De Santos e Macunaímas. Histórias e Lendas do Futebol Brasileiro

FREDERICO MORIARTY – Faltavam 20 dias para a Copa da Suécia de 1958. O Corinthians tomava uma sapecada de cinco da seleção brasileira que pela primeira vez se preparara de forma planejada para o torneio. O zagueiro corintiano Ari Clemente não aguentou mais um drible e acertou criminosamente o joelho do menino Pelé. Feola põe as mãos à cabeça: “Não posso perder um garoto que as 16 anos fizera 2 gols em sua estreia na seleção contra a Argentina”, lamentou

Vicente Feola segura a taça Jules Rimet, que viraria pó décadas depois

Vicente Feola nasceu em novembro de 1909 e teve sua vida ligada ao São Paulo F.C. e depois à seleção brasileira. De origem italiana era um misto de sargentão e bonachão. Preocupado com táticas e treinamentos, ele preparou adequadamente uma seleção inexperiente. Introduziu o 4-3-3, fez amistosos importantes, puxava nos treinos, mas não deixava o seu lado paternal. Levou o futuro rei do futebol, mesmo machucado.

O menino Pelé chora no peito do gigante Gilmar (Foto: Arquivo)

Época romântica de nosso futebol. A grande maioria dos jogadores eram de origem pobre, mestiços, negros, ganhavam pouco com o futebol. Mas, desde os anos 20, eram tratados como celebridades pela Imprensa e os políticos. Entretanto, sem passe livre, eram quase propriedade dos novos senhores de engenho: os presidentes dos clubes brasileiros.

Eram amados pela expressividade esportiva, porém, odiados pela cor e a origem social. Diz a lenda que seis jogadores contratados pelo Fluminense junto ao Vasco, nos anos 40, foram abrigados a passar pó de arroz nos rostos, braços e pernas, para esconder a negritude aos torcedores do Tricolor carioca, então o clube da elite branca da capital. Ídolos mancos. Macunaímas.

Em 1958, o Brasil agrário começava a perder espaço para o país urbano-industrial. A cidade logo engoliria o campo, seja pela expansão ou pela submissão. Um país que crescia mas que tinha um “complexo de inferioridade tão grande que seria atropelado por um carrinho de Chicabon”, como escreveu Nelson Rodrigues (1912-1980), numa de suas crônicas presentes no livro Sombra das Chuteiras Imortais.

O futebol era a nossa redenção. Uma das poucas coisas que sabíamos fazer bem e melhor do que os outros. A tragédia de 1950 no Maracanã botou a autoestima abaixo de Hades. Nascemos pra nada mesmo.

Nos dois primeiros jogos na Suécia, em 1958, fomos medianos: 3 a 0 contra a fraca Áustria e um 0 a 0 contra a desfalcada Inglaterra (quatro titulares morreram num acidente de veículo às vésperas do campeonato). O último jogo seria no dia de São João. Duas novidades: Pelé, um garoto de 17 anos, e Garrincha, o anjo-demônio das pernas tortas. Dois dos maiores jogadores de todos os tempos que se dependessem do psicólogo da seleção brasileira nem deveriam ir à Copa e sim parar num hospício.

O adversário era a fortíssima campeã olímpica União Soviética, com o maior goleiro da história, Lev Yashin. A URSS (CCCP no alfabeto cirílico), que deu ao mundo a transmissão via satélite da Copa com o Sputinik, enfrentaria Mané. O ponta-direita botafoguense entortou os russos com o auxílio do menino do Santos, que começaria ali a fazer história. O Brasil venceu por 2 a 0 a União Soviética e CCCP virou ” cuidado com o craque Pelé”. A malemolência dos trópicos derrubara enfim a disciplina tática e a força socialista.

Nas quartas de final, um adversário que jogou com 11 atrás, além do gato, cachorro, massagista, bonde e outras retrancas mais. Ninguém passava do meio-campo. Edson Arantes, o nosso Pelé, definiu a partida contra o País de Gales. Era o primeiro gol do príncipe do futebol. O Brasil estava na semifinal contra a favoritíssima França de Just Fointaine, o maior artilheiro numa Copa até hoje com os 13 gols feitos na de 1958.

Vavá abre o placar aos dois minutos. Os galeses empatam aos nove, com Fontaine. Didi desempata. No segundo tempo, Pelé assombra o mundo: faz 3 golaços. O Brasil ainda toma um golzinho no fim mas massacra a França. Final da partida: 5 a 2. Festa verde-amarela no dia de Santo Antônio, o casamenteiro.

A grande Decisão

A final era contra a seleção anfitriã (em verdade, era uma seleção nórdica e não sueca, pois havia jogadores da Dinamarca, Finlândia e até da Bélgica no time do rei Gustav). O técnico sueco tinha uma teoria: o futebol era um espelho da sociedade. Um país e, por extensão, um time de negros, mestiços, miseráveis, amentais e analfabetos jamais venceria a civilização europeia. A terra dos vikings mudara muito pouco em mentalidade, 13 anos após o fim do nazismo.

Eternizada em pôster, a maior Seleção Brasileira de todos os tempos

A Fifa tinha um problema em mãos: as duas seleções usavam camisa amarela e o rei exigia que sua terra usasse o uniforme oficial. Num “sorteio”, o Brasil tem sua primeira derrota: a amarelinha (usada pela primeira vez na Copa de 1954) não podia entrar em campo. Problema: a camisa dois era a branca de 50. Ninguém queria vestir a camisa derrotada numa final novamente.

Daí veio a importância de outro são-paulino nascido em novembro de 1909: Paulo Machado de Carvalho. O criador das rádios Record, Excelsior e Jovem Pan, tem a ideia: utilizar a camisa 2 antiga ( entre 1930 e 1938) de cor azul. O dirigente e a comissão técnica correm pelas ruas de Estocolmo num sábado de junho, tudo para conseguir 18 camisas anis.

Durante a noite, eles arrancaram os escudos da camisa amarela e costuraram à mão o distintivo da CBD. Paulo Machado ficou num impasse: como explicar aos tão supersticiosos jogadores quanto ele era, que não poderiam jogar de amarelo. O “Marechal da Vitória” tem a sacada genial: durante a madrugada de domingo, juntamente com o técnico Feola e a comissão técnica, ele entra em todos os quartos e chama os jogadores para uma preleção urgente na sala de reuniões do hotel. Sonolentos, os craques canarinhos se reúnem defronte a uma imagem de Nossa Senhora Aparecida sem nada entender. Paulo Machado anuncia:

– Acabei de sonhar com Nossa Senhora. Ela veio pra mim num lindo manto azul e falou que se jogarmos com a cor do vestido da Virgem Santíssima, o Brasil ganhará a Copa. Mas vocês querem jogar de amarelo…

– Doutor não tem como jogar de azul? – gritaram alguns.

– Tem sim. Temos esse jogo de camisas azuis sem número aqui.

E mostrou as camisas recém-adquiridas como se fossem antigas. Os jogadores correram à Santa, ajoelharam, Garrincha chorou. Em oração prometeram honrar a padroeira do Brasil. Alguns até costuraram o próprio número atrás.

O Rei e o são-paulino Paulo Machado de Carvalho, o Marechal da Vitória

No dia seguinte, dia de São Pedro, fechando o ciclo das três festas juninas, o Brasil entra em campo como zebra. A terra de negros contra a pátria do olho azul ariano. Cabisbaixo, o Brasil toma um gol de Liedholm aos 5 minutos do primeiro tempo. Didi, o ” o folha seca” (também retratado anteriormente aqui no blog), vai até o fundo do gol, pega a bola, bota a pelota debaixo do braço e atravessa o campo altivo e dando dura em todos os companheiros: “Não vim até aqui pra perder!”

Aos 9 minutos, Vavá (melhor que Ronaldo, segundo Pelé) empata a partida e aos 30 da etapa inicial, o centroavante vira o jogo para o Brasil. No segundo tempo, outro show de Pelé, que já havia dado a assistência na virada. O gol mais bonito de todos os mundiais ocorreria aos 5 minutos: os dois chapéus dados por ele na área sueca, com a conclusão em gol sem deixar a bola cair.

Uma assistência para Zagallo fazer o quarto aos 23 e um golaço de cabeça aos 45 do segundo tempo. O menino estreante de 17 anos e 8 meses era o mais jovem campeão de uma Copa, com direito a 6 gols em 4 jogos, fora as 3 assistências. Macunaíma era rei. Nascia a mística do futebol brasileiro, começava a morrer o futebol arte. São Pedro matou nosso complexo de vira-latas. Em meio aos 3 Santos Juninos, o manto de Nossa Senhora deu-me a confiança que o excesso de timidez tomava.

Em recente entrevista à Rede Globo, Pelé nega a história de Nossa Senhora, mas Zagallo e Mauro a reafirmam. Mas quem venceu, afinal, foi a versão do manto de Nossa Senhora. Verdade ou não, a lenda de Ulisses contra o cíclope, a travessia do mar Vermelho realizado por Moisés e o povo judeu ou a derrota do gigante Adamastor no Cabo das Tormentas são sempre mais belas, poéticas e mágicas do que a chatice e a realidade dos fatos.

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