Errar é umano

FREDERICO MORIARTY – Era meu segundo ano em sala de aula e segundo na faculdade de História. Cursinho noturno e eu ministrando… geografia. A aula do dia tinha como tema “Fuso Horário”. Resolvo um, resolvo dois exercícios, eis que decido inventar um terceiro. Um desafio à inteligência dos alunos. Dito o problema. Minutos depois vou resolvê-lo. Conta pra cima, conta pra baixo, oeste, leste e… nada. Meia dúzia de vezes depois – todas elas fracassadas -, um aluno levanta a suspeita “- Será que tem resposta, professor?”. Não tinha. Depois da aula, sala dos professores, mostro ao mestre Francis, sábio da matemática.

– Que cagada. Não tem resposta – ele explode.

Na semana seguinte, volto à mesma sala com um cartão vermelho no bolso. A classe nem lembrava do fuso horário.

– Gente, errei. Não tem resposta mesmo. Desculpas. E ergui o cartão vermelho virado pra mim mesmo. Gritei “Tá expulso, professor!!”. A turma caiu na gargalhada.

Aprendi ali três coisas: I) jamais entre numa sala de aula sem prepará-la antes; II) assuma seus erros e III) quando não souber responder algo, seja honesto e humilde, diga que irá pesquisar ou que perguntará a outro professor. Exatamente como age o nosso presidente da República.

Aliás, toda profissão que lida com público deve estar consciente dos desafios como, por exemplo, a de médicos e enfermeiros. Lidam com as dores, os medos e as vidas de muitos. Na maioria das vezes, saímos satisfeitos pelo atendimento e cuidado. Mas sempre há pessoas que erram continhas. Nas últimas semanas, por conta da gestação das minhas filhas, estive dezenas de vezes no hospital com a esposa, agora mamãe de duas lindas menininhas. Minhas pequetitas.

– Estou com contrações fortes – falou Luana.

Corremos ao pronto-socorro. Uma da manhã no relógio. Depois de meia hora de espera, vem um cidadão lá do fundo, de chinelo de dedo e cara rachada de sono. A remela escorrendo pelos olhos . Uma versão piorada do Jack Nicholson em “O Estranho no Ninho”.

Jack Nicholson, em “O Estranho no Ninho” (Foto: Adoro Cinema)

– Qual o problema? Sem olhar pra gente e fazendo cara de quem não achava a setinha na tela do computador.

– Contrações fortes, doutor.

– Como sabe disso?

– Porque dói…

– Nem toda dor é contração.

– Está diferente – falou a esposa.

– Doeu com espaço de uma hora, depois meia hora e agora quinze minutos.

O energúmeno quase bateu a testa na mesa de sono. Levantou os dentes amarelos e cheio de tártaros.

– Quantas semanas?

– Quase 36.

– Ah, tá longe.

– Doutor, é gemelar.

– Ah, tá perto.

Exame vai, exame vem. Sou defenestrado da sala. Quatro horas e meia depois, a esposa vem com cara arrasada.

– Me furaram toda e o grosso do médico ainda falou que não era pra vir à toa no hospital, pra qualquer dorzinha.

Era tão dorzinha que no mesmo dia, preocupada com os resultados dos exames, a obstetra marcou o parto pra dali 2 dias. O mastodonte podia voltar a dormir sossegado no plantão médico (muito bem pago, diga-se de passagem).

O parto correu às maravilhas. Júlia e Laura, apesar de prematuras, nasceram fortes. O que exigiu cuidados adicionais na incubadora.

– Amanhã à tarde, elas vão para o quarto com vocês – anunciou a pediatra da área de risco.

Dia seguinte, a mamãe volta da amamentação radiante:

– Às 15h, elas vem para o quarto!!

Dezesseis horas…. e nada. Dezessete, nenhum choro. Às dezoito, silêncio quebrado pelo quarto vizinho com um paciente em surto psicótico. O relógio marcando 18h43’37” e uma enfermeira abre a porta do quarto e fala de longe:

– O papai pode vir aqui fora?

– Eu também. Era a mamis.

– A mamãe não!

Luz amarela na cachola.

– Então, papai, pode me acompanhar até a sala de cuidados…

– O que houve?

– Melhor explicar lá.

Foram os quatro minutos mais longos, silenciosos e terríveis da minha vida. Entro na sala, um pano azul escuro cobria totalmente cada uma das incubadoras. Sinal vermelho! Sirenes no ouvido. Boca seca.

– Então, papai, o destro…

– Primeiro lugar, por que as incubadoras estão cobertas?

– Ah, nada. É pra elas dormirem. Então, o destro de uma tá baixo e isso pode causar hipoglicemia. Nisso, chega a mamãe numa cadeira de rodas com motor turbo retroalimentado e questiona a chefe do local.

– O que aconteceu com as minhas filhas??? – diz, nervosa.

– Então, estava explicando ao papai que o destro…

– Pára! Olha aqui, não somos médicos nem da área da saúde. Dá pra falar em linguagem humana o que é esse raio de destro?!?

– O deXtro –  acreditando-se no direito de nos corrigir -, é a taxa de açúcar no sangue. Uma delas está um pouco acima do mínimo.  Então, elas não vão para o quarto hoje.

– Tá. E por que a minha esposa não podia vir aqui?

– Porque ela está com dor.

– Quem está com dor? – indagou a mamãe.

– Você! E apontou pra minha esposa.

– Eu não estou com dor!

– Mas você pediu remédio pra dor.

– Sim, porque a médica prescreveu uma dose às 16h e já eram 18h30 e vocês não aplicaram.

– Mas a senhora falou que tava com dor. Falou a outra enfermeira.

– Não falei!

– Então, não falou! Bateu o pé no chão, caíram três luminárias,  acendeu o alarme de incêndio e foi-se embora do local sem olhar pra trás. Humilde como o menino Neymar.

Passados três dias de nosso retorno pra casa, pela primeira vez as duas ficaram debilitadas. “Melhor levar ao pronto-socorro” – exigiu a ginecologista da família. Entramos assustados. A auxiliar de enfermagem foi super simpática, fez as fichas, nos ajudou, realizou exames, furou os dedinhos das duas (quase surtei). “ Aguardem a médica do plantão da pediatria”.

Tempos depois somos atendidos. Mulher mal-humorada. Usava óculos grandes e um agasalho de ginástica que sobrara dos tempos de colégio. O adorno formava um triângulo sobre os quadris e as pernas baixas. O cabelo desalinhado tinha ondas embaixo que lembravam aqueles rolos de tratores colheitadeiras de soja.

A doutora das madeixas ondulantes: mau humor e 1.000 descortesias

– R2D2 – falou com cansaço na voz.

– É Júlia.

– Aqui, no sistema, está R2D2.

– Já que está no sistema, aproveite para mudar, elas já tem nome e certidão de nascimento tirada neste hospital…

– O que acontece com a R…

– Então, a Júlia e a Laura…

– A Erre-dois-dê-dois – foi logo nos cortando, feito machado de filme de terror.

– Sim.  Elas passaram mal…

– Por que vocês vieram no pronto-socorro?

– Por que elas estão doentes?…

– Cadê a pediatra delas? – vociferou, com duas granadas na mão.

–  A primeira consulta é semana que vem. Tem que falar com a pediatra! Não venham no pronto-socorro!

– Elas estão com dor. Acho meio complicado esperar seis dias pra duas recém-nascidas.

– Quais os sintomas?

– Entre outros, uma Diarreia forte.

– Como assim diarreia? Definam o que vocês entendem por diarreia?

– Estão cagando demais. Falei meio bravo. – Em jatos. Sabe quando sai em jatos?

A esposa não aguentou a grosseria e o desrespeito, saiu da sala com uma das gêmeas no colo, muito nervosa com o atendimento de britadeira da “doutora”. Sai logo depois. A médica veio atrás gritando “voltem aqui”.

Na recepção reclamamos bastante da postura da médica. Eu não deixei por menos, soltei uma diarreia de palavrões aprendidos na vida. Dois casais de idosos que aguardavam atendimento nos aplaudiram.

– É isso mesmo! Cobram um dinheirão pra maltratar a gente – disseram.

Júlia e Laura concordaram, soltando um rojão cada e riram.

– Diarreia, papai. Era a R2D2 (a Júlia).

– Diarreia, mamãe. Foi a vez da C3PO (a Laura).

Clique em cima da palavra amor ou do desenho acima e leia o poema-ladainha que eu escrevi em homenagem às gêmeas.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: