Motivo torpe

FREDERICO MORIARTY (Blog Pipocando la Pelota) – Peço licença a todos, sabe como é? Parente é parente. Tenho um primo carioca que me envia crônicas quase toda semana. O rapaz anda sem espaço e me pediu o favor de publicar algumas de suas obras. Não posso negar um favor a um familiar. Ele irá assinar com o nome C.B. Quitério (me disse que tem muito escritor famoso que bota só as iniciais e o sobrenome, por isso o C.B.).

Quitério, nos anos 80, vinha muito a Sorocaba. Aqui ganhou o apelido de Laranja. Dessa maneira, botarei sempre uma laranjinha pra modos de lembrarem que o texto é do primão, exímio na arte de hambúrguer artesanal. Abraços e boa leitura. Sexta eu volto pra analisar os 20 anos de Matrix.

C.B. Quitério, o “cronista laranja” (Foto: Arquivo)

Fórum do Butantã. Esquina da Vital Brazil com a Corifeu. A advogada faltou. A magistrada pergunta se eu poderia ser ad hoc (na linguagem jurídica é “para o ato”, na popular “defenda um condenado sem dinheiro”). Olhei pro relógio, precisava chegar em Sorocaba em duas horas e a chuva de granizo batia nas janelas.

Tragédia anunciada. Aceitei e a magistrada agradeceu. O caso era de violência doméstica. A vítima começa o depoimento:

– Ele deu 12 socos, 3 tapas e uns chutes em mim, doutora.
– Por que? Falou a Meritíssima.
– Motivo torpe.
– Como assim? Estranhando o jargão jurídico na boca de moça tão simples;
– Torpe. Ele chegou do nada e me desceu o cacete, xingando muito.
– Sem motivo algum? (agora era a douta Promotora)
– Sim. Torpe!
– Fútil, então?! Reafirmou a promotora de justiça.

A vítima não se deu por derrotada e insistiu no “torpe”. Gostou da palavra talvez. Deve ter um sabor de sorvetes com caldas… Torpe, torpe, torpe. Deixa a moça, pensei, afinal já não bastam os safanões, a agressão, as marcas, a humilhação e ainda tem de escolher a motivação correta para o Código Penal.

Daí me lembrei do saudoso professor Irineu Vizotto, procurador de justiça, falando em aula na Faculdade de Direito:

“Torpe é a motivação atroz, que denota vileza de caráter. Age com torpeza o marido que mata a esposa que se recusou a exercer a prostituição a mando daquele”.

E o temporal caindo. O granizo ameaçando quebrar a janela. E o poder judiciário invocando com torpezas e vilezas de caráter. A moça encerra o depoimento. A meritíssima convoca o réu que estava ao meu lado, ele levanta cabisbaixo, cara de cachorro abandonado, senta-se na cadeira em frente à juíza e começa o interrogatório:

– O senhor confirma as acusações? – pergunta-lhe a magistrada.
– Sim. Mas ela não falou a verdade, doutora.
– Não??
– Não! Eu dei três socos só e dois tapinhas no rosto…

Talvez o rapaz, advindo de um mundo paralelo, acreditasse que os anos da condenação eram proporcionais aos socos: 12 socos, 12 anos. Por sua vez, 5 muquetes, 5 anos de xilindró.

– Por que o senhor bateu nela? A promotora falando.
– Sabe o que é doutora, eu fui ao jogo do Corinthians, daí ele perdeu. Fui beber com os amigos. Voltei de cabeça quente e perdi a razão ao perceber que nem janta tinha…

Sentença lavrada. O acusado deixa a sala condenadíssimo. A promotora se despede de mim e a magistrada agradece meu auxilio. Retribuo e comento:
– A moça tava certa, doutora. Jogo do Corinthians era motivo torpe mesmo.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: