Lavando dinheiro em água morna

LÚCIA HELENA DE CAMARGO – Com elenco estelar encabeçado por Meryl Streep, “A Lavanderia” (Laundromat, Estados Unidos, 2019), dirigido por Steven Soderbergh, é uma comédia sobre o escândalo financeiro que ficou conhecido como Panamá Papers, que envolvia lavagem de dinheiro, desvios monumentais de recursos e muita, muita falcatrua. No Brasil nos acostumamos a ver no noticiário um escândalo por dia, então (infelizmente) parece quase banal ouvir falar de desfalques e corrupção. Mas fiquei intrigada com o formato e fui conferir o filme, lançado pela Netflix em 18 de outubro.

Gary Oldman e Antonio Bandeiras encarnam os advogados Jürgen Mossack e Ramón Fonseca –  que lembram o hospedeiro da ilha da fantasia, com seus ternos brancos. A dupla envereda por discursos cheios de eufemismos para explicar ao público o modo de, digamos, atuação, dos paraísos fiscais. A ironia torna engraçadas algumas sequências, mas a maioria delas é caricatural demais.

Sem questionar a origem do dinheiro, a dupla “administrava” as contas e mantinha tudo sob rigoroso sigilo. Até que uma fonte anônima decidiu revelar o esquema, expondo mais de 11 milhões de documentos. O material foi enviado em 2015 para jornalistas do jornal alemão Süddeutsche Zeitung. Depois, um consórcio internacional de reportagem de Washington analisou tudo por um ano, para começar a compreender os esquemas.

Para se ter ideia da dimensão dos “papers”, alguns números: estavam envolvidas 214 mil empresas ao redor do mundo, pessoas de 40 países, incluindo cinco mandatários de Estado, além de 29 multimilionários da lista das 500 das pessoas mais ricas do mundo. Em determinado momento, ficamos sabendo do papel nada irrelevante da brasileira Odebrechet em algumas operações.  

História real

O roteiro do longa-metragem foi baseado no livro “Secrecy World”. Em fatos reais, portanto. Apenas algumas licenças poéticas aparecem, como a personagem Ellen Martin, de Meryl Streep, inventada para dar liga às cenas. Ela vive a mulher que esteve em um acidente de barco (esse realmente ocorreu) no qual morre seu marido, entre outras pessoas. Ela decide investigar por conta própria o porquê da negativa no pagamento das indenizações, e acaba descobrindo a fraude relacionada ao seguro da companhia, ligada, evidentemente, à Mossak e Fonseca.

É a lógica. Para que alguns ganhem muito dinheiro (e mandem tudo para paraísos fiscais), alguém sempre vai perder. Quase sempre quem perde é gente comum.

Mossack e Ramón Fonseca, que passaram pouquíssimo tempo na cadeia depois do estouro do escândalo, tentaram impedir o lançamento do filme, segundo informações da revista Variety. Mas a juíza americana Janet Bond Arterton negou o pedido, dando ganho de causa à Netflix.

A boa notícia é que podemos assistir ao filme sem censura. Porém, o problema é ele não é assim tão bom. Um arco narrativo fraco, uma trama morna. Soderbergh, que entre outros dirigiu os ótimos “Sexo, Mentiras e Videotape” e “Erin Brockovich”, e a trilogia que começa com “Onze Homens e um Segredo”, não parece ter acertado o tom. Nem Meryl Streep salva o longa de ser fragmentado demais e, assim, não possibilitar que o espectador se envolva nas histórias. Quando começamos a nos interessar por um personagem, ele muda tudo para falar de outro, passando do africano que trai a mulher com a colega de quarto da filha à mulher do poderoso chinês que não perdoa a traição do banqueiro alemão.

A conclusão é que “A Lavandeira” entrega bem menos do que promete. Não chega a ser emocionante. E, para falar a verdade, nem muito engraçado.

Se alguém quiser entretenimento com mais drama e qualidade, além de entender melhor a origem desse tipo de dinheiro que vai parar nas offshores, recomendamos assistir “O Mecanismo”, série dirigida por José Padilha, também disponível na plataforma Netflix.

Lúcia é jornalista. E escreve também no blog www.menudalu.com.br

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