Toada baião de Zé Dantas e Gonzaga rejeita esmola para o Nordeste

GERALDO BONADIO (Blog do Bonadio) – Em 1953, um ícone da música nordestina – Luiz Gonzaga – sacudiu o país com uma toada baião que classificava como esmolas, e os rejeitava, os auxílios emergenciais para o Nordeste, vindos dos governos e pela mídia do Sul. Cantada por Luiz Gonzaga, também autor da música, tinha letra de Zé Dantas, no caso, o médico José de Souza Dantas Filho (1921/1962), e recebeu, em quase sessenta anos após seu lançamento, grande número de regravações – até porque sua atualidade se mantém.

Dantas, nascido em Carnaíba de Flores, PE, estudou no Colégio Americano Batista do Recife. Tinha 17 anos quando se manifestou sua vocação para compor xotes, baiões e toadas. Graduando-se em Medicina na capital pernambucana, especializou-se em Obstetrícia no Rio. De volta ao Recife, alternava o trabalho de médico com noitadas boêmias.

Foi numa delas que, ainda estudante, conheceu Gonzaga, e dele se tornou, rapidamente, o principal parceiro. O rei do baião dele gravou, entre outras composições, sucessos como “A Volta da Asa Branca” ou “O xote das meninas” (Mandacaru quando fluora na seca…). Dele, também, é o “Forró em Caruaru”, gravado por Jackson do Pandeiro (“Matamo dois soldado, quatro cabo e um sargento…)

As gravações de “Vozes da Seca”, com ou sem a participação de Gonzaga, como a que reuniu Dominguinhos e Elba Ramalho, são numerosas e sua letra, como se vê, mantém sua pungente atualidade:

Seu doutô os nordestino têm muita gratidão

Pelo auxílio dos sulista nessa seca do sertão

Mas doutô uma esmola a um homem qui é são

Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão

É por isso que pidimo proteção a vosmicê

Home pur nóis escuído para as rédias do pudê

Pois doutô dos vinte estado temos oito sem chovê

Veja bem, quase a metade do Brasil tá sem cumê

Dê serviço a nosso povo, encha os rio de barrage

Dê cumida a preço bom, não esqueça a açudage

Livre assim nóis da ismola, que no fim dessa estiage

Lhe pagamo inté os juru sem gastar nossa corage

Se o doutô fizer assim salva o povo do sertão

Quando um dia a chuva vim, que riqueza pra nação!

Nunca mais nóis pensa em seca, vai dá tudo nesse chão

Como vê nosso distino mercê tem nas vossa mãos

Vozes da Seca (1953) – Gravação original de Luiz Gonzaga

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Tema: Baskerville 2 por Anders Noren

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: