Surreal à francesa

LÚCIA HELENA DE CAMARGO – As viagens no tempo atiçam a imaginação. Quem nunca fantasiou sobre como teria sido viver em uma época no passado ou teve vontade de avançar ao futuro, para espiar como as pessoas vão viver daqui a alguns anos, séculos, milênios? A série francesa “Era uma Segunda Vez” (Netflix) mistura essa curiosidade com romance em um roteiro singelo, que não parece ter a pretensão de ser original, e talvez por isso mesmo consiga contar uma história mais ou menos coerente.

Há algumas coisas que não são jamais explicadas, é verdade. E nem é o caso de ficar esmiuçando possíveis furos, porque a ideia central (ou assim nos parece) não é pensar sobre as possibilidades físicas, mas discutir miudezas de um relacionamento amoroso e quais componentes podem perpetuar ou esmagar o romance.

No caso, o rapaz Vincent (Gaspard Ulliel, de “É Apenas o Fim do Mundo”), fica desolado quando Louise (Freya Mavor) termina o namoro. Mas ele recebe uma caixa de madeira, na qual entra (não pergunte os motivos) e é transportado para nove meses no passado. Portanto, volta ao tempo em que ainda estava com a namorada. Pouco depois do rompimento (não é spoiler, isso está até na sinopse da série), Louise morre.

Ao voltar no tempo, ele então começa a tentar consertar pequenos problemas, melhorar as respostas, ser mais prestativo e atento, observar mais de perto as reações da moça na tentativa de entender o que a teria levado a por fim ao relacionamento. Vai ficando mais ambicioso e, à medida que avança, pretende até evitar a morte dela.

A linha que conduz a trama é a consulta com a psicóloga, na qual ele relata sua trajetória de erros e acertos, dúvidas e dribles nos fatos que têm por objetivo final não perder a garota.

“Você envelheceria comigo? Gostaria de mim até quando eu ficasse enrugada?”, pergunta Louise. Vincent responde prontamente que sim, mas tem um segundo de hesitação, por lembrar do futuro sombrio, e então ela não parece se convencer de que ele ficaria com ela até a velhice.

Vicent segue indo e voltando no tempo, pois precisa voltar ao presente para cuidar do filho pequeno. Em determinado momento, porém, ele tem uma ideia que bagunça a lógica: e se ele fizer a Louise do passado atravessar o portal até o presente? As consequências podem ser catastróficas. Ou um final feliz à francesa.

Lúcia é jornalista. E escreve também no blog www.menudalu.com.br

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