A dramaturgia como formação de espectadores na região

JOSÉ SIMÕES –  Fiz uma  lista de desejos – que neste ano de 2020 foi mais extensa  – e dentre eles se encontra o que denomino como “dramaturgia como formação de espectadores”.

Eu gostaria que os os artistas, os grupos, os coletivos e companhias de teatro e região escolhessem textos considerados ou denominados clássicos para levá-los à cena. Que esta escolha fosse um processo intencional de formação de espectadores leitores do teatro. Buscar colocar em cena aqueles textos teatrais que sobreviveram ao tempo.

Uma pausa. Entretanto, antes de avançar,  esclareço que não tenho nada contra a renovação dramatúrgica e muito menos contra os novos dramaturgos e sua dramaturgia. Inclusive acho-a necessária.

Porém, considero que estamos diante do fato que  o texto teatral  – a dramaturgia ou a literatura dramática –  perdeu o seu espaço na escola e no dia a dia dos leitores. São raros os jovens que já tiveram na mãos um texto teatral para leitura. Assim como são poucos os professores que tratam ou apresentam a literatura dramática aos seus alunos, principalmente, os clássicos. É certo que a este se fato somam-se tantas outras questões, como por exemplo, a ausência de textos impressos e a falta de estímulo a leitura como todo. Não somos um país (generalizando) de leitores. Ao fim são muitos que nunca leram uma peça de teatro ou sequer sabem quais são as características de um texto dramático. Um texto teatral é diferente em muitos aspectos de um texto literário.

A pesquisadora  Anne Ubersfeld  afirma que

” o texto teatral é, salvo notável exceção, feito para ser representado”.

Este é um dos pontos importante para o leitor do texto teatral. O que está ali, na forma de texto, é algo acabado preparado para ser transmutado na cena. Isto é um texto que deseja ir de um lugar para outro; mudar de uma circunstância para outra; transformar ou transformar-se.  É nesse ponto que se revela a singularidade do texto teatral. Tal característica permite, quando se colocar um texto em cena, que ele possa assumir uma infinidade de facetas. É bem por isso podem coexistir duas ou três montagens do mesmo texto teatral numa mesma cidade. Isso porque a chamada “leitura” proposta pelos artistas – atores, atrizes e diretores – sempre estará carregada de algo próprio em diálogo com o seu tempo.

Outras características do texto teatral citadas por Anne Uberfeld são a presença dos “buracos”  no texto que seriam preenchidos pelos mediadores.  Assim como a autora aponta no texto dramático a presença tem quatro vozes –  autor,  a personagem- emissor, a personagem receptor e a plateia. Tudo junto e misturado e indissociável na encenação.

Porém, mais do que isso, um texto dramático é, também, uma testemunha do seu tempo. Um registro vivo da sociedade daquele lugar, naquele tempo. Por isso a leitura dos textos teatrais e a montagem dos clássicos são fundamentais para a formação do espectador do teatro.

É justamente esta possibilidade de dramaturgia como formação teatral que aponto como desejo para agenda teatral da cidade de Sorocaba e região. Vamos ampliar de modo intencional a leitura de textos teatrais na região.

Reitero: se é preciso ler teatro (e muito mais) para se fazer teatro é,  também, importante a formação dos espectadores  por meio das encenações.

Para além das encenações o mais poderíamos fazer ? Como sugestão que tal a criação de um clube de leitura teatral ou ciclo de leitura? Discussão e debates. Não nos faltam bons modelos.

De minha parte, também, me coloco a disposição dos professores  do ensino médio e fundamental, que por ventura precisarem de sugestões  de textos de teatro para leitura nas salas de aula destinado a jovens, adolescentes e crianças,  que me escrevam,  terei o maior prazer de lhes indicar sugestões.

Arregaçar as mangas e buscar soluções para enfrentar esta crise de conhecimento que vivemos na atualidade.

Basta de leituras apenas “do título da chamada jornalista ou do post”.  A maior arma de um indivíduo e da sociedade está na leitura e no conhecimento.

Vamos a ela! Viva o teatro!

Seja bem vindo 2020.

Para saber mais

Clique para acessar o jr-jose-simoes-almeida-ler-o-espaco-teatral.pdf

Para pensar

Roberto Gill Carmargo (2003)

O que prende a atenção do espectador é predominantemente o fluxo contínuo da ação, a complexidade crescente no conflito, a evolução psicológica, as pausas, os olhares, as cumplicidades, os gestos denunciadores, enfim, incluir uma quantidade de sinais que devem parecer motivados, espontâneos e naturais, para que causem no espectador a impressão de estar diante de algo tão verdadeira quanto a própria realidade

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