Irresistível até o último grão, a pipoca é a grande estrela no sofá ou no escurinho do cinema para ver Bastardos Inglórios e o vídeo de Alvim

MARCO MERGUIZZO – Em um roteiro surrupiado de Goebbels mas de contornos burlescos, mal ensaiado e dirigido – o tiro saiu pela culatra. Pior. Com uma performance canhestra como num filme trash e de segunda, o que resultou na própria demissão, o ex-secretário da cultura do governo, Roberto Alvim, foi nesta sexta-feira (17/1) o protagonista, ator e diretor de si mesmo em um vídeo divulgado no dia anterior.

Nele, o ex-dramaturgo discursa, a partir de uma produção que incluiu de fundo musical a ópera Lohengrin, de Richard Wagner, compositor alemão predileto de Adolf Hitler e um antissemita assumido, acerca das novas diretrizes políticas de cunho nacionalista preconizadas pelo atual governo de Jair Messias Bolsonaro, visando ao “renascimento” da produção cultural brasileira.

Acusado de parafrasear, copiar e plagiar quase que ipsis literis um texto ufanista e delirante de Joseph Goebbels, um dos cabeças do nazismo e o responsável pelo ideário e a propaganda hitleristas, numa estética com claras e indisfarçáveis verossimilhanças ao do discurso ariano, o co-fundador do Club Noir – misto de teatro, escola, bar e ponto de encontro na então decadente e hoje valorizada região do Baixo Augusta -, não resistiu ao tsunami de críticas da opinião pública e ao impacto da força das instituições civis e democráticas brasileiras, que pressionaram o recalcitrante presidente a demiti-lo.

Alvim, Goebbels e o filme de Tarantino: realidade e ficção entrelaçados

Diante da atuação mambembe perpetrada pelo burocrata canastrão que lembrou em boa medida o filme do genial diretor norte-americano Quentin Tarantino, “Bastardos Inglórios”, o público não poupou críticas a ele e, por extensão, ao Palácio do Planalto, o que forçou Alvim a sair de cena debaixo de vaias e sob uma chuva imaginária de pipocas, num roteiro de contornos burlescos, em que realidade e ficção se entrelaçam numa ópera-bufa dos tempos atuais.

Ao ex-secretário, humilhado pelo vexame e chacota internacionais, e que agora passará a ser reconhecido publicamente e para sempre, aqui e lá fora, como uma figura patética ligada ao pensamento obscurantista e ao ideário nacionalista neofascista no campo das artes, não restou outra saída senão a de retornar ao ostracismo e ao ocaso profissional como um diretor menor, dramaturgo inexpressivo e professor de teatro opaco.

“O trecho de Alvim que referencia o ministro nazista foi promovido nos perfis oficiais da Secretaria da Cultura. Na ocasião, ele divulgou o Prêmio Nacional das Artes e falou: “A arte brasileira da próxima década será heroica e será nacional, será dotada de grande capacidade de envolvimento emocional, e será igualmente imperativa, posto que profundamente vinculada às aspirações urgentes do nosso povo – ou então não será nada.”

De acordo com o livro do historiador alemão Peter Longerich, Goebbels fez um discurso semelhante em 8 de maio de de 1933, no hotel Kaiserhof, em Berlim, para diretores de teatro. A arte alemã da próxima década será heroica, será ferreamente romântica, será objetiva e livre de sentimentalismo, será nacional com grande páthos [potência emocional] e igualmente imperativa e vinculante, ou então não será nada”, disse Goebbels.”

A demissão

Coube aos ministros da Casa Civil, da Secretaria de Governo e da Secretaria Geral providenciar sua demissão. Mas quem anunciou que Alvim estava sendo mandado embora foi o próprio presidente, que assinou uma nota, dizendo: “Comunico o desligamento de Roberto Alvim da Secretaria de Cultura do governo. Um pronunciamento infeliz, ainda que tenha se desculpado, tornou insustentável a sua permanência. Reitero nosso repúdio às ideologias totalitárias e genocidas, bem como qualquer tipo de ilação às mesmas. Manifestamos também nosso total e irrestrito apoio à comunidade judaica, da qual somos amigos e compartilhamos valores em comum”, tentou desculpar-se numa rara postura defensiva.

Repúdio ao nazismo
(Fotos: Bancos de imagens e arquivos digitais públicos e gratuitos)

Em rede social, o presidente Jair Messias Bolsonaro acrescentou repúdio ao nazismo e ao comunismo. Alvim ainda tentou fazer parecer que ele havia pedido para sair. Postou em rede social que: “Tendo em vista o imenso mal-estar causado por esse lamentável episódio, coloquei imediatamente o meu cargo à disposição do presidente Jair Bolsonaro, com o objetivo de protegê-lo”.

Repercussão internacional

O jornal britânico “The Guardian” noticiou: “Secretário de Cultura do Brasil é demitido após ecoar palavras do nazista Goebbels”. O site da BBC afirmou que o ministro da Cultura do Brasil foi demitido por usar partes de um discurso do chefe da propaganda nazista Joseph Goebbels num vídeo o que foi considerado uma afronta.

Já o alemão “Der Spiegel” disse que a estética do vídeo do secretário brasileiro, o tom da palestra e a música de fundo também lembraram aos brasileiros a propaganda nazista. O israelense “Haaretz” destacou: “Brasil demite secretário da Cultura após vídeo ecoar Goebbels”. E o americano “The New York Times” afirmou que o principal funcionário da cultura do Brasil foi demitido por discursar evocando propaganda nazista.

Na mesma sexta, ao fim do dia, o presidente Bolsonaro convidou a atriz Regina Duarte para assumir a Secretaria de Cultura. Ela disse que vai pensar e responder ao presidente até segunda-feira (20).

Colecionador de polêmicas
Alvim e Fernanda Montenegro: antagonismo sobre a censura nas Artes

O vídeo em que o secretário da Cultura do governo Jair Bolsonaro, Roberto Alvim, faz um discurso parafraseando e usando expressões de um discurso de Joseph Goebbels, o ministro da Propaganda na Alemanha nazista, foi o último ato do dramaturgo antes de deixar o cargo. Ex-dono de um teatro na rua Augusta, em São Paulo, Alvim assumiu seu primeiro cargo no governo no meio do ano passado depois de começar a mostrar alinhamento com ideias do presidente Bolsonaro e defender ideias de artistas conservadores como Regina Duarte, que ironicamente pode assumir o posto que era dele no governo, a partir da segunda, 20/1.

A primeira polêmica aconteceu antes mesmo dele assumir o cargo de diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte (Fundação Nacional das Artes). No Facebook, Alvim convocou “artistas de teatro conservadores” para criar uma “máquina de guerra cultural”. Em outra postagem, fez um texto dividindo a arte em “arte de esquerda” e “arte de direita”.O comentário gerou uma forte reação negativa no meio do teatro, com vários comentários negativos nas próprias postagens. “Essa distinção é esquizofrênica e você é um irresponsável”, escreveu uma artista.

Após ele assumir a direção do Centro de Artes Cênicas da Funarte, artistas de teatro disseram que estavam sofrendo censura do diretor, que proibiu a peça Res Pública 2023, que iria ocupar uma sala do Complexo Cultural Funarte SP. O espetáculo, sobre jovens que sofrem dificuldades financeiras e perseguição em um futuro próximo, chegou a ter a estreia agendada.

Mas um dos episódios mais comentados envolvendo Alvim foi quando ele atacou a atriz Fernanda Montenegro após ela se posicionar contra diversos relatos de censura nas artes. Chamou-a de “sórdida”, entre outros desatinos e incontinências verbais. Em reportagens sobre a publicação de seu livro, a atriz criticou a política das artes do governo Bolsonaro e fez um ensaio fotográfico no centro de uma fogueira de livros, uma alusão à famosa queima na Alemanha nazista. na década de 30, e à perseguição à cultura comuns em governos ditatoriais.

Unanimidade no sofá e no escurinho do cinema
A origem do milho e da pipoca

Presente em todas as culturas e civilizações do nosso continente e base da alimentação das antigas populações indígenas – dos Incas aos Maias e dos índios norte-americanos aos tupis-guaranis brasileiros – , o milho é uma das maiores contribuições das Américas para a alimentação e culinária mundiais. Considerado alimento sagrado para os povos nativos do Novo Mundo, o milho viajou nas caravelas espanholas para conquistar o planeta. Cristóvão Colombo comeu milho com os indígenas da ilha que viria a ser Cuba, séculos depois. E gostou, pois escreveu em seu diário de bordo, no dia 5 de novembro de 1492, que aquele desconhecido grão era “muito saboroso cozido ao forno ou reduzido a farinha”. 

O “programa de índio” ou, melhor, a saga marítima do maior desbravador do período das Grandes Navegações resultou no primeiro contato dos europeus com o cereal que alimentava os nativos do Novo Mundo havia milênios. Segundo estudos antropológicos, o milho teria surgido no México. Essa provável origem é confirmada por vários registros das civilizações pré-colombianas que acreditavam que, na pátria dos Maias, havia surgido do milho, tanto econômica quanto simbolicamente. 

Segundo a mitologia daquele extinto povo que ocupou o centro-norte do continente, assim como a versão bíblica do Gênesis, o primeiro homem teria sido feito de barro – e não deu certo. Insatisfeitos, as divindades maias também teriam fracassado em sua segunda tentativa ao substituir a argila pela madeira. Enfim, a criação da espécie humana só se tornou bem-sucedida quando os antigos deuses resolveram “aperfeiçoar a receita”, misturando a farinha de milho ao seu próprio sangue. Uma metáfora deliciosa, encantadora e de pura magia. 

Embora os Maias e a sua civilização, uma das mais desenvolvidas da Antiguidade, tenham desaparecido, o mito acerca do milho resistiu entre os seus descendentes contemporâneos – os mexicanos. Na língua dos índios Nahuad, a palavra quase impronunciável toneuahcayatl significa tanto “massa de milho” quanto “nossa carne”.

Na plural e instigante culinária do México de hoje, o milho originou, por exemplo, os hoje globalizados tacos, as tortillas de maiz (tortinhas de milho), tamales (espécie de pamonha mas salgada) e enchiladas (panquequinhas feitas à base do grão), preparações amplamente popularizadas sob a forma de comida Texmex, o fast-food americano. 

Alimento essencial e sagrado para os povos das pradarias norte-americanas aos Andes no lado oposto do continente, o milho depois de Colombo foi tratado com desdém pelos conquistadores espanhóis. Era um grão menor que o trigo. Em contrapartida, era ótimo como ração animal e, em meio aos metais e outros tesouros surrupiados, sobrava espaço nas naus para as sementes. 

Pra comer e pra enfeitar o cabelo

Ninguém sabe ao certo, mas tudo indica que ela surgiu na América há mais de mil anos. Os primeiros europeus que chegaram ao continente descreveram a pipoca, desconhecida para eles, como um salgado à base de milho usado pelos índios tanto como alimento quanto como enfeite para o cabelo! Sementes de milho usadas para fazer pipoca foram encontradas por arqueólogos não só no Peru, como também no atual Estado de Utah, nos Estados Unidos, o que sugere que ela fazia parte da alimentação de vários povos americanos.

Sabe-se, porém, que inicialmente os índios preparavam a pipoca com a espiga inteira sobre o fogo. Depois, eles passaram a colocar só os grãos sobre a brasa – até inventarem um método mais desenvolvido: cozinhar o milho numa panela de barro com areia quente. O princípio é sempre o mesmo: fazer o grão de milho explodir.

O interior do grão está cheio de água, que, sob calor intenso, se expande até fazê-lo explodir. Popular no mundo inteiro, a pipoca contém alta quantidade de proteína, além de sais minerais importantes para a nutrição, como ferro e cálcio.

E por que, afinal, o milho estoura?

Muita gente tem curiosidade em saber porque o fenômeno ocorre. Os cientistas atribuem o fenômeno à pressão criada no grão superaquecido. Mas a explicação lúdica dos índios americanos é bem mais saborosa e criativa: os deuses de dentro do cereal, furiosos com o fogo que superaquece suas “casinhas”, explodem de raiva quando o calor se torna insuportável. Com uma versão muito mais atraente e instigante, a ciência, neste caso, se dobra à imaginação e à saborosa interpretação das divindades indígenas. 

PARA VER E SABOREAR:
Bastardos Inglórios (2009) – Trailer
Vídeo de Roberto Alvim onde ele discursa ao som de Wagner
MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
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