Nem todo mundo faz parte do esquema

LÚCIA HELENA DE CAMARGO – Paxton Winters, o diretor de “Pacificado” (Brasil, Estados Unidos, 2019), morou durante oito anos na favela Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro, antes de fazer o filme. Americano naturalizado brasileiro, ele imprimiu na história uma visão pessimista – ou talvez realista – do atual estado de coisas no País. Mas com direito a uma nesga de esperança.

O filme conta a história sob a ótica de Tati (Cassia Gil), menina de 14 anos moradora dessa favela carioca. Bonita, integrada ao meio (ela sabe dançar funk e não se assusta com os pequenos crimes que ocorrem à sua volta), ela tenta tirar a mãe, Andrea (Débora Nascimento), do vício em drogas. O pai da garota, Jaca, preso há mais de 13 anos, é solto. Tati então o conhece.

Bukassa Kabengele, ator belga e também naturalizado brasileiro é quem vive esse pai. O motivo do encarceramento: ele chefiava o o tráfico de drogas. Pego, cumpriu pena. E o morro segue, desde então, “pacificado”.

Só que não.

José Loreto encarna Nelson, o novo comandante do tráfico. Mais jovem, muito mais ganancioso e sanguinário. Algumas pessoas na comunidade esperam que Jaca assuma a chefia da operação, já que não houve uma destituição. Mas o homem prefere pensar em abrir um negócio legal, entre outras coisas. Nelson não está tranquilo, porque sua liderança corre risco. Dentro dessa dinâmica de poder, envolta na violência do dia a dia do tráfico, Tati vai tentando conhecer melhor o pai.  

Premiado

“Pacificado” venceu o prêmio Concha de Ouro de melhor filme no Festival de San Sebastián, na Espanha, em setembro. Kabengele levou o prêmio de melhor ator pela atuação e a produção venceu ainda a competição de melhor fotografia, com a cineasta Laura Merians.

Darren Aronofsky (“Cisne Negro”), conhecido por geniais esquisitices, co-produziu “Pacificado”. Difícil notar ali semelhanças a qualquer outro trabalho dele, no entanto. Talvez ele tenha interferido apenas no sentido de tornar a obra um pouco mais densa, dotada, em algumas sequências, de um timing pouco convencional.

O filme vem sendo comparado a “Cidade de Deus” (2002), de Fernando Meirelles, já que ambos são ambientados em favelas cariocas, nas quais há disputas geradas pelo tráfico de drogas. Mas a semelhança não vai muito além disso. “Pacificado” é quase uma história intimista. Escolhe ângulos da favela quase bonitos, mostra a vida pelos olhos da menina adolescente que mesmo envolta num ambiente bruto, consegue oferecer compaixão e delicadeza.

Mais importante do que os tiros e a crítica social explícita, “Pacificado” parece dizer que, embora o cenário esteja ruim, nem todo mundo faz parte do esquema.

Exibido na 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro, “Pacificado” entra agora no circuito comercial.

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