Lila

José Carlos Fineis

O homem à beira da morte esticou o braço esquerdo para fora da cama e acariciou a cabeça do cachorro. “Os animais sentem quando estamos para morrer”, ele pensou fechando os olhos, enquanto corria os dedos pela pelugem curta e dura. “Este deve ser o De Lua. O De Lua é que tinha os pelos duros assim, quase como espinhos.”

O homem sabia que o cão não estava ali. Muitos anos atrás, De Lua pegara uma virose e morrera. Ele, o homem, ainda tinha os cabelos castanhos quando De Lua veio para casa, trazido pela companheira como presente de Natal para as crianças. Agora seus filhos estavam adultos, o mais velho chegando à meia-idade. “Quantos anos faz que o De Lua morreu?” Isso não tinha a menor importância.

Havia dias, seus animais de estimação vinham visitá-lo em seu quarto-UTI na casa da filha mais velha, para onde o levaram depois que os médicos concluíram que seu passamento era uma questão de dias – na pior das hipóteses, de semanas. Passamento era como se referiam à morte naquela família, por um desses tabus vernaculares.

Comentou com a filha caçula sobre as visitas dos animais. Queria que ela soubesse como se sentia feliz por revê-los e tocá-los. Ela tirou os olhos do whatsapp por um instante e sorriu: “Deve ser efeito do Tramal.” “Se for isso, viva o Tramal” – ele comentou com um resto de bom humor que se recusava a morrer. A filha voltara ao celular e não ouviu esta última parte da conversa.

Desde que os animais começaram a aparecer, ele se perguntava: “Será que ela virá?” Não a censuraria se não viesse, porque ele fora realmente cruel com ela. Lila, a vira-lata de pelos dourados. Mostrara-se indigno de seu amor da pior maneira possível. Não porque quisesse, mas porque não havia mais jeito de ficar com ela.

Foi no tempo das vacas magras. Precisou deixar a casa alugada e ir morar com a mulher num pequeno apartamento emprestado pela mãe. No novo lar não havia lugar para animais. Normas do condomínio. Ele poderia ter gastado algum tempo para conseguir uma nova família para Lila, mas a mulher estava grávida do primeiro bebê, as coisas não iam bem no trabalho e ele passou a agir como um idiota. Adotou a solução mais cômoda: colocou Lila no carro, foi até a saída da cidade, pôs a cachorra para fora e voltou para casa.

Lila. Esse nome e essa lembrança brotavam em sua mente desde então, sempre com uma onda de angústia. Nunca mais sua felicidade ou bem-estar foram completos, pois havia essa nódoa, esse arrependimento. Lila se tornou uma nota triste em sua vida. Sua felicidade não foi mais inteira. Nem quando os filhos nasceram, nem quando foi promovido, nem quando ganhou uma viagem de férias a Fortaleza com tudo pago, nem quando se aposentou.

“Alguém deve tê-la adotado”, dizia a mulher, cúmplice do abandono, na tentativa de consolá-lo. Mas ele, sempre tão racional, sabia que essa era uma hipótese improvável. Quem, nestes tempos de egoísmo extremo, pararia o carro na rodovia para recolher uma cachorra adulta abandonada?

Talvez para provar que esse tipo de ação era possível, ou para tentar compensar o malfeito, ele próprio o fez, anos mais tarde, quando pôde comprar uma casa térrea com quintal. Certa feita, voltava para casa e viu um cãozinho preto no acostamento. Tinha machucada uma das patas e mancava, a perna encolhida. Parou o carro, colocou o cão no banco de trás e levou-o a uma clínica veterinária. Gastou um bom dinheiro com vacinas, vermífugos, banho, tosa e a cura do ferimento. Muitas centenas de reais depois, foi buscar Bruce e levou-o para casa. Não foi preciso explicar nada à mulher. Ela apenas se agachou e abriu um sorriso. “Oi neguinho! Como você é lindo! Tá com fome? Vem aqui que a mamãe vai dar uma ração bem gostosa pra você.”

Assim como De Lua e os outros, Bruce passara pelo quarto-UTI, dias atrás. Ficara alguns instantes ao lado da cama para receber sua cota de carinho. Depois o homem dormiu e quando acordou estava só, no escuro. Um pensamento lhe ocorreu, num desses devaneios causados pela fraqueza e pelos remédios. “Se Lila vier, eu saberei que existe perdão.” Mas os dias e noites passavam. Vieram gatos de que ele quase se esquecera. Até as calopsitas genéricas, sem nome, fizeram barulhentas revoadas sobre a cama, e nada de Lila aparecer.

“Você acha que a Lila vem?”, perguntou mentalmente à mulher, falecida seis anos antes. Era um hábito secreto, talvez um pouco de loucura. Para atenuar a solidão da viuvez, decidiu conversar em pensamento com a mulher. Ele sabia que ela estava morta e não podia ouvi-lo. Apenas conversava com ela e, conhecendo bem seu jeito de pensar, imaginava-a dando-lhe uma resposta. Agora mesmo, era como se pudesse ouvir claramente a voz da companheira, a aconselhá-lo: “Pare de ser bobo, homem. A vida inteira sofrendo por causa de um bicho. Ponha uma coisa na cabeça: você foi um homem bom. Ajudou muita gente. Nunca matou uma barata. Nem queimou uma floresta cheia de animais, como fazem certos filhos da mãe.”

Nos últimos dias os instantes de lucidez se tornavam mais raros. Passava dias e noites imerso em um sono suarento. Sentia como se estivesse afundando em um lago de águas escuras e pegajosas. Os parentes vinham, ficavam alguns minutos sentados ao lado da cama, mas não conversavam mais com ele. Conversavam entre si. Falavam de planos, de viagens, de aquisições. Alguém comprara um carro importado e só falava nisso, no carro. “Estúpido, seja lá quem for”, pensou. Já não reconhecia as vozes.

Com os olhos fechados, ouviu quando vieram desligar os aparelhos. “Vou descansar, afinal.” Minutos depois, deixou de ouvir o bip irritante de uma das máquinas. Um silêncio tranquilizador tomou conta do quarto. Nem mesmo sua própria respiração ele ouvia. Apenas, muito distantes, as conversas dos filhos e parentes, que falavam em voz baixa do outro lado da porta de madeira maciça.

Foi então que abriu os olhos. Sua mente estava desperta. As dores e o torpor haviam sumido. Sentou-se na cama. Seu corpo finalmente estava livre das agulhas, sondas e eletrodos. Esticou as costas com prazer, jogando os braços para trás, pela primeira vez em muitos meses. Mexeu a cabeça para um lado e para o outro, estirou as pernas. Pôs os pés descalços no chão, que estava frio. Arrastou-se hesitante para fora da cama alta. Estava de pé novamente.

Agora não havia mais cama nem paredes. Apenas uma estrada de terra cercada de árvores antigas. Caminhou em silêncio depois de escolher a esmo uma direção. Enchia os pulmões com o ar fresco que vinha da mata. Ouvia o canto dos pássaros. Mas estacou, encabulado, diante de uma encruzilhada. Não havia placas. Para que lado seguir?

Ela chegou por trás com um barulho alegre de patas e roçou a cabeça em sua mão. Ele a reconheceu intuitivamente. Olhou para baixo. Lila. Tinha uma coleira e uma guia, que arrastava na poeira. Ele se pôs de joelhos. “Lila, minha querida” – disse em voz alta, com lágrimas correndo por todo o rosto. “Você me perdoa, Lila?” A cachorra o observava com olhos amorosos, enquanto ele acariciava seus pelos longos e macios.

Apanhou a guia. Começava a anoitecer. Caminharam. Lila ia à frente e ele se sentiu seguro quando ela escolheu o caminho.

Imagem de Free-Photos por Pixabay 

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