harvest Tawny
(Fotos: Arquivo e Divulgação)
Veja, abaixo, a opinião de críticos internacionais e de publicações sérias e independentes:
PAPO DE VINHO

Um luso-escocês que virou vinho

Dono e principal executivo de sete vinícolas, entre elas a que produz o cultuado vinho do Porto Graham’s, Dominic Symington fala sobre o prestígio de sua família no cenário vinícola de Portugal, cuja história começou há mais de um século, e o sucesso dos rótulos produzidos pelo clã no Douro e, agora, na região do Alentejo

De ascendência anglo-escocesa, o português Dominic Symington sempre passou longe de uma garrafa de scotch whisky. Exceto, claro, durante os anos de sua juventude, passados no Reino Unido, onde ele e os irmãos foram estudar e ganhar experiência no mundo dos negócios.

Pertencente a um clã ligado ao mundo do vinho que desembarcou no Douro, no final do século 19, ele e gerações anteriores dos Symington construíram um invejável legado ao longo de mais de um século, tornando o sobrenome da família um dos mais conhecidos e respeitados não só na região mas em todo o país.

Ao lado de seus cinco irmãos, entre eles, Paul Symington, eleito em 2012 Man of the Year pela revista inglesa Decanter, Dominic, que hoje ocupa a cadeira de diretor executivo e chairman das áreas de planejamento e estratégias comerciais, comanda um império que inclui nada menos que sete vinícolas. Não se perca, são elas, a saber:

Além da joia da coroa, a icônica Graham’s, a mais célebre delas por seus vinhos do Porto emblemáticos ultrapremiados, Dominic se desdobra em pilotar a Cockburns, a Dow’s, a Warre’s, a Quinta do Vesúvio, a Altano, a Quinta do Ataíde e mais recentemente, na região do Alentejo, a Quinta da Fonte Souto. Além de uma bem-sucedida parceria – a P+S (Prats+Symington) -, com o produtor francês Bruno Prats, do château Cos d’Estornel, um vigneron ícone de Bordeaux.

Dinastia familiar de saxões mais antiga do Douro, os Symington são, não por acaso, um dos mais reverenciados produtores do país. Além da trajetória secular, eles são donos da maior área de vinhedos na mais famosa região vinícola lusitana, com 1.666 hectares divididos entre 27 propriedades (ou quintas, como são chamadas por lá), distribuídas em vários terroirs, cujo metro quadrado é um dos mais caros do país. E, ainda, uma vigésima-oitava, de 47 hectares, recém-adquirida, em terras alentejanas, no Sul do país.

Só de vinho do Porto, a Symington Family Estates tem armazenado inacreditáveis 55 mil barricas de 550 litros – o que corresponde a um oceano valiosíssimo e impressionante – em todos os sentidos – de 30 milhões de litros de fortificados, cujo valor de mercado é incalculável.

Com uma ampla oferta de rótulos, suas linhas de vinho, que inclui fortificados e tranquilos, são elogiadíssimas tanto pelo público quanto pela crítica. E, embora ostentem o sobrenome escocês no rótulo, todos apresentam um inegável sotaque português e um “it” e classe franceses. Tudo começou em 1882 quando Andrew James Symington chegou a Portugal para trabalhar na Graham’s. Desde aquele momento, a atual Symington Family Estates já teve 14 gerações de luso-saxões com fortes ligações afetivas e comerciais no Douro.

Ao longo de décadas de história, os Symington tiveram tempos áureos, mas sofreram com as adversidades das produções. No entanto, sempre mantiveram-se fiéis àquilo que produziam. Mesmo nas décadas de 1940 e 50, quando o vinho do Porto pouco vendia e a maioria das famílias britânicas regressou ao Reino Unido.

Os Symington, ao contrário, adotaram Portugal para viver e fincar raízes. Mas antes de atuarem no hoje exitoso negócio familiar, seus membros nascidos em Portugal são enviados invariavelmente ao Reino Unido para estudar em colégios e universidades ingleses, estagiar em uma empresa britânica, para, só, então, regressar à Terrinha, com uma sólida formação e experiência, e finalmente assumir um cargo de comando no grupo.

Com pinta de gringo e sotaque português, o sempre afável e versado Dominic Symington conversou comigo, em sua mais recente passagem por São Paulo, durante o lançamento, nesta 2a, 11/11, em São Paulo, da linha de brancos e tintos de sua vinícola caçula – a Quinta da Fonte Souto – a mais nova aposta do grupo português na pródiga região do Alentejo. Esta visita de Dominic também marca de forma emblemática os 25 anos de uma longa parceria com a importadora Mistral, que a representa e comercializa no Brasil seus rótulos com exclusividade.

Confira, a seguir, os melhores momentos desse nosso encontro.  

BLOG AQUELE SABOR QUE ME EMOCIONAComo bom descendente de uma família escocesa, qual sua preferência no copo: o whisky ou o vinho?

DOMINIC SYMINGTON – O vinho, claro! Mesmo sendo de origem escocesa, me orgulho de ser português e de ter convivido, desde sempre, com ótimos vinhos nacionais – seja os da minha família, seja de outros produtores do país.

BLOG – Você se lembra quando colocou na boca o seu primeiro gole de vinho? E de whisky? De qual gostou mais?

DOMINIC – Como todo jovem, eu bebi whisky na época de estudante no Reino Unido. Como nasci em uma família de produtores de vinho, foi uma iniciação natural, quase atávica, que ocorreu bem cedo, porém, não me recordo bem quando. Já o meu primeiro grande vinho me lembro muitíssimo bem! Em meados dos anos 70, provei um Ducru Beuacaillou, safra de 1961, durante um almoço familiar, que me marcou para sempre. Considerando que ele só tinha 15 anos de garrafa, demonstrava toda a elegância e classe de um grande Bordeaux. Nem preciso dizer qual gostei mais, não é?

BLOG – O envolvimento da família no mundo vinho foi determinante para a sua formação e escolha profissionais?

DOMINIC – Uma escolha é sempre pessoal. Mas, para mim, foi uma decisão muito natural, simples até, já que toda a minha família sempre respirou vinho e isso sempre me fascinou. Desde bem pequeno, gostava de percorrer os vinhedos com o meu pai.

BLOG – Qual a receita para que uma empresa familiar bem-sucedida como a Symington resista às fusões e tenha acionistas e não seja vendida para grandes grupos?

DOMINIC – No negócio do vinho tem que haver planejamento e investimentos de longo prazo, já que não se distribui dividendos semestralmente. Por natureza, uma vinha tem uma vida útil de 50 a 80 anos, e só se torna produtiva após uns 10 anos. O negócio do vinho do Porto, por sua vez, é mais complicado, exigindo investimentos em stock de longo prazo e capital intensivo. Uma empresa familiar consegue manter-se alinhada à esta filosofia, é uma maneira de ser. Já grupos de investimentos e de capital de risco dependem de resultados de curto prazo.

As vinhas da Symington nas encostas íngremes do Douro: cenário idílico

BLOG – E como se deu a decisão de produzir vinhos tranquilos, já que a empresa era reconhecida como grande produtora de vinhos do Porto?

DOMINIC – Com as mudanças da legislação em 1986 para os vinhos fortificados, as vinícolas da região também foram autorizadas a produzir vinhos tranquilos. Logo depois, no início da década de 90, várias empresas começaram a comercializar vinhos tranquilos do Douro. Iniciamos a produção de não fortificados, só final da década.

BLOG – E qual foi o impacto para toda a região naquela época?

DOMINIC – Foi importantíssimo, já que virou uma estratégia para sobrevivência para a maioria dos produtores, já que as vendas de Porto estão em ligeira queda, excetuando-se os vintages, os de colheita e os velhos tawny, que estão em crescimento. Além disso, ao incrementar a produção de vinhos tranquilos no Douro equilibrou-se o cultivo de várias castas e, por extensão, a sustentabilidade dos produtores. Hoje, nosso grupo aposta firmemente nos tranquilos, que serão um elo primário e crucial da futura estrutura comercial da empresa.

BLOG – Qual o tamanho da produção do grupo? E quem é o enólogo-chefe responsável pela produção de fortificados e tranquilos?

DOMINIC – É o meu primo Charles Symington. Ele lidera todas as equipes das nossas sete vinícolas. Atualmente, os vinhos tranquilos têm um peso ligeiramente maior, pois há uma projeção de crescimento entre 20% e 25%, nos próximos anos. Por elaborarmos rótulos premium, não perdemos espaço no mercado, ao contrário de outras empresas que comercializam fortificados de linha. Nos últimos anos, nossas vendas se mantiveram no mesmo patamar, porém aumentamos o valor de faturamento, com um incremento substancial na venda dos Portos de guarda.

BLOG – A família é quem dá a palavra final sobre assemblages (percentual de cada uva nos vinhos de corte) e novos projetos vinícolas?

DOMINIC – Os vinhos e lotes são da responsabilidade exclusiva do Charles. Mas quando há um novo projeto vinícola, a decisão é tomada em família.

BLOG – Além de dono, quais suas outras funções no grupo?

DOMINIC – Sou o diretor executivo e chairman das áreas de estratégias comerciais e planejamento a longuíssimo prazo. Já pensamos a Symington a daqui 30, 40 anos. Mas o trabalho já começou, Também estou envolvido no desenvolvimento da Quinta da Fonte Souto, nossa nova vinícola no Alentejo.  

Quinta da Fonte Souto: a mais nova tacada de mestre do grupo no Alentejo

BLOG –  Qual o tamanho do investimento e a previsão da primeira safra da Quinta da Fonte Souto?

DOMINIC – Compramos uma propriedade promissora de 200 hectares, dos quais 43 de vinhedos, tanto de castas francesas – Alicante Bouschet, Syrah e um pouco de Cabernet Sauvignon – quanto das tintas portuguesas Aragonez (nome que a uva espanhola Tempranillo recebe no Alentejo), Trincadeira e Touriga Nacional. Nos brancos, plantamos a Arinto e a Verdelho. A primeira safra ocorreu há dois anos, mas ainda não foi comercializada. Faremos isso até o final deste ano. Serão dois brancos e três tintos de qualidade similar aos do P+S. Mas garanto, desde já, que farão enorme sucesso.

BLOG – E qual é o futuro do vinho na sua visão? Orgânicos e biodinâmicos serão a regra daqui a algumas décadas?

DOMINIC – Nossos vinhos são a expressão de cada um dos nossos terroirs e não da mão humana. Mas como qualquer atividade produtiva, devemos respeitar a natureza. Na condição de viticultor, busco proteger e preservar o meio ambiente, já que dependo dele. A Symington trabalha com o conceito de intervenção mínima. Fazemos tudo para não usar produtos não naturais, como defensivos e produtos químicos nos vinhedos, mas não os excluímos por completo, caso sejamos somos forçados, em razão de pragas e doenças, que possam comprometer a produção. Temos um negócio e inúmeras responsabilidades, inclusive sociais, com os nossos funcionários, colaboradores e suas famílias.

BLOG – O grupo já tem projetos nesse sentido?

DOMINIC – Há tempos buscamos isso. Faz parte da nossa filosofia. Adotamos as melhores práticas sustentáveis para ter um ambiente equilibrado para as nossas vinhas. Trabalhamos sob o conceito de Economic Injury Level, ou seja, preferimos não intervir no vinhedo, embora possamos perde uma percentagem da nossa colheita, até atingir o equilíbrio entre os custos de perda e os dos produtos para atingir essa meta. Intimidade e conhecimento técnico profundos com o vinhedo e o terroir são absolutamente essenciais.

BLOG – A Symington está com seus vinhos há muitos anos no Brasil. Para ser preciso há 25 anos, parceria com a importadora Mistral, de São Paulo, umas das mais conceituadas do país. Como o senhor vê o momento atual do mercado brasileiro?

DOMINIC – O Brasil é um mercado com enorme potencial de consumo e desenvolvimento. Como todo brasileiro sabe, um dos maiores problemas do país são os impostos e os encargos fiscais altíssimos, que retiram de grande parte da população a oportunidade de consumir vinho de qualidade pelos altos preços. Sem querer expressar qualquer tipo de preferência política, creio que toda instabilidade no plano de governabilidade acaba prejudicando o desenvolvimento econômico e social de um país. Mas continuo acreditando muito no Brasil. Sobretudo em relação aos rótulos tranquilos e um trabalho continuado dos fortificados, sobretudo os Tawny mais “velhos”, de 10 e 20 Anos.

BLOG – Portugal, como poucos países produtores no mundo, tem centenas de castas originais e que existem ali. Se pudesse escolher três castas emblemáticas para o senhor, quais seriam?

DOMINIC – Como bom português, sou, por natureza, um defensor de vinhos de múltiplas castas e, não, dos varietais. Mas se tivesse essa dura missão, quase impossível, escolheria a Touriga Nacional, casta-simbolo do pais, a Touriga Franca e… Veja bem, como eu adoro a Syrah, do Valleé du Rhone (Norte), que considero um dos grandes vinhos do mundo, colocaria essa uva francesa neste meu vinho de corte preferido.

BLOG – Em contraponto à padronização do paladar do consumidor e globalização de castas e vinhos, hoje há os vinhos de terroir. O que o senhor acha desta contracorrente?

DOMINIC – Penso que o estilo super maduro talvez comece a ficar um pouco ultrapassado. Hoje, o consumidor está à procura de vinhos com maior frescor, elegância e equilíbrio, com taninos presentes e bem estruturados, e tipicidade. Por isso, todo enólogo tem que respeitar o seu terroir, as castas que melhor se adaptam ali, e de preferência, as autóctones. Não sou contra a introdução de castas de uma outra região ou país, porém, neste caso, os vinhos devem expressar e respeitar o terroir e não tentar “imitar” e copiar a sua região de origem.

BLOG – Além de sua dedicação à Symington, sobra algum tempo para algum hobby ou lazer? O que gosta de fazer nas horas vagas?

DOMINIC – Em uma empresa familiar nunca se desliga. Passo boa parte das minhas férias percorrendo nossos vinhedos. Amo fazer isso. Mas, no inverno, tento fugir para algum lugar que esteja nevando, porque adoro esquiar. Prefiro fazer isso sozinho, sem ninguém por perto, para poder desligar de verdade do trabalho. Nessas ocasiões, tenho a meu lado só um guia, que conheça bem a montanha e a região, para poder desvendar as melhores descidas e descobrir todos os segredos do lugar.

PARA VER E CURTIR:
SYMINGTON FAMILY ESTATE – VÍDEO
MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
Me acompanhe também no Facebook e no Instagram, 
acessando @marcomerguizzo  
#blogaquelesaborquemeemociona 
#coletivoterceiramargem
LEIA TAMBÉM:

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: