Por que precisamos fazer a criança BRINCAR para ser feliz?

LUCY DE MIGUEL – Quais os perigos da criança brincar? Que atire a primeira pedra quem nunca ouviu dos pais ou responsáveis frases como “Não fale com estranhos”, e reproduziu aos filhos conselhos do tipo:
“Confie, desconfiando”
“Não confie em ninguém”
“O mundo é muito perigoso”


Em uma sociedade cada vez mais integrada, conectada e que precisa ter uma visão totalmente sistêmica do que somos, de que estamos todos no mesmo barco, nós como pais precisamos repensar alguns destes conselhos do passado na educação dos filhos.

Ao educar as nossas crianças, e com a melhor intenção de protegê-las, reproduzimos conselhos que criam ou reforçam sentimentos que, a meu ver, mais atrapalham do que ajudam. O medo é um deles.  

Nosso pavor de que algo ruim aconteça aos nossos filhos, que pode parecer perfeitamente justificável perante o “mundo violento” em que vivemos, faz com que tenhamos um comportamento superprotetor. Aí é que mora o perigo!

A dinâmica da evolução do desenvolvimento das cidades também contribui para a falsa ideia de que caminhar pelas ruas é muito perigoso. Então, para minimizar ao máximo os riscos, carregamos os filhos dentro dos carros, levamos para os shoppings, para os mercados, para dentro dos condomínios, onde possamos ter o controle da sua segurança.  

O “estar junto” se resume a atividades de compras, estimulando um consumo irracional e irresponsável, impulsionando a obesidade e o sedentarismo, reforçando comportamentos individualistas, tirando da criança o direito de viver sua infância, que é o menor período de sua vida, e o mais determinante para um futuro saudável e próspero.

Onde está o perigo?

Se analisarmos as estatísticas das principais causas de morte de crianças de 0 a 14 anos por acidente, vamos perceber onde está o perigo. Segundo dados da Ong Criança Segura (2017), 32,5% das vítimas fatais estão envolvidas em acidentes de trânsito, sendo metade atropelamento. A outra metade são meros passageiros. Em seguida, aparecem as mortes por afogamento (26,1%) e por sufocação (21,2%).  Queimaduras e quedas representam 5,9% e 4,9% respectivamente.

Interessante observar que o item “Outros” representa 6,1% das estatísticas. E se você estiver raciocinando junto comigo, já se deu conta de que o mundo externo não é tão perigoso assim para as crianças. A maioria dos acidentes acontecem em família, dentro de casa, dos condomínios, dentro do carro!

Fonte: ONG Criança Segura – Dados 2017

Vamos mais longe um pouquinho? Crianças vítimas de violência sexual são abusadas dentro de casa (68%) e tem o pai (12%), o padrasto (12%) ou outra pessoa conhecida da criança como abusador (26%). (Ministério da Saúde/2018)

E se as crianças ocupassem a cidade?

Gosto do que defende o pedagogo e pensador italiano, Francesco Tonucci, sobre as cidades serem reocupadas pelas crianças. Para ele, uma cidade boa para as crianças é boa também para os adultos. E quando temos as crianças nas ruas, os adultos se tornam mais cuidadosos. “Esta é a segurança mais barata que um gestor público pode ter”, afirma.

Vale compreender que o medo que incutimos em nossos filhos no trato com o outro deve ser repensado para que possamos promover o desenvolvimento da autonomia, da empatia e do respeito ao próximo, competências importantíssimas para a sua vida adulta. Sem falar na resiliência, na responsabilidade e cuidar da natureza. Lamento informar, mas não será apenas na escola.

É da responsabilidade dos pais ou de outros adultos cuidadores ensinar tudo isso de forma efetiva, principalmente nos seis primeiros anos. Como? Através do livre brincar. A criança precisa ter contato com a natureza, se relacionar com outras crianças, tropeçar, cair, levantar, ser desafiada, correr, ganhar, perder, negociar, criar, imaginar, se frustrar, gargalhar!

Uma cidade para a criança brincar

Brincar é um direito assegurado pela Convenção dos Direitos das Crianças, expresso no artigo 31. Para que uma criança desenvolva todo o seu potencial, ela precisa brincar. Considerada a experiência mais importante na vida de uma pessoa, a brincadeira é um alicerce fundamental para a nossa formação e a nossa cultura. Os aprendizados mais significativos ocorreram durante nossas brincadeiras nos primeiros anos da nossa vida.

Então, quer garantir a felicidade e a saúde (inclusive mental) do seu filho? Saia com ele de casa. Ande pelas ruas, frequente praças e parques, deixe-o andar descalço, pisar na grama, brincar com terra ou areia. Faça matrícula em uma escola perto de casa, para que possam ir caminhando. Faça-o viver a cidade, pois acredito que somente assim, quando lotarmos as ruas de crianças, teremos um planejamento dos espaços públicos adequado para promover esse desenvolvimento pleno. O resultado disso é que todos teremos cidades mais alegres, saudáveis e seguras. Quer mundo melhor?


Lucy De Miguel é jornalista especializada em Primeira Infância, fundadora do Instituto Noa e idealizadora do Programa Escolas do Bem. Está articulando um movimento para transformar São Paulo na Capital Mundial do Brincar.

Lu@institutonoa.org.br

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