A escolha do rabino

GERALDO BONADIO – Henry Sobel, que há poucos dias morreu, nos Estados Unidos, vitimado pelo câncer, tinha pouco mais de trinta anos quando, em outubro de 1975, exercendo o rabinado na Congregação Israelita Paulista, precisou decidir em que lugar do cemitério da comunidade judaica paulista, seria sepultado o corpo de Vladimir Herzog.

A questão era muito mais relevante e prenhe de consequências do que parece.

O país vivia, então, o mais tenebroso momento da ditadura militar, que impusera à nação o jugo do Ato Institucional nº 5, horror que, ainda agora, uma penca de maus brasileiros – Eduardo Bolsonaro, Paulo Guedes et caterva – buscam ressuscitar.

Croata de nascimento, filho de judeus que fugiram do país de origem para escapar a perseguições, o jornalista Vlado – seu nome de registro – se naturalizara brasileiro e militava no clandestino Partido Comunista. Gente como o jornalista Cláudio Marques e o deputado estadual José Maria Marin vinham cobrando, nos meses anteriores, seu afastamento da TV Cultura, emissora do governo paulista, na qual ele dirigia o telejornalismo.

Chamado a prestar esclarecimentos pelas autoridades do II Exército, seu corpo fora encontrado, horas mais tarde, em uma cela no interior daquela unidade militar, na qual teria se suicidado – como informava o laudo necroscópico que um legista assinara sem examinar o corpo. O rabino poderia determinar, segundo o costume da comunidade, que o corpo fosse dado à terra numa lateral do cemitério, e a história teria acabado ali. Alertado por um jovem membro da congregação que o cadáver exibia marcas muito estranhadas, determinou que a inumação se fizesse em meio a área destinada àqueles levados pela morte por causas naturais.

A escolha do rabino contrariou autoridades e boa parte da congregação e rachou o Brasil, mas não o deteve. Uns dias mais tarde, ao lado de dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo e do pastor presbiteriano Jayme Wright, ele celebrou, para as pessoas que lotavam a Catedral da Praça da Sé, um ofício em memória do morto.

O caso Herzog dividiu o país entre cúmplices e heróis. Entre estes últimos se alinharam, desde logo, os advogados José Carlos Dias, Maria Luiza Flores da Cunha Bierrenbach e Roberto Leal de Carvalho, em cujo escritório, presentes ainda o também advogado Prudente de Moraes neto; o jurista Gofredo da Silva Telles Jr., professor das Arcadas; o promotor de Justiça Hélio Bicudo e o padre Olivo Caetano Zolin, prestou depoimento o escritor Rodolfo Konder – que, preso juntamente com Herzog, testemunhara as torturas a que aquele foi submetido, antes de “ser suicidado”. Gerou, assim, um feixe de dados que batia de frente com as conclusões do inquérito instaurado pelo general comandante do II Exército, segundo as quais o jornalista tirara a própria vida.

Não menos corajosos se revelaram os advogados Heleno Cláudio Fragoso, Sérgio Bermudes, Marco Antônio R. Barbosa e Samuel Mac Dowell de Figueiredo que, em nome da mulher do morto, Clarice Herzog, e dos filhos do casal, ingressaram com uma ação declaratória na 7ª Vara de Justiça Federal pleiteando o reconhecimento, pela União, de que Herzog fora torturado e morto quando se achava sob a guarda do poder público. Este, portanto, deveria ser condenado por danos materiais e morais.

O regime militar fez o possível e o impossível para evitar que a ação prosperasse. Redigida a sentença pelo juiz federal João Gomes Martins Filho, foi este impedido de proferi-la, por força de um mandado de segurança requerido pela Procuradoria Geral, alegando que a sentença poria em risco a segurança do Estado – medida tanto mais estranha porque, naquele momento, ninguém além do juiz conhecia a decisão.

A ditadura, porém, não conseguiu calar o Judiciário. O magistrado Márcio José de Moraes prolatou, em 29 de outubro de 1978, a sentença condenando o governo. O juiz recorreu de ofício ao Tribunal Federal de Justiça que a confirmou, fato que levou o advogado Raymundo Faoro, então presidente da OAB a escrever que, aquela, era “uma história que mostrará a possibilidade, com a ordem jurídica, de abater o autoritarismo, sempre que se levantem, dentro de seus próprios muros, advogados e juízes, advogados que sejam verdadeiramente advogados, e juízes de verdade, ainda que tolhidos pelas restrições às suas prerrogativas e garantias”.

Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu, oficialmente, que Vladimir Herzog fora assassinado, determinando a retificação do atestado de óbito e o pagamento de uma indenização aos familiares. Estes, de pronto, rejeitaram o pagamento, por entenderem que o caso não poderia encerrar-se daquela forma, e exigindo, outrossim, que as investigações continuassem. Somente quinze anos mais tarde – em março de 2013 – obtiveram, por fim, o documento em que a anotação original, atestando que Vladimir Herzog morrera devido a enforcamento (asfixia mecânica), foi mudada, passando a dizer expressamente: “a morte decorreu de lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório em dependência do II Exército-SP (DOI-Codi) ”.

Provavelmente, nada disso teria sido possível sem a escolha do jovem rabino Sobel que deve, por isso mesmo, ser reverenciado como um Herói do Brasil e campeão dos direitos humanos, em especial neste momento em que nuvens sombrias pairam sobre a democracia em nosso país.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: