Campineiro, um dos maiores desportistas da história paulista

FREDERICO MORIARTY (Blog Pipocando La Pelota) – Toquei a campainha do apartamento com temor reverencial. Ele me atendeu com um sorriso largo no rosto. Estendeu-me a mão. Esta era de palma larga e dedos longelíneos e pontiagudos, essenciais para um bom jogador de basquete. Entrei no apartamento simples, sentei-me no sofá que ele me apontou. O ex-técnico questionou o motivo da minha visita.

– Campineiro, recebi um convite pra jogar no Sírio. Acho que vou embora pra São Paulo. Qual sua opinião?

– Ôôô, Corintiano…

Era assim que ele tratava carinhosamente os jogadores de quem gostava. Continuou a falar comigo com a voz grave e a língua um pouco presa.

– Você é novo, Corintiano. Faz pouco mais de um ano que joga basquete. O Sírio é um grande time, tem gente da sua idade que joga lá há 9 ou 10 anos. Pense bem…

Eu acabara de completar 16 anos. Jogava numa categoria que ia dos 16 aos 18 anos. Era inexperiente. Campineiro me alertava para os problemas. Ainda mais que o “time do Aeroporto” (apelido do E.C. Sírio da capital paulista) era o super campeão paulista, brasileiro e único mundial da história de nosso basquete.

Quatro titulares do time principal do Sírio eram da seleção brasileira, fora a maior dupla de alas Marcel e Oscar que deixaram o clube dois anos antes. Nas categorias de base havia uma mescla dos melhores jogadores do interior paulista, com atletas selecionados em peneiras que contavam com centenas de futuros craques procurando jogar no famoso clube de basquete.

A camisa vermelha e branca do Sírio possuía o peso dum Boeing 747. Mesmo assim eu decidira topar o desafio. Campineiro apoiou com as ressalvas e lançou um último conselho:

– Você é pivô! Vá lá e seja pivô!

– Mas eles me querem como ala. Dizem que sou muito baixo pra pivô…

– Pivô. Jogue de pivô. É esse seu dom.

Foi a última vez que conversei com meu técnico. Sai meio chateado. Mudei-me pra São Paulo. Deixei a camisa 7 de pivô da A.D. Minercal guardada e passei a vestir a 15 de ala do E.C. Sírio. Detalhe: antigamente a numeração no basquete amador ia do número 4 ao 15. O último, em geral, era entregue ao pior da lista.

As flãmulas trocadas eram uma tradição do basquete, então segundo esporte na preferência nacional

Newton Corrêa da Costa Júnior nasceu em Campinas em 1924. Foi bom jogador de basquete nos anos 1940 para 50. Estudioso, formou-se em educação física e no começo dos anos 50 passou a ser treinador de basquete.

Veio trabalhar em Sorocaba no meio dos anos 50 e por aqui ganhou o apelido Campineiro. Sempre foi enérgico nos treinamentos. Exigia uma dedicação extrema e centrada nos fundamentos. A cada treino ele trazia uma novidade que nos revelava bem depois.

Na escolinha de basquete, onde aprendi a jogar, ele propunha coisas malucas. Exigiu que treinássemos dias e mais dias com um óculos de natação nos olhos. Antes de usá-los ele nos fez pintar todo o plástico com uma tinta preta. Havia apenas um círculo livre na frente do acessório, do tamanho de um feijão. Esse era nosso campo de visão.

Ou seja, passavámos horas caçando a bola ou dando cabeçadas nas paredes. Quando percebeu que começávamos a bater bola sem olhar para a mesma, nos explicava o porquê do treino: “jogador não pode olhar na bola , tem de olhar o jogo”.

Terminada essa fase, ele trouxe dezenas de bolinhas de tênis. Outras semanas apanhando nas quadras, a gente tentando dominar um coquinho amarelo que pulava feito doido. “A bola não existe, esqueçam dela”, falava Campineiro. Ele nos fazia treinar fundamentos de controle de bola, arremesso, lance livre, passe, posição na quadra, pegada correta na bola, bandeija e tudo aquilo que um pretenso craque odeia fazer – aprender.

Numa época em que não havia quase mulheres nas ruas, nos empregos e nas quadras, a seleção de Campineiro desafiava qualquer um. Detalhe para a elegância das cestobolistas sorocabanas.

Campineiro era perfeccionista. E aplicava métodos inovadores. Estudando o basquete norte-americano, ele descobriu um time que se especializou em arremessar bolas que batessem na tabela e depois caíssem na cesta. E lá vinham treinos de como arremessar na tabela e caso a bola não entrasse, definir qual a posição correta de os pivôs pegarem os rebotes.

Nos anos 50, Campineiro introduziu o jump. Nos primórdios do basquete, os jogadores paravam na quadra e arremessavam com um pequeno impulso. O jump é uma técnica simples. O atleta sobe o mais alto que pode (em geral, em movimento e em posição vertical, para não sair um lance torto) e, só depois de chegar ao ápice, a bola sai da mão em direção à cesta.

Não existe um jogador hoje que não arremesse em jump. Lembrem -se que no final dos anos 70, um dos armadores da seleção brasileira de basquete, Hélio Rubens, arremessava a bola com as duas mãos. Trinta anos depois de Campineiro. trazer o jump para nosso basquete.

Jump na NBA

Os treinos físicos eram terríveis. Vira e mexe havia os desafios: depois de 3 a 4 horas de treino puxado com bola e ensinamentos táticos, com todo mundo extenuado, Campineiro saía conosco para o lado de fora do Ginásio e dava as ordens:

– Quem der uma volta em torno ginásio em menos de três minutos pode ir pra casa. Descansados, a gente corria em dois minutos e cinquenta. Isso quer dizer que, vez ou outra, dávamos 4 ou 5 tiros em volta pra atingir a meta do técnico. Um dia, ele nos contou o porquê do desafio:

– Basquete tem prorrogação. Tempo extra. Vários estudos mostram que o atleta atinge seu limite de rendimento perto do fim de uma partida. Numa prorrogação ele tem cãimbras, as pernas travam, o cérebro não acompanha o corpo. Por isso o desafio. Treinar para vocês tirarem energia de onde não existe.

Campineiro “estudava” os adversários. Sabia e nos contava como jogava o time que nos desafiava. Quais os pontos fracos e qual jogador deveríamos nos preocupar. Enquanto a maior parte dos times possuíam e possuem duas ou três variações de jogadas. Já Campineiro nos obrigava a treinar S-E-I-S!

A imbatível equipe de basquete feminino de Campineiro. As famosas formiguinhas .

O resultado de todo esse método? Entre o final dos anos 50 e final dos 60, os times femininos de Sorocaba e Votorantim, treinados por ele, ganhavam tudo, além de serem a base da Seleção Brasileira. Com um detalhe: todas as jogadoras eram naturais das duas cidades.

Campineiro era uma usina de revelar jogadoras e jogadores. Mais de duas dezenas de atletas que chegaram à Seleção Brasileira masculina e feminina (e nas categorias de base), foi “cria” dele.

Cruzeirão: o maior torneio de futsal desde 1960

Em 1960, Campineiro foi convidado pelo prefeito Gualberto Moreira (depois virou o nome do Ginásio de Esportes sorocabano) para ser diretor municipal de Esportes. Para difundir ainda mais a prática esportiva pela cidade, nasceu a ideia de criar campeonatos de várias modalidades e batizar cada um deles com o nome de um órgão de imprensa.

Surgiam assim a Prova Ciclística Diário de Sorocaba, o Torneio de Trios de Basquete Folha Popular, os Jogos Infantis Rádio Cacique, o Torneio Regional de Vôlei Rádio Vanguarda, a Prova de Pedestrianismo Rádio Clube de Sorocaba e o Torneio Aberto de Futebol de salão Cruzeiro do Sul.

A estratégia era garantir, ao mesmo tempo, a revelação de novos talentos e a divulgação das competições. Os torneios de vôlei, basquete e futebol de salão sobreviveram até 1968, ano em que Campineiro seria afastado da secretaria. Passados 60 anos, o Torneio de Futsal Cruzeirão ainda existe e é reconhecido como o maior torneio do mundo na modalidade.

Diário de Sorocaba (1982): Campineiro é o último em pé (à direita). O retorno às quadras sorocabanas.

Campineiro só retornou às quadras sorocabanas como técnico em 1982. Voltou para dirigir as equipes infantil, infanto-juvenil, juvenil e principal do basquete masculino da cidade, patrocinado pelo grupo Minercal.

Os times das categorias de base só contavam com atletas da cidade. Na equipe adulta, somente dois jogadores eram “estrangeiros”. Mais uma vez, por questões políticas e o temperamento irascível, Campineiro foi afastado no fim daquele ano.

Nos dois anos seguintes, com boa parte dos jogadores revelados pelo técnico defenestrado, Sorocaba foi campeã de dois jogos regionais, campeão da série B do Paulista e campeã do interior no juvenil.

O basquete nos postes de Sorocaba, Votorantim e região

Eu passei um ano no Sírio. O técnico Ciero quase nunca me colocava pra jogar. Eu não era um bom ala. Voltei a Sorocaba no ano seguinte. Campineiro não estava mais no banco. Num torneio, pegamos o temível Sírio. Na primeira partida, faltando apenas um minuto e quarenta e cinco segundos pra acabar o jogo, nós perdíamos de 10 pontos.

Lutamos, marcamos pressão, corremos feito loucos e conseguimos levar a partida para a prorrogação. Daí foi um passeio. Com os treinos-desafio que nos acostumamos, metemos 7 pontos de diferença (não havia a bola de 3 pontos ainda, senão seria maior a diferença ). E detalhe: dentro do ginásio em que anos antes o E.C. Sírio tornou-se campeão mundial.

A partida da volta foi mais fácil, ganhamos de 16 pontos de diferença. Dois pivôs do Sírio saíram com 5 faltas, pois não conseguiam marcar o pivô caipira 20cm mais baixo do que eles. Terminei ainda como segundo cestinha e maior reboteiro. Ao final da partida, o técnico Ciero me procurou e falou:

– Muleke, por que você não me falou que jogava tanto?!

– Porque você quis me colocar de ala. Sou pivô, Ciero – pivô!!!

O pivô da Minercal (Arquivo pessoal)

Passados 20 anos, reencontrei Campineiro numa padaria. Percebi que ele não me reconheceu, eu estava com 35 anos, pesava uns 45kg a mais. Silenciei, não por não ter “vingado”, mas em virtude da vergonha em ter de conversar e contar-lhe o quanto fui burro em não seguir o conselho tão sábio que ele me passara: de aceitar quem eu era.

Campineiro morreu em 11 de agosto de 2014. Eu morava em São Paulo e nem sequer soube dessa enorme perda para o esporte brasileiro. Arrependo-me e só queria ter um desafio pós-treino do mestre no basketball: uma última corrida em volta do ginásio de esportes da cidade para, ao final, dar um abraço no grande Campineiro e pedir desculpas por não acreditar nele uma única vez. Infelizmente, a mais importante.

2 comentários em “Campineiro, um dos maiores desportistas da história paulista

Adicione o seu

  1. Grande personagem, homenagem e texto – bravo!

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: