Previsão de mau tempo e memória afetiva são pretextos perfeitos para fazer bolinhos de chuva e se deliciar no feriado cinzento deste 15/11

MARCO MERGUIZZO – Imortalizados na literatura infantil por um certo José Bento Renato Monteiro Lobato, desafortunadamente um escritor pouco lido e festejado hoje pela garotada mesmerizada por celulares, tablets e super-heróis gringos da Marvel – os bolinhos de chuva figuram naquela categoria de quitutes irresistíveis ao paladar com gosto de nostalgia, e que mexem com nossas lembranças de infância. Uma receita antiga, caseira, simples de tudo, que pertence à chamada culinária afetiva, passada de geração em geração, de vovós para mamães e destas para as filhas.

Mesmo sem ser um bolo, os bolinhos de chuva são carinhosamente definidos por seu diminutivo. E, embora o seu nome de batismo sugira que só possam ser consumidos em dias de tempo fechado como o de hoje, todo mundo sabe que essas delícias açucaradas têm passe livre para serem saboreadas em qualquer tempo, independentemente das condições meteorológicas.

São, portanto, uma unanimidade e não escolhem idade para serem devoradas a qualquer hora, pois nos alegram na infância e fazem todo adulto regressar a ela numa única mordida. Em sua preparação são usados ingredientes básicos como farinha, ovo, fermento, açúcar e canela. Ou seja, feitos de modo descomplicado e singelo, eles adoçam não só o paladar mas o espírito. Sobretudo, quando são acompanhados de um café fresquinho coado na hora.

Bolinhos de chuva e café forte coado na hora: casamento celestial (Arquivo)

A forma bem conhecida como são moldados – utilizando-se uma colher para pingá-los direto na panela e fritá-los -, os tornam ainda mais irresistíveis. Quando os pingos de massa caem e chiam no óleo quente, todos se aproximam para “ouvi-los” dourando. Depois de escorridos, segue-se o ritual, salpicando-os generosamente de açúcar refinado e perfumando-os de canela em pó. Nhac!

Um doce sabor lusitano, oh pá!

Oriunda de Portugal, a receita de bolinho de chuva em sua versão original, e cujos registros históricos datam do final do século 18, era feita com mandioca ou cará. O trigo era raro e caro, pois era importado do Velho Continente, e poucas eram as receitas feitas com a “farinha do Reino”. A massa apresentava certa semelhança com a do sonho, delícia tradicional da doçaria lusitana que todo brasileiro ama, também conhecida em Portugal como bola de Berlim, e cuja inspiração são as berliners alemãs, recheadas de frutas vermelhas. 

O folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) faz menção a essa herança culinária em sua célebre obra História da Alimentação no Brasil. Ele descreve com boa dose de lirismo e de modo poético que “os sonhos ficavam na bandeja cercados pelas ondas de açúcar fino e de canela em pó”. A diferença é que tinha recheio. 

O sonho ou bola de Berlim lusos: matriz culinária dos bolinhos de chuva

Em compensação, essa delícia dos tempos do Brasil Colônia era elaborada com muitos ovos, açúcar, leite, frito em gordura de porco. Ou seja, o bolinho de chuva, tal qual o conhecemos hoje, só veio décadas mais tarde, com a popularização do trigo em meados do século 19.

Antes disso, tinha muitos nomes para lá de curiosos, como Quero-Mais, Quero-Quero e Desmamados. Porém, a receita jamais teve a pretensão de ser “doce de Sinhá”, das senhoras da Casa Grande, nem ter a delicadeza dos complicados pontos de caldas, das massas moldadas durante horas por mãos finas e delicadas.

A vocação do bolinho de chuva sempre foi, portanto, o sabor e o encanto dos olhos das crianças, que ansiavam pela hora em que eles saíam dos tachos dos fogões de lenha, quando eram generosamente polvilhados com açúcar e a canela perfumada.

Descontraídos, afetivos, leves, por muito tempo se destinavam a ser uma dentre as variadas comidas do “entrudo”, ou o carnaval do Brasil Colônia. Eram chamados de “filós de Carnaval”, assim, com sotaque português. Levavam o sabor das mãos escravas e, talvez por isso, alguma sinhazinha ciumenta tenha lhes apelidado de “bolinhos de negra”.

Bolinhos de negra: moldados por mãos escravas

Aquarela de Jean-Baptiste Debret: negra tatuada vendendo cajus (1827)

Historicamente, portanto, os bolinhos de chuva saíram das mãos das escravas e por isso eram chamados pejorativamente de bolinhos de negra. Da cozinha, foram parar nos tabuleiros, quentinhos e embalados em folhas de bananeira. Com o tempo, viraram receita popular, tendo os ingredientes sempre à mão nos lares brasileiros. 

Muitas escravas, inclusive, saíram do anonimato para ligar os seus nomes a essa receita, homenagem que atravessou os séculos. Ainda hoje, por sinal, se encontram cadernos de receitas onde ela é chamada de Bolinhos da Negra Ambrósia ou da Negra Marcionila. 

Eternizada na literatura infanto-juvenil brasileira, a mais famosa e conhecida “fazedora” de bolinhos de chuva é certamente a personagem criada pelo escritor – e também um fã declarado da iguaria -, o genial Monteiro Lobato (1882-1948), a bonachona e afetuosa Tia Nastácia. Não há sequer um episódio entre as histórias do Sítio do Picapau Amarelo que não termine com Narizinho, Pedrinho e Emília – a impagável e tagarela boneca de pano – se refestelando com os bolinhos feitos pela cozinheira anciã de mãos de fada e coração e alma de anjo. 

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Tia Nastácia, do Sítio do Picapau Amarelo: cozinheira de mão cheia e a mais famosa divulgadora e “fazedora” dos bolinhos de chuva da literatura brasileira (Arquivo)

   “Pegou outro, e outro e outro, e comeu a peneirada inteira. Depois me apontou para o fogão num gesto que entendi que era pra fazer mais (…). Acabou completamente manso, esqueceu até a mania de comer gente (…). Pois é, foi o bolinho que me salvou”, suspirou a cozinheira depois de ser libertada do labirinto do monstro. Quando lhe pediam para contar o segredo, Tia Nastácia avisava: “Receita, dou; mas a questão não está na receita – está no jeitinho de fazer.”

(Trechos extraídos de À Mesa com Monteiro Lobato, livro de Márcia Camargo e Vladimir Sacchetta (Senac/2008). 

Monteiro Lobato e um de seus principais clássicos: obra inestimável que continua a encantar várias gerações de pequenos leitores, além de povoar a imaginação de marmanjos de todas as idades.

Com todas essas saborosas referências somadas à previsão de pancadas de chuva desta sexta-feira (15), bem como durante o último feriadão de 2019 (confira o tempo que vai fazer em Sorocaba e região, clicando aqui), aproveite a deixa para se deliciar com este quitute caseiro com gosto de infância e nostalgia.

Além da receita original criada pela Tia Nastácia e eternizada por Monteiro Lobato em O Sítio do Picapau Amarelo, veja, abaixo, duas versões mais contemporâneas para se deliciar no dia de hoje: uma low carb para os adeptos das dietas fitness e outra que leva recheio de doce de leite, para os comilões despreocupados com a balança.

Agora, é só torcer para continuar chovendo o dia todo, aproveitar para colocar a leitura em dia, folheando, quem sabe, Reinações de Narizinho – no papel, claro! -, saborear uns bolinhos com café e desfrutar deste feriado preguiçoso, relembrando os bons tempos de infância. Como diz a canção de Jorge Ben Jor, “Chove chuva, chove sem parar!” 

PARA OUVIR E CURTIR:
CHOVE CHUVA (JORGE BENJOR)
BOLINHOS DE CHUVA DA TIA NASTÁCIA
INGREDIENTES 

2 xícaras (chá) de farinha de trigo. 3 colheres (sopa) de açúcar. 1 pitada de sal. 1 colher (sopa) de fermento em pó. 2 colheres (sopa) de leite. 1 colher (sopa) de manteiga. 3 ovos. 1 colher (sopa) de queijo parmesão ralado. Erva-doce a gosto. Óleo para fritar. Açúcar e canela em pó para polvilhar. 

PREPARO 

 1. Misture a manteiga, o açúcar e acrescente os ovos um a um. 2. A seguir, coloque aos poucos o trigo já peneirado com o fermento e misture. 3. Acrescente o sal, a erva-doce, o queijo ralado e mexa mais um pouco. 4. Frite em fogo baixo (mas com o óleo já bem quente), pingando aos poucos com colher (chá). 5. Retire-os e disponha-os sobre papel absorvente. 6. Salpique com açúcar e canela e sirva com um café coado na hora ou uma xícara de chá de sua preferência.     

BOLINHOS DE CHUVA (RECEITA TRADICIONAL)  
INGREDIENTES  

½ xícara de farinha. 1 ovo. 1 colher de café de fermento em pó. ½ xícara de leite. ½ xícara de açúcar. Canela a gosto.  

 PREPARO 

Misture todos os ingredientes e frite os bolinhos no óleo em óleo bem quente. Dica: frite os bolinhos em fogo baixo, pois assim fritam por igual e não ficam crus por dentro.  

BOLINHOS DE CHUVA COM DOCE DE LEITE

Repita o mesmo procedimento como o descrito na receita acima. 

Para o recheio de doce de leite 

1 pote de doce de leite de boa qualidade. Aqueça o doce de leite no microondas ou em banho maria, se o doce não for cremoso, adicione ½ xícara de creme de leite e mexa bem. Depois de fritos, faça uma pequena cavidade em cada bolinho, recheie com o doce e salpique açúcar e canela. Sirva a seguir.    

BOLINHO DE CHUVA LOW CARB COM AVEIA
INGREDIENTES

2 ovos. 1 colher de sopa de óleo de coco. 2 colheres de sopa de adoçante culinário. 1 xícara de chá de leite de coco. 2 xícaras de farinha de coco ou amêndoas. 1 xícara de aveia.

PREPARO

Misture bem todos os ingredientes até obter uma massa homogênea. Coloque em forminhas individuais ou faça pequenas bolinhas equivalentes ao tamanho de três dedos de diâmetro. Coloque em forma untada com e enfarinhada. Leve ao forno por 20 minutos ou até dourar.

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
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