Montelena versus o ouro de tolo. Quando um vinho californiano conquistou o Mundo

FREDERICO MORIARTY (Blog Pipocando la Pelota) – Zeus fez uma festa de casamento para Peleu e Tétis, os futuros pais de Aquiles. Éris, a deusa da discórdia, não foi convidada. Vingativa, ela foi mesmo assim e lançou sobre a mesa central uma maçã toda de ouro retirada dos Jardins das Hespérides. Nela, a inscrição “para a mais merecedora”.

As deusas Atena, Hera e Afrodite começam uma disputa acirrada sobre quem teria direito ao pomo da discórdia. Zeus incumbe Páris o julgamento da questão. Durante a noite o príncipe recebe a visita das três deusas. Hera oferece o poder e a riqueza dos reinos da Europa e Ásia. O suborno proposto por Afrodite foi entregar-lhe a mais bela mulher do mundo. Atena, a última e menos bela das três, ofereceu-lhe a sabedoria.

Páris não exitou e no dia seguinte apontou Afrodite como a vencedora do torneio. Ah, o sexo, muito mais valioso do que qualquer poder ou conhecimento. Páris recebe como presente Helena de Troia, esposa de Menelau. O Julgamento de Páris termina provocando a Guerra de Troia.

O Julgamento de Páris (Arquivo: National Gallery)

Um outro julgamento, este de Paris, provocou uma transformação na indústria vinícola. Realizado em 1976 contou com os principais rótulos de vinhos franceses e alguns californianos. A narrativa desse histórico concurso de vinhos foi levada para o cinema em 2008. Gosto de filmes despretensiosos. Só uma história bem contada e sem grandes teorias críticas e filosóficas, sem muitos exercícios de entendimento.

Randal Miller é um diretor de poucos filmes, fez o Julgamento de Paris com orçamento baixo, excelentes atores como Alan Rickman e Denis Farina, além de um surpreendente Chris Pine. O cenário facilita as coisas: os vinhedos de Napa Valley, na Califórnia, até então uma desconhecida região vinícola.

A história aconteceu de fato, porém, provavelmente, vão lhes falar que o julgamento em questão é subjetivo. Interesses da indústria vinícola e um certo pedantismo francês em não aceitar o fato de que a tradição existe para ser superada.

Em resumo: depois de décadas de plantio, cultivo e desenvolvimento de uvas californianas para a produção de um vinho de excelente qualidade, um mercador e enólogo inglês com estabelecimento comercial quase falido em França decide provar os anônimos vinhos norte-americanos. A data era especial: o bicentenário da Independência do Tio Sam. Um novo presente dos franceses para os irmãos americanos.  

Capa do filme em DVD distribuído no Brasil (Divulgação)

Steven Spurrier não queria simplesmente degustar os vinhos da costa oeste americana – heresia maior, ele queria trazer as melhores garrafas de lá (daí o título em inglês “Bottle Shock”, ou num literal “Garrafa Explosiva”) e fazer uma competição com os imbatíveis vinhos franceses. Lembrando que em sua loja Caves de la Madaleine, Spurrier só vendia garrafas francesas. Um doidivanas.

Era maio de 1976. Escolheu 13 vinhos de diferentes vinícolas, alguns tintos, outros brancos. A trama se desenrola em torno da história de um Chardonnay e de seu produtor Jim Barrett, dono do Chateau Montelena. E finaliza com a competição em França.

Entre os juízes estavam Aubert de Villaine (proprietário da Romanée-Conti), Raymond Oliver, Christian Vanneque, Jean Claude Vrinat (estes três últimos, donos de renomados restaurantes três estrelas na França) e Odette Kahn, editora da mais importante revista de vinho da época La Revue du Vin de France.   

O Julgamento de Paris, o verdadeiro, com personagens reais (Arquivo)

Quatro coisas me marcaram no “Julgamento”. A primeira foi a alegoria do vinho. Jim Barrett era um advogado bem-sucedido e rico nos anos 60. Mas seu sonho era outro: produzir vinhos artesanais. Retira-se da sociedade empresarial, compra uma fazenda do final século XIX (que era originalmente uma vinícola abandonada por um casal de chineses nos anos 30, pós-Crash de 29).

Retoma as plantações, investe anos em pesquisas, trabalho árduo, dívidas intermináveis para perseguir seu sonho: o vinho. Troca a estabilidade de uma vida empresarial pelo risco de viver em devaneios. E não seria isso o correto em nossa vida?

Sonhar, arregaçar as mangas, desfazer-se de todos os apegos às conveniências, semear por anos sem saber se algo irá crescer e depois florir, entrar em crise muitas vezes, querer desistir, desistir por instantes, mas num tempo indefinível poder saborear as delícias de Baco?

Cena do filme: entre os vinhedos do Montelena, na Califórnia

A segunda foi a imagem do vinho cor de “merda”. Barrett é perfeccionista. Fazia o vinho passar por sucessivos processos de fermentação, passagens em barricas (não sou enólogo, me perdoem as falhas, isto eu deixo para o blog Aquele Sabor Que Me Emociona, aqui, no Terceira Margem, do grande amigo e jornalista Marco Merguizzo).

Seu Chardonnay, feito a partir da mais famosa casta branca francesa, é delicioso, mas na fórmula final ficara com uma cor marrom escura. Desesperado, sem dinheiro, sentindo o fracasso de anos de trabalho, ele procura seu ex-sócio e vai pedir pra voltar ao antigo emprego. O boçal de plantão (como muitos que vemos por aí) lhe dá uma lição de moral e conta uma estorinha:

– Quando pequeno, eu tinha um cachorro com um rabo todo peludo, achava ele lindo, levei pra todos os concursos e ele nunca ganhava nada, mas pra mim era lindo. Barrett, você já viveu seu sonho, esqueça agora. Aceito você de volta sim, mas não mais como sócio, terá de começar lá de baixo.”

Quantas vezes não ouvimos esse discurso? Quantas vezes não engolimos em seco essa dor, essa desistência? Quantas noites nos arrependemos da escolha, da derrota? Barrett investiu anos nos vinhos e fracassara. Cachorro bobo.    

Chateau de Montelena: o devaneio e o sonho que se tornaram realidade

A terceira foi o julgamento em si. Inicialmente preconceituoso em relação aos vinhos californianos, Spurrier acaba seduzido pela qualidade e diversidade de aromas e texturas descobertos por ele na taça. E mais do que isso: aquele esnobe inglês enxerga a alma dos produtores americanos, tão distinta dos franceses e tão apegada à terra, à natureza e ao culto às uvas e não às tradições inertes dos rótulos.

Os vinhos californianos se saíram muito bem num wine tasting em que enólogos das mais renomadas casas francesas, além de críticos respeitadíssimos, escolheram os melhores. A descrença inicial de Spurrier, o ceticismo no contato com as vinícolas, a abertura para novos paladares e a surpresa da maior derrota: a das certezas absolutas.

Os vinhos de Napa Valley eram deliciosos, de qualidade excepcional e capazes enfim de rivalizar com os frutos de Afrodite franceses. No final do filme, ele faz uma previsão: a hegemonia na taça do Império francês ruiria. Logo estaríamos tomando vinhos da Austrália, África do Sul, América do Sul. Acertou.

O rótulo que mudou a história e a geografia do mundo dos vinhos

O Julgamento de Paris terminou com a vitória do Chateau Montelena entre os vinhos brancos (safra de 1973) e o Stag’s Leap Wine Cellars (também dos EUA e do mesmo ano). Hoje, a rota de Napa Valley conta com mais de 400 grandes vinícolas (não passavam de 40 em 1976).

O desembarque dos vinhos californianos na França lembrou outra história de sentidos inversos. Em 1876, o arquiteto maçom Bartholdi resolve dar um presente aos americanos: uma imensa estátua de 46 metros representando os ideias de liberdade e sabedoria (a face é da deusa Sofia). Coube a Gustave Eiffel construir a imensa obra, com a corrente quebrada aos pés, a tocha na mão direita e o livro na esquerda (símbolos maçons).

Terminada a obra, os franceses pediram aos norte-americanos que construíssem um pedestal para receber a estátua. Nada dava certo, até que o famoso editor Pulitzer consegue arrecadar fundos e constroi-se um pedestal de 48 metros na ilha que dá entrada a cidade de Nova York.

A estátua foi desmontada na França e levada aos pedaços para os EUA. Inaugurou 10 anos depois, com muitas desistências e riscos, como no caso dos vinhos californianos. A obra, que é um presente dos franceses, recebe os ventos oceânicos e os imigrantes como símbolo de quem não conhece a História. Os vinhos de Napa Valley repousam em adegas particulares e são servidos em restaurantes do mundo todo como se nunca tivessem sofrido com o preconceito.  

Estátua da Liberdade em NY: da França para a Terra do Tio Sam

E o Barrett, Frederico? Só lhes digo que o vinho dele, além de saboroso, voltou à coloração branca. Chateau Montelena continua abanando seu rabo. Um especialista químico menosprezado pelas vinícolas californianas revela o segredo. Os vinhos de Montelena voltaram a bela e suave cor amarela, quase transparente.

A cena em que Barrett volta ao escritório é das mais antológicas do cinema. Ele pega uma antiga espada de samurai, deturpada pelo escritório de advocacia em símbolo de força e vitória pragmática, tão comum em tempos de empreendedorismo e “couxins“, e corta com o fio afiado a garrafa de vinho que acabara de derrotar o imenso ouro de tolo daqueles senhores de terno e gravata: “- Sou um produtor de vinhos”, diz. (Reveja o clipe antológico Ouro de Tolo, de Raul Seixas, clicando aqui).

E o quarto ensinamento? Que não se deve assistir a um filme destes sem uma garrafa de um bom Chardonnay do Chateau Montelena, mesmo nestes tempos de dinheiro curto. E quem sabe um dia, poder fazer a rota do vinho de Napa Valley, na Califórnia, e desfrutar de seus melhores brancos e tintos. (Para assistir ao filme na íntegra, clique aqui).

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