Adeus, Sorocaba

Paulo Betti

Amigos, compartilho com vocês algumas mensagens trocadas no grupo de WhatsApp “Blogueiros Independentes”, que reúne os integrantes do coletivo Terceira Margem.


Paulo Betti

(encaminhada)

Vontade de zarpar.

Tchau Sorocaba
fique com tuas artérias entupidas,
tuas ideias atrofiadas,
teu totem sistêmico,
sua asma cultural,
teu povo hype descolado e ignorante,
tua verve fechada,
Metida a cristalina
Tua válvula de escape
Cocaína,
Tua sucata de trens
Tuas tv tem
Tchau Sorocabaninha
Bar bife sujo
Baratas na coxinha
Tua política de bigodes
Tua câmara de revés
Lacrimogêneo
Tua ausência de governo
Teu esgoto a céu aberto
Teus veios, beijos venenosos
Tuas bocas
Injeções infra venosas

Teus paralepípedos
Tua aranha mutagênea
De cimento
tua vizinha de concreto
Tua arte esquecimento

Adeus Sorocaba
Tchau Chinatown
De um e tlintas
teu cinzar sem tintas
Seus disses me disses
Suas senhas das crendices
Teu paço a frente
Teus candidatos
Suas rachaduras
Teus artistas
Com artroses
Sua plebe romântica

Sua gente limpa
Sua padaria realista
Suas boates

Suas marginais
Alagadas
Seus ícones de mazelas
Que se clica abre uma janela
Tchau mesmo Sorocaba
Cidade com nome de mulher
Onde eu nasci,cresci
Me reproduzi e morri

Fique ae com seus políticos
Seus bodes astronômicos
Cidadezinha, comesinha
Sua gente, inclusive
Os amiguinhos da serpente
Teus shoppings, atrasados
Sem setas
Cidade boa com gente escrota dentro
Terra rasgada sem cultura
Onde pasmem, a gente costura
Tchau Sorocaba!
Amo-te indigente
Mas tenho horror de sua gente!

Terra da traição, da passaperna
A edícula ridícula, eterna
Aonde tive amigos que passaram
Com o vento, no advento adversário
da rasteira e da cisterna

Dor discreta, essa cidade grande
que afoga seus poetas
Terra promissória, é um misto de paixão
Eu te amo, mas não suporto mais a traição.

Vai ter volta!


Paulo Betti

👆 meu amigo poeta Godzila.


José Carlos Fineis

Ai que susto. Pensei que você estava declarando guerra a Sorocaba!


José Carlos Fineis

Passei por aqui, lembrei da Janice com seu acordeão.


Marco Merguizzo

Quem é? Explica por favor pra quem não é daí da grande Sorocaba… 🙂 (*)


Pedro Cadina

Corredor / rua ao lado da igreja matriz. Da Janice tenho vaga lembrança. (**)


José Carlos Fineis

Janice Vieira é veterana da dança em Sorocaba, coreógrafa. No filme do Paulo Betti é aquela figura que aparece tocando acordeão vestida de noiva, nesta rua ao lado da Catedral (rua Carlos Gomes).


Marco Merguizzo

👏🏼👏🏼👏🏼


José Carlos Fineis

Nos anos 80 eu queria ir embora de Sorocaba e escrevi um poema nessa mesma linha do Godzila. Depois esse poema foi transformado em música e ganhou um ritmo de seresta misturado com samba. Em toda minha breve carreira de compositor, fiz dois sambas, apesar de ter sambado em sentido figurado a vida inteira. A referência a “cão fila” só os mais velhos vão entender. É que, quando a gente ia de Cometa pra São Paulo, tinha umas pedras no caminho pintadas com essas palavras: “CÃO FILA”. Alguém lembra disso?
O poema era assim:

Província!
Solene, despeço:
perdeste um suicida.
Moisés! — e metropolitano,
eu reparto a minha vida
a leves golpes de cajado.
Uma vida é esta, que eu esgano,
ao som da outra vida,
que mais parece um fado.
E vão
surgindo no horizonte
vampirescos e bifrontes,
os poetas sem rima,
os fabricantes do som,
as vanguardas e as elites,
como um dia eu sonhara ser,
Macunaíma
apaixonado por teus olhos de neon
e teus rebites!
“Cão fila! Cão fila! Cão…”
Provinciais melancolias, adeus!
Metrópole, ainda que por um dia,
um breve dia,
aqui vou eu.


Frederico Moriarty

Muito bom Fina. Tem gravação??


José Carlos Fineis

Rapaz, só se eu gravasse, o que é muito pouco provável devido à minha timidez e à voz que não ajuda!


Frederico Moriarty

Aliás vou contar mais duas… Em 86 fui fazer direito na PUC. Todo dia pegava um ônibus que descia a rua detrás do cemitério da Dr Arnaldo. Aquele monte de jazigos escuros, aquela cidade dos mortos que parecia ser maior que a minha Sorocaba me incomodava. Mas eis que lá no fim da descida a gente virava à esquerda – e pra esquerda sempre vem coisa boa – e dava de cara com uma pichação que era um desenho dum detetive e a frase embaixo dele, em letras garrafais:
“A cerveja custa CZ$ 6 80”
Quem viveu o plano Cruzado entenderá.
Dois anos depois eu estava na USP, fui fazer História e tudo quanto é canto, todo banheiro, masculino e feminino, privada, mictório, estava escrita a caneta vagabunda:
“Carlos Eduardo homem lindo do brasil”
Não tinha uma pessoa que não queria saber quem raios era o Carlos Eduardo…

Junta com o cão fila, o cometa e a tua canção do exílio que dá um puta conto.


José Simões

Gente! Este coletivo é muito intenso. Não dou conta rsrsrs. Tem tanta coisa que me faz refletir… Obrigado.

Notas

(*) Marco Merguizzo reside em São Roque
(**) Pedro Cadina é de Sorocaba e reside há muitos anos em São Paulo

Créditos

Foto principal – Janice Vieira em primeiro plano, com Paulo Betti e Eliane Giardini ao fundo, em cena do filme “A fera na selva” (Fernando Henrique/EFE).

Foto da rua Carlos Gomes: José Carlos Fineis

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