Modesto Carone (1937-2019)

FREDERICO MORIARTY (TEXTO) / MARCO MERGUIZZO (EDIÇÃO) – Vestibular da PUC. 1985. Direito. Moriarty era um caipira sonhando com a cidade de São Paulo. O bom rendimento em humanas e gramática não seriam suficientes para recuperar a baixa nota em exatas. No terceiro e último dia era a temida prova de redação. O tema? Um pequeno conto de Kafka sobre um equilibrista em um trapézio refletindo sobre a vida.

Havia lido duas traduções de Kafka naquele ano. Conhecia o estilo e, em meio a uma adolescência turbulenta, era um pessimista de carteirinha. Consegui quase os mil pontos e a vaga na tradicional Faculdade de Direito da PUC SP. Larguei o curso meses depois, mas jamais a ligação com Kafka. Todos os livros em tradução do professor de teoria literária, Modesto Carone.

Carone foi considerado um dos maiores tradutores do escritor de Praga. Entre 1983 a 2005, ele me deu o prazer de conhecer toda a obra de Franz Kafka (1883-1924). Classe de 1937, além de tradutor, Carone também deixou um precioso legado como escritor e ensaísta.

Na capa de Ângelo Venosa, o equilibrista ao lado da Catedral sorocabana

Em 1999, acabei lendo o único romance de Modesto Carone: “O Resumo de Ana” (Companhia das Letras, 1998). Estilo enxuto, narrativa realista acompanhando 100 anos de três personagens: a mulher típica do século XIX, Ana, a matrona, doméstica e verdadeira empregada do lar, sem direitos nem respeito.

Depois, há a história do filho, um operário alienado de uma cidade fabril do interior de São Paulo. O último narrador é o neto de Ana e sobrinho do operário Ciro, o narrador-personagem, um pensador.

Veio a descoberta: o bacharel formado em Direito pela USP, que fez doutorado em Tradução na Áustria, foi professor livre-docente da Unicamp por outros 15 e passou seus últimos 19 anos como professor emérito da FFLCH da USP, era sorocabano como eu. O romance se passava na “Terra Rasgada”, o significado em tupi de Sorocaba. Ganhou o prêmio Jabuti daquele ano.

Devo a leitura e o conhecimento de Kafka a um dos maiores tradutores que passou por estas terras. Faleceu o professor Modesto Carone que será velado no salão nobre da USP amanhã dia 17 de dezembro. Uma perda imensa para a nossa cultura.

O Terceira Margem homenageia e agradece a importante contribuição de Modesto Carone.

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