Zé Muleque, o leva e traz (conto). Parte 3 (final): Nada que um bolo não resolva

José Carlos Fineis

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Zé Muleque estava longe de ser alguém a quem se pudesse chamar de estúpido ou ingênuo. Pelo contrário, era bem informado e tinha e uma inteligência acima da média. Lia diariamente um jornal impresso da capital e batia os olhos nos portais de notícias. E não só isso: integrava os 0,14% dos moradores daquela cidadezinha que liam livros com regularidade (obviamente, sem contar a Bíblia). Os outros três eram o padre, apaixonado por histórias policiais que comprava pela internet, uma professora do segundo grau considerada ultrapassada e arrogante pelos colegas de trabalho e Anselmo, o jovem aspirante a ator, que sequer imaginava estar predestinado a brilhar nacionalmente no campo das artes – mas essa já é outra história.

Se não era ingênuo, nem estúpido, como Zé fora se meter em tamanha lambança, a ponto de ser abertamente ameaçado de morte por diversos conterrâneos? Era o que ele se perguntava afundado na poltrona do coronel, quando Beth entrou, alegre como de costume, e, com uma mesura engraçada, avisou aos cavalheiros que o almoço estava servido. Zé disse ao coronel que não estava com fome, mas não teve como recusar o convite do dono da casa para acompanhá-lo à cozinha, onde ocupou um lugar à mesa de tábuas centenárias apenas para bebericar sua pinguinha e ver o amigo devorar sobrecoxas de frango, torresmos e bolinhos de arroz.

Zé estava triste e sua tristeza aumentou diante do apetite do coronel, que se comportava como se nada de grave tivesse ocorrido naquela manhã. No fundo, embora reconhecesse que o quase sogro não tinha obrigação nenhuma de ajudá-lo, alimentava uma esperança tênue de que o todo-poderoso chefe político o abrigasse, livrando-o das ameaças e permitindo que permanecesse na cidade. Mas o próprio Zé se indagava se o Coronel Augusto, apesar da evidente influência que ainda exercia, teria poder para tanto — mesmo porque seu anfitrião não correspondia ao tipo clássico de coronel, daqueles que fazem ameaças e mandam matar ou cortar as bolas de alguém.

O poder do Coronel Augusto vinha em parte de seu dinheiro, que tornava a muitos pretendentes ou dependentes de seus favores, e em parte de sua personalidade carismática e sua boa vontade para resolver dificuldades e conflitos, amplificada por uma cortesia que não distinguia cor, sexo ou classe social.

A tristeza de Ze só não resistiu à sobremesa: doce de abóbora com coco feito por Beth. Zé estava triste, mas a ponto de recusar aquela iguaria, tão famosa para o bem quando a pinga do coronel o era para o mal.

A esperança de Zé se esvaiu por inteiro quando, durante o almoço, o coronel contou a Beth o episódio no gabinete do prefeito e afirmou que era preciso preparar a fuga de Zé ainda naquela tarde. Nem é preciso dizer que Beth ficou transtornada e, como o coronel já previa, pediu-lhe que a desculpasse mas, se era assim, seguiria com Zé, para onde ele fosse.

Depois do almoço, de volta à sala, à poltrona macia e à marvada pinga do coronel, Zé ainda teve de ouvir do coronel uma longa preleção sobre seus erros enquanto repórter informal daquela comunidade.

Na verdade, pouco do que foi dito pelo dono da casa era novo para Zé, uma vez que o Coronel Augusto, em diversas ocasiões, tentara alertá-lo sobre comportamentos impróprios do mesmo que chegavam a seus ouvidos. Mas, depois que se tornara conhecido (e, de certa forma, respeitado ou temido) como fonte de informações, o Leva e Traz se deixara iludir pela falsa importância dessa condição e recusava sistematicamente as críticas, por mais óbvias e sensatas que fossem. O coronel, mesmo sem saber o que é um ombudsman, tentara exercer essa função, e teria ajudado em muito o “quarto poder” encarnado em Zé, fosse ele menos vaidoso e mais consciente do peso, por vezes mortal, que tem a informação.

Na verdade, Zé não era diferente de milhares de repórteres espalhados pelo Brasil e pelo mundo, e cometera, durante sua breve carreira jornalística, os mesmos erros encontrados corriqueiramente em jornais impressos, rádios, portais e blogs, cujas causas são muitas: falta de pessoal e de tempo para apurar corretamente as informações, ausência de malícia para perceber quando se está sendo usado pela fonte; preguiça de investigar um tema em seus múltiplos ângulos, optando-se meramente por transcrever o que este disse e o que aquele respondeu, além da manipulação sutil das informações, quase sempre determinada pelos donos e diretores dos veículos, para enganar o leitor ou, mantendo-se o verniz da pluralidade, manipulá-lo para que tire esta ou aquela conclusão em favor de grupos de interesse.

Enquanto palitava os dentes, o Coronel Augusto citou alguns casos em que Zé, sabendo ou sem saber, em seu afã de se mostrar bem informado e agradar às fontes, praticara um jornalismo “de merda”, sendo as palavras rudos do coronel que apenas transcrevo.

Entre outras coisas, Zé:

– espalhara, a pedido do prefeito, que o governo municipal planejava construir uma estação rodoviária nas terras do empresário J. Colina, desencadeando a venda, a preços hiperinflacionados, de terrenos que de outra maneira jamais interessariam a alguém, até porque situados em região de brejos e áreas de proteção ambiental. É claro que o plano de construir uma rodoviária naquele local (ou qualquer outro) jamais existira, e que o dono dos terrenos, feliz com os lucros obtidos, rachou de bom grado uma parte do dinheiro com o prefeito;

– informara que um determinado comerciante engravidara uma mulher com quem teria um caso e estava prestes a sair de casa para viver com a outra. A informação partira de amigas da suposta amante. Como sua barriga não crescesse, elas esclareceram a Zé – e ele ao restante das pessoas – que a mulher sofrera um aborto espontâneo. Se o comerciante teve um caso extraconjugal, jamais se saberá. Mas o fato é que, apesar de suas negativas desesperadas, a esposa optou pelo divórcio, zelosa de sua imagem pública e preocupada com o que “os outros” poderiam dizer;

– omitira, a pedido do padre, que o laudo dos engenheiros da capital, contratados pela Cúria, não apontara risco de desabamento na torre da igreja. Havia quatro anos que a velha torre apresentava algumas rachaduras, e desde então o pároco comandava uma campanha de doações para contratar uma empresa especializada, a fim de reforçar a estrutura. Com a complacência do Zé, convencido pelo padre de que a igreja precisava de dinheiro para manter suas obras sociais, o laudo da Cúria jamais foi divulgado e a campanha de donativos para salvar a torre foi mantida;

– divulgara, com a condição de jamais revelar sua fonte (o promotor de justiça), que o Ministério Público investigava suposto erro médico praticado por um dos três cirurgiões atuantes na Santa Casa local. Zé, que desconhecia o conceito de “vazamento seletivo”, levara a notícia adiante, sem se dar conta de que os outros dois cirurgiões – estes, amigos das autoridades e membros de confrarias tradicionais – eram réus em diversos processos por erro e negligência médica, tendo um deles sido condenado em primeira instância por retirar o apêndice de paciente encaminhado para extração das amídalas.

Zé também recebera presentes, conhecidos no jargão jornalístico como jabás, para fazer propaganda a favor e contra estabelecimentos comerciais e de serviços, profissionais liberais e integrantes da classe política. Está certo que era presentes singelos. O mais significativo, e que Zé exibia até com certo orgulho – pois achava que o presente era uma prova de que tinha algum valor – era um relógio Rolex falsificado, que não custava mais do que 300 reais.

Além destes fiascos jornalísticos, Zé fora responsável, também – não por mérito seu, mas de fontes mais bem informadas –, por tornar públicas inúmeras notícias verdadeiras, como aquelas que lhe foram atiradas na cara, na sessão de intimidação a que fora submetido no gabinete do prefeito. Com a mente ainda atordoada pela pinga que tomara quase em jejum e pelas palavras serenas, porém contundentes do coronel, Zé teve um lampejo e concluiu, não sem algum espanto, que, no fim das contas, as verdades que espalhara incomodavam as pessoas até mais que as mentiras. Talvez justamente por serem verdades.


O Coronel Augusto poderia passar a tarde e a noite apontando as falhas do amigo, mas era preciso preparar um plano para tirar Zé e Beth da cidade e encaminhá-los para algum lugar seguro onde pudessem recomeçar suas vidas sem ameaças. Lá pelo meio da tarde, o fazendeiro deixou Zé aos cuidados da filha e chamou alguns homens de confiança, encabeçados por João da Foice, para uma reunião a portas fechadas em seu escritório. A reunião avançou pela noite, obrigando Beth e uma criada a levar café novo e, em determinado momento, um lanche para os homens, que só saíam do recinto – e mesmo assim apressados – para ir ao banheiro.

Ficou definido que a comitiva, formada pela caminhonete do coronel, o Citroenzinho de Zé e um carro de passeio com cinco homens fortes e armados, deixaria a cidade pouco antes de o sol nascer, pela estrada principal. Alguém tentou convencer o coronel de que seria menos perigoso escapulir por uma das dezenas de estradas vicinais existentes nos arredores da fazenda, mas o fazendeiro tinha lá seus brios e estava convencido de que deixar a cidade “fugido” era coisa de covarde. “Além disso, se existe um risco de emboscada na estrada principal, sabe Deus o que podem nos fazer nessas estradinhas perdidas no mato, por onde não passa ninguém.”

Os homens estranharam quando, ao fim da reunião, já tarde da noite, o coronel os dispensou para que descansassem algumas horas, mas pediu a João da Foice que ficasse, pois tinha ainda “alguma coisinha” a acertar com ele. Os dois ficaram ainda pelo menos duas horas confabulando e quando João da Foice saiu, pegou o caminho da cidade a pé, em vez de ir para seu casebre na fazenda. Beth fora encarregada de preparar as malas, com tudo o que o casal pudesse precisar em seu novo destino. Zé sairia dali praticamente com a roupa do corpo, e seus pertences lhe seriam enviados posteriormente, pois não convinha que voltasse para casa, ainda que escoltado pelos homens do coronel.


Zé não dormiu. Passou a maior parte da noite sentado perto da janela, com o quarto iluminado por um abajur, olhando ora para o gramado da fazenda banhado por um luar intenso, ora para Beth que se revirava na cama e parecia ter um sono agitado. Beth não lembraria de nada depois, mas naquela noite ela sonhou que era criança e brincava de esconder com as irmãs e as amigas em uma casa imensa – a casa da fazenda. De repente, todas desapareceram e ela estava sozinha. Começava a anoitecer e a casa ficava escura. A alegria desapareceu por inteiro. Uma sensação de medo e angústia se instalou em seu peito.

Beth acordou pouco antes das quatro, com o coração apertado. Sentiu-se calma novamente, quando viu Zé na cadeira perto da janela e sentiu-se envolvida por seu sorriso.


A caravana seguia lenta, a uns 40 km/h, pela estrada que levava à rodovia, e dali para o resto do mundo. Mas, ao fazer uma curva, os carros que levavam o coronel e sua comitiva toparam com dois veículos atravessados na estrada, com as portas abertas e os faróis acesos. Um deles era uma picape dessas comuns na zona rural. O outro, uma viatura de polícia, com o giroflex desligado. Iluminadas pelos faróis tênues da caminhonete do Coronel Augusto, podiam-se ver as silhuetas de seis ou sete homens, alguns deles com as armas, outros com lanternas em punho.

Os assaltantes pensaram ter a situação dominada ao iluminarem o primeiro veículo – a caminhonete de cabine dupla em que vinham um motorista e o coronel no banco da frente e, no banco de trás, Zé e Beth. Mas recuaram instintivamente quando, de outros dois carros com os faróis apagados, logo atrás da caminhonete do coronel, saltaram pelo menos oito homens com pistolas automáticas apontadas para suas cabeças. O último a descer, com toda a calma e confiança deste mundo, foi João da Foice, que tinha sua ferramenta de trabalho – desta feita, na versão de cabo curto – em punho e acintosamente levantada. Polida a Kaol na noite anterior, a foice brilhava à luz das lanternas e todos compreenderam a pergunta silenciosa que aquele sinal metálico de interrogação lançava no ar da noite: “Quem vai ser o primeiro?”.

O coronel e o motorista saltaram da caminhonete desarmados e se adiantaram, sem medo. Com dois ou três passos largos, João da Foice juntou-se a eles. Agora estavam os três no centro de uma pequena clareira formada pelas luzes de faróis e lanternas, entre dois grupos de homens com armas apontadas para as cabeças uns dos outros. Era uma situação tensa, porém equilibrada, em que aquele que disparasse o primeiro tiro poderia não ver o fim do tiroteio.

O coronel estava calmo e sorria. Saíra da caminhonete como quem chegou ao fim de uma viagem, com uma grande bolsa a tiracolo e, numa das mãos, uma caixa de bolo, dessas de papelão grosso, enfeitada com uma fita cor-de-rosa que formava uma graciosa flor. Levava-a como uma sacola ou um objeto qualquer, com o braço esquerdo deitado ao longo do corpo, e ninguém deu muita atenção a isso.

– O senhor nos desculpe, coronel, mas não podemos permitir que Zé Muleque saia da cidade.

– De quem é essa voz? É sua, prefeito? – devolveu o coronel, sempre calmo, colocando a mão direita à frente dos olhos, como quem procura tapar uma luz para ver o que está além dela.

– Sim, sou eu.

– Ora, quem diria. O filho do velho boticário meu amigo bancando jagunço de novela. Seu pai era um grande homem e deve estar lá no Céu, morrendo de vergonha de você, seu corno manso. Quem mais está aí? Venham aqui para a frente. Sejam homens, saiam das sombras. Vamos conversar e resolver a situação com saliva, pois com chumbo, não sei se vocês perceberam, alguém certamente não vai dormir em sua cama esta noite.

– Eu não tenho medo de você, coronel – Yang, o comerciante, saiu das sombras, desvencilhando-se de mãos que tentaram impedi-lo e avançando para a frente dos faróis.

– Olha só o que temos aqui. O Terceiro Setor representado por uma ratazana asquerosa. Eu já tinha visto você, Yang, lá de trás. Sua careca suarenta brilha no escuro. Quem mais? Não tem mais homem atrás desses faróis?

Talvez com receio de ser chamados de frouxos, os outros homens se juntaram a Yang. Estavam lá praticamente os mesmos da emboscada no gabinete do prefeito, menos dona Rosa, o padre, a assessora tanajura, a filha e a mulher do prefeito.

João da Foice observava os homens armados. Eles, os capangas, estavam posicionados a uma distância que lhes permitia atirar sem que sua foice os alcançasse. Mas os graúdos agora estavam ao alcance da lâmina. Se a estratégia do coronel falhasse, caberia a ele, João, agir e dar a vida, se preciso, para derrotar os inimigos.

– Chega de conversa mole, coronel – disse Yang, em tom raivoso. – Entregue o Zé e evite um tiroteio que pode acabar com sua vida e de sua filha.

Ao ouvir o comerciante, o Coronel Augusto, tarimbado em situações tensas como aquela, transfigurou-se e ergueu a voz de uma maneira que ninguém ali – nem os mais íntimos – jamais tinham ouvido.

– Escute bem, seu bosta – gritou, cuspindo na cara do comerciante. – Preste muita atenção, seu cabeça de ovo. Não é você, nem o filho da puta do prefeito, nem esses pivetes de fraldas cagadas que não sabem nem segurar um revólver, que vão me impedir de passar por esta estrada com minha família. Vocês foram longe demais, achando que podiam me intimidar. Tirem essas carroças da frente, se não quiserem acabar como seu amigo o delegado, que planejou esta emboscada idiota com vocês, mas não apareceu.

Yang recuou alguns passos com as pernas moles. Parecia alguém prestes a enfartar.

– Como assim, o delegado? Como o sr. sabe que ele não veio?

O coronel começou a rir alto. Um riso estranho, carregado de escárnio. Como o riso é contagioso, houve quem, de um lado e de outro, começasse a rir com ele.

– Aprenda uma coisa, menino. Quando vocês vão com o fubá, eu venho com o bolo. Isto é pra nunca mais vocês pensarem em mexer comigo ou com minha família.

Foi então que o coronel, com um gesto teatral, levantou a caixa de bolo o mais alto que pôde e soltou-a no chão. A caixa se abriu e de seu interior rolou a cabeça do delegado, bem embrulhada em camadas desse plástico fininho que as pessoas usam para guardar alimentos na geladeira.


Ninguém sabe dizer ao certo o que aconteceu em seguida. Muitas versões chegaram até mim. Algumas me pareceram por demais fantasiosas. Mas, peneirando-se os fatos que aparecem em duas ou mais versões e que, diante disso, se tornam mais passíveis de serem acreditados, é possível afirmar que:

– Yang desmaiou e caiu com a cara nos pedregulhos da estrada, a poucos centímetros da cabeça do delegado, que – detalhe macabro – tinha os olhos abertos;

– Beth soltou um grito que pôde ser ouvido lá na cidade, a mais de dois quilômetros de distância, tornando a situação na estrada ainda mais aterrorizante;

– os homens do coronel aproveitaram o estupor causado pela cabeça decepada para embrenhar-se no mato, de onde podiam atirar sem estar na mira dos oponentes;

– os capangas da emboscada, percebendo que haviam ficado em desvantagem, saltaram para dentro da picape e da viatura policial e desapareceram numa nuvem de poeira.

Foi também nesse instante de estupor – e isso posso afirmar com certeza – que o dono da PS Terceirizações, sempre ao lado do prefeito, cedeu ao infeliz impulso de levar o braço direito para trás do corpo, num gesto característico de quem vai apanhar um revólver enfiado na cinta ou simplesmente coçar a bunda.

O gesto foi a senha para que João da Foice, atento a cada movimento, saltasse como um bailarino russo, desenhando um bonito giro no ar, e, ao descer, desferisse um golpe preciso naquele braço, pouco abaixo do ombro.

Os outros homens gritaram de pavor e correram pela estrada, na direção da rodovia.

Enquanto o empresário, caído numa poça de sangue, gritava o óbvio – “Meu braço! Meu braço!” –, o Coronel Augusto respirou fundo e acalmou seu semblante, voltando a falar com o tom cordial de sempre.

– Bom, pelo jeito nós vamos ter de socorrer esse infeliz, antes que ele morra de hemorragia. Façam uma tala no que sobrou do braço e ponham ele num carro. Vamos voltar pra cidade.


O resto da história é aquilo que foi noticiado em toda a parte, inclusive no “Fantástico!”, e que todos já sabem. Os inquéritos abertos pela Polícia Civil e Ministério Público para apurar a morte do delegado foram encerrados sem nenhuma conclusão. As testemunhas chamadas pela Polícia e pelo Ministério Público, ou porque estivessem envolvidas em uma tentativa de assassinato, ou porque temessem perder um braço ou a cabeça, alegaram não saber de nada.

Sobre cada pescoço, pairava invisível a foice de João, que passou a ser ainda mais temido e respeitado e nunca mais pagou para beber ou comer nas biroscas da cidade.

Para todos os efeitos, ninguém estivera na estrada, naquela noite de horrores. Houve quem sugerisse em depoimento, não sem uma ponta de sarcasmo, que a morte do delegado poderia ter sido suicídio, sem levar em conta que a cabeça foi encontrada na estrada, ao passo que o corpo até hoje não foi encontrado.

A perda do braço pelo empresário foi tratada como acidente de trabalho. Ele próprio, temendo ver-se acusado de emboscada ou ter outra parte do corpo decepada pela foice de João, alegou que o membro fora arrancado por uma colheitadeira, quando ele tentava retirar um pedaço de madeira que travara suas lâminas. O salafrário, que não por acaso era o “rei das licitações”, aproveitou a mentira convincente para dar um golpe no seguro e embolsar, dessa forma, algumas dezenas de milhares de reais pelo braço perdido.

O delegado assistente foi promovido a titular e todos, sem combinação prévia – apenas por instinto de sobrevivência ou conveniência – passaram a fingir que nada havia ocorrido. A viúva do delegado, que em tese deveria ser a maior interessada no esclarecimento da morte grotesca do marido, levou poucos dias para perceber que era muito melhor viver com a pensão deixada por ele do que com ele propriamente dito – e não clamou por justiça, como geralmente fazem os parentes das vítimas de crimes violentos. No começo deste ano, a viúva, com uns óculos escuros enormes e cabelos pintados, deixou a cidade para um cruzeiro marítimo pela costa brasileira, no qual, soube-se depois, teria conhecido sua verdadeira alma gêmea – mas isso, creio, pode ser invencionice. O fato é que ela pôs a casa à venda e nunca mais voltou à cidade.

Zé e Beth dormiram abraçados naquela noite e nas noites seguintes, por muitos e muitos anos. Eles se casaram no civil, em cerimônia para poucos convidados, realizada dentro da fazenda, e viveram tempos tranquilos, de piqueniques e passeios a cavalo ou a pé pelas cercanias, mas sem ir à cidade. Depois, embora Beth fosse muito apegada ao pai, decidiram que poderiam ser mais felizes se deixassem a cidade e começassem vida nova em outro lugar.

Para onde foram, ninguém sabe. O que fazem hoje é algo sobre o que apenas se especula – e, neste ponto, a imaginação das pessoas corre solta. Há quem diga que Zé ou Beth – um dos dois – passou num concurso público e hoje levam uma vida sossegada lá para as bandas de Ribeirão Preto. Outros dizem que se tornaram donos de uma criação de cavalos de raça em Araçoiaba da Serra. Ou que se instalaram numa capital do Nordeste e criaram um site de notícias, no qual Zé Muleque continuaria exercitando seus dotes de leva e traz – agora, porém, sem cometer os erros do passado, e fazendo um jornalismo limpo, honesto, devotado às grandes causas sociais e à verdade.

Esta é minha versão preferida, embora ache-a pouco provável. Se conheço bem o Luiz Antônio Firmiano dos Santos Neto, a esta hora ele já deve ter-se metido em nova encrenca, ou virou coach de alguma coisa – pois conversa é o que não lhe falta –, ou montou algum comércio que não dê muito trabalho, ou ingressou em uma confraria secreta, ou tornou-se diretor de algum jornal centenário, deixando que jornalistas e estagiários façam o serviço de levar e trazer notícias e contentando-se com uma foto por semana na coluna social.

Arte por Risan – https://wallhere.com/en/user/2424

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