Cheiro de rico

LÚCIA HELENA DE CAMARGO – Se você se interessa por cinema, já ouviu falar de “Parasita”, filme sul coreano que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes deste ano.

Exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo em outubro, estreou no circuito regular em 7 de novembro. Segundo o site Box Office Mojo, que reúne dados sobre bilheterias, o filme já arrecadou mais de US$ 107 milhões em todo o mundo.

O sucesso, portanto, está consolidado em termos comerciais. E o longa deve ainda aparecer como forte candidato a ser premiado com o Oscar para produções estrangeiras, agora chamado de Melhor Filme Internacional.

A história começa como uma comédia de costumes, exibindo como vive uma família pobre na Coreia do Sul. Mãe, pai, filha e filho jovens se amontoam em cômodos apertados, num pequeníssimo apartamento no subsolo de um prédio cuja vista da janela é o de uma lixeira de rua usada como banheiro por um morador de rua.

O parasitismo do título aparece logo nas primeiras cenas, com o grupo se movimentando pela casa na tentativa de captar o sinal de wi-fi do vizinho. Todos desempregados, vivem de bicos e pequenos golpes.

Até o dia em que Ki-Taek, o filho mais velho, consegue a indicação de um amigo para se tornar professor particular de inglês de uma menina rica. O luxo da casa dos Park, projetada por um arquiteto famoso, deixa Ki-Taek impressionado. Ao perceber a ingenuidade de seus moradores, ele começa a montar o plano para trazer para trabalhar ali todos os membros de sua família.

Aos poucos a comédia vai se tornando algo um pouco mais sombrio. Pontuada de piadas relacionadas à parca noção dos endinheirados sobre a realidade das ruas, a trama vai descortinando a crítica social mais ácida, enquanto mostra as várias zonas cinzas na situação que se forma, impossibilitando o espectador ávido por fazer julgamentos de formar qualquer opinião. Afinal, há algo errado em alimentar a crença de que o filho mais novo do casal rico possui um enorme talento para as artes, mesmo que o menino só faça desenhos iguais aos das demais crianças, se isso render dinheiro para colocar comida na mesa de quem precisa? Nessa linha vai a articulada e esperta irmã (Park So-dam) de Ki-Taek, que se apresenta como professora de artes, mesmo que seu conhecimento artístico tenha saído diretamente de uma pesquisa rápida na internet.

Já Ki-Taek declara enxergar “metáforas” em tudo que lhe parece complicado, convencendo a todos de que possui uma opinião profunda sobre diversos assuntos.

Há também cenas engraçadas que devem ter colocado a equipe na lista dos inimigos da Coreia do Norte: a mãe sobre em uma mesa e pronuncia um discurso imitando o ditador norte-coreado, Kim Jong-um, incluindo trejeitos e gesticulações.

O diretor Bong Joon-ho vai adicionando a cada sequência mais elementos, até chegarmos à catarse final, para a qual convergem todos os ânimos. Ódios ancestrais e ressentimentos profundos, resultado de toda a mal resolvida convivência entre as classes, vão desencadear o clímax, com algumas surpresas.

Podemos questionar a força das motivações, na tentativa de tentar encontrar verossimilhança no desencadeamento de certas ações. Para justificar algumas temos que acionar a memória do mais irracional dos sentidos, o olfato. Será que os ricos têm um cheiro mais agradável? A pobreza fede? Qual o grau de preconceito nessas questões?  

“Parasita” provavelmente faz tanto sucesso porque foi lançado na hora certa, neste mundo de hoje, no qual a desigualdade social é o principal problema. Quem não está incomodado, não está atento.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: