Ignorância bolsonarista desmantela a Casa de Ruy Barbosa

GERALDO BONADIO – Há muitos e muitos anos, numa galáxia distante, ao elaborar o projeto para digitalizar a coleção do jornal Cruzeiro do Sul, de Sorocaba, vi-me diante de uma questão complicada.

A coleção do jornal somava, à época, mais de 20 mil edições. Estas se achavam reunidas em dezenas de encadernações, executadas, ao longo do tempo, com diferente nível de maestria.

A conservação variava muito, de caso a caso. Estranha, mas justificavelmente, as mais recentes se achavam em pior estado, pois agregavam edições com maior número de páginas – o Cruzeiro do Sul era, então, o veículo publicitário mais buscado pelas agências de propaganda e pelos que tinham algo a publicar nos classificados, em razão de sua tiragem. Houve momentos em que a circulação auditada ultrapassava os 40 mil exemplares. Além disso, as margens internas – de uma página para outra – eram cada vez menores, pois o estreitamento delas permitia a redução do tamanho e peso das bobinas de papel, cujo preço era calculado pelo peso.

Essa penca de questões, que a era digital tornou irrelevantes, eram decisivas na ocasião. Não havia como digitalizar as coleções com os exemplares presos às encadernações. E a simples movimentação destes ocasionava perda de conteúdo, pois o papel jornal, produzido com fibras curtas de madeira, não era feito para durar.

O Brasil tinha, naquele momento, dois centros que detinham conhecimento sobre como lidar com publicações impressas em papel-jornal: a Biblioteca Municipal Mário de Andrade, de São Paulo, e a Fundação Casa de Ruy Barbosa, no Rio de Janeiro.

A Mário de Andrade dispunha de uma excelente equipe de profissionais em preservação e restauro de obras, chefiada por um especialista da família Longo, aqui de Sorocaba. Vivia, entretanto, um momento muito ruim, pois o prefeito da época – Jânio Quadros – a deixara sem recursos.

Aprendi, com os seus especialistas, que preservar e restaurar jornais e revistas é coisa mais difícil do que fazer o mesmo com livros editados há dois ou três séculos, pois estes, impressos em papel de fibras longas, obtidos através do reaproveitamento de trapos, podem ser facilmente lavados, clareados e reparados. Nada disso é possível com o papel-jornal. Este, uma vez molhado, se transforma numa pasta disforme, utilizável apenas à produção de objetos de papel machê.

Só me restou ir até o Rio de Janeiro. Pude, então, conhecer a extraordinária instituição que é a Casa de Ruy Barbosa, uma casa-museu que, além de preservar a memória do grande jurista e dos objetos que o rodeavam no dia a dia – das carruagens na estrebaria à mobília de suas dependências – desenvolve, a cada dia, seminários e cursos em numerosas áreas do conhecimento.

Ao longo de uma tarde, numa visita monitorada pela responsável da área, acompanhei os meticulosos procedimentos através dos quais coleções de revistas e jornais são retirados de seus suportes, limpos, desinfetados e recompostos passo a passo, antes de, ao fim e ao cabo, serem ou reencadernados ou armazenados em caixas especialmente produzidas, armazenados em ambientes com temperatura e umidade controladas, às quais só têm acesso pesquisadores que precisem de informações impossíveis de serem obtidas a partir da cópia digital, como, por exemplo, o tipo de linha que se usava para costurar os exemplares antes de reuni-los numa encadernação.

As informações que reuni, naquela rápida visita, foram essenciais para o trabalho que coordenei anos depois. A partir dela, pude elaborar um passo a passo elencando as sucessivas etapas a serem obedecidas, o que, mais adiante, colocaria o Cruzeiro do Sul na condição de possuidor de instalações de ponta para o manejo e preservação das edições do jornal – tudo projetado e executado em Sorocaba, com mão de obra da casa.

No implacável desmonte de tudo aquilo que cheire a desenvolvimento e avanço, a abominável administração do presidente Bolsonaro ataca, agora, a Casa de Ruy Barbosa. É mais um entre os muitos desatinos de uma administração que só tem no Brasil a sua Pátria Amada da boca para fora. Sob o aplauso dos apedeutas, dos fanáticos e dos bestializados, o país continua a rolar montanha abaixo, rumo à barbárie…

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