O extermínio dos debaixo é uma política e ideologia de Estado

FREDERICO MORIARTY (Blog Pipocando La Pelota) – Qualquer pessoa que já esteve em Paraisópolis sabe que não existem ruas vazias por lá. Um diferencial de qualquer comunidade (favela, sem o eufemismo de valorização) é que nas ruas estreitas e sinuosas, a vida pulsa 24h. Não há silêncio, afinal os moradores, em geral, trabalham em três turnos.

Paraisópolis: vida 24h (Fotos: Arquivo)

Há muita solidariedade. Incomparável com o que vemos fora da “favela” com as ruas retas, desenhadas geometricamente e as pessoas tomadas de ódio e agressividade. Na cidade há o silêncio e a solidão dos cemitérios, devidamente protegidos (os habitantes) por muros imensos, cercas eletrificadas e atiradores de elite.

O espaço da comunidade é o lugar do abandono. O Estado não pisa ali. As escolas são poucas e esquecidas, os hospitais distantes, as ruas quase não tem iluminação. Lazer? Resumem-se às praças (muitas delas construídas pelos moradores). Esporte é raro. O campo do Palmeirinha está encravado entre dezenas de casas, torto, com pouca grama e só recentemente iluminado. Cinema, teatro, casa de cultura, biblioteca? Nada.

Campo do Palmeirinha: são vice-campeãs da taça das favelas no feminino

Políticos só aparecem em campanha. O Estado, quando precisa demonstrar força. Não à toa a expansão das igrejas – elas, pelo menos, sobem os morros e vielas e oferecem algo em troca. E assim vivem os mais de 1 milhão de paulistanos que estão em favelas/ comunidades. Equilibrando-se entre a morte, o preconceito e a exclusão.

Texto do ex-aluno e músico Felipe Mota

Qual o único poder que sobe o morro e anda pelas ruas? A polícia. Policiais que também levam uma vida sofrida. Estão sobre permanente tensão, ganham mal e são ensinados e treinados na cartilha do extermínio dos pobres e negros do país. São os servidores que cumprem as ordens superiores, Erradas, muito erradas.

Vivemos num país em que o presidente foi eleito com discurso racista, homofóbico, pregando contra os direitos humanos e fazendo “arminha”. Deputados e senadores se elegeram com a agenda mais reacionária e conservadora de nossa história – pior até do que na Ditadura. O governador do Rio sobrevoa as favelas com seus “snipers” atirando contra cidadãos.

Foi ele quem comemorou o assassinato em via pública de uma pessoa com arma de brinquedo e evidentes problemas mentais. O governador de São Paulo anunciou no seu primeiro dia de mandato que “a polícia iria entrar pra matar agora”

Política de Estado em São Paulo: opressão e eugenismo

O cidadão é o inimigo. Mas não qualquer cidadão. Como sempre, o cidadão de bem é o branco e endinheirado. É aquele outro cidadão.

Paraisópolis foi uma tragédia de erros. Primeiro deles: a de um Estado excludente que persegue quem deveria proteger. Segundo, de governantes que pretendem eliminar a pobreza matando os debaixo.

Terceiro: de policiais sem nenhum comando que perseguem dois suspeitos em meio à uma multidão de 6 ou 10 mil jovens que estavam se divertindo numa madrugada de sábado, exatamente como todos os jovens de qualquer lugar do planeta.

Quarto, de policiais que resolveram cumprir a ordem dos superiores em arrepio à lei ou, em outras palavras, matar.

Mv Bill . Traficando Informação

Quem já foi em algum show na vida, alguma rave, algum rock’n Rio, algum Lulapaluza, algum rodeio sertanejo sabe que o script é o mesmo do funk do DZ 7: muita gente trabalhando, muita gente se divertindo, muita gente bebendo, usando droga, muita briga e…oh, que horror…pessoas fazendo sexo.

A diferença é que nas festas da zona sul no Rio ou nos Jardins de São Paulo, a polícia vem para coibir a entrada de pessoas sem ingresso no evento ou para fazer vistas grossas ao fornecimento de drogas para a elite da Pátria.

Paraisópolis e Morumbi: os opostos lado a lado

Os boçais de plantão como sempre comemoram a morte de mais 9 inocentes. “Favelado! Drogado! Bandido!”

Cultura contra a opressão do Estado

Paraisópolis e as outras comunidades precisam de Estado. A gente sabe disso na prática. Por seis anos dei aulas pra Escola da Comunidade do Colégio Porto Seguro. A educação de qualidade, com projeto e perspectiva tem produzido uma geração de jovens de muito futuro profissional e que vem construindo uma nova história. Bastou um lápis e um caderno – não uma bala e um jazigo.

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