Os clássicos da boa mesa de Rimini, a cidade natal que inspirou o paladar, a magia e o lirismo do cinema autobiográfico de Federico Fellini

MARCO MERGUIZZO – Luz, câmera… tentação! Um dos maiores cineastas do século 20 e de todos os tempos, Federico Fellini (1920-1993) (na imagem em destaque, clicado à mesa conversando com a atriz Claudia Cardinale no set do filme Otto e Mezzo, de 1962), caso estivesse vivo completaria nesta segunda, 20/1, um século de vida.

Embora tenha vivido na Cidade Eterna mais de dois terços de sua vida, o grande mestre do cinema italiano – “il grande maestro“, como era chamado – retornava volta e meia à Rimini, cidade ancorada no litoral da Emiglia-Romagna, de onde ele é oriundo, para matar saudades das delícias regionais, cuja culinária é caracterizada por sabores simples e intensos que invocam a tradição rural temperada com influências entre o mar e a montanha.

Caso, por exemplo, das anchovas e dos peixes ultrafrescos fisgados na costa do Adriático e servidas marinadas ou fritas. Da piadina romagnola, típica comida de rua. muito popular, que é a antecessora e “prima-irmã” menos elaborada e em forma de sanduíche da pizza (a iguaria ostenta o selo I.G.P. (Indicazione Geografica Protteta) ou, em bom português, Indicação Geográfica Protegida).

Da crostata. Da ciambella romagnola (rosca doce). E, ainda, da sopa inglesa (zupe inglese), a sobremesa favorita do diretor de antologias como Amarcord, La Dolce Vita e Noites de Cabíria, que leva massa de pão de ló entremeada com creme de baunilha e biscoitinhos bracciatella embebidos em licor ou brandy.

Sem contar o festejado aceto balsâmico (I.G.P.) produzido na comuna de Modena. E na taça, o frisante e docinho vinho Lambrusco, o Sangiovese di Romagna, moldado com a uva rubra italiana emblemática, ou o Colli di Rimini Rosso D.O.C., este último um tinto local feito a partir da globalizada Cabernet Sauvignon.

E, claro, outras glórias emilianas que ganharam status de iguaria e são exclusividades dessa região do Norte da Bota: os célebres e inigualáveis parmegiano reggiano – o original parmesão italiano – e o prosciutto di Parma, o mais festejado dos presuntos peninsulares, cuja fama planetária rivaliza com outro embutido precioso – o jamón pata negra ibérico -, uma especialidade espanhola (ambos também são produtos I.G.P.)

Verdadeiro paraíso gourmet, estive na Emiglia-Romagna nos já longínquos anos 90. À época, fui com um grupo de jornalistas especializados, entre os quais o respeitado crítico de vinhos Saul Galvão, já falecido, a convite do ministério de Agricultura da Itália, que a exemplo da França e da Espanha, sempre protegeu com leis rigorosas a sua produção alimentar.

Lá, tive o privilégio de conhecer de perto e provar in loco os fabulosos queijos parmeggiano reggiano produzidos nos arredores de Parma. Além dos célebres prosciutos locais e do tradicional e ultracobiçado culatello di zibello. E ainda dos incomparáveis e caríssimos acetos balsâmicos safrados (como o vinho), com idades de 10, 20, 30 e 40 anos, verdadeiras joias do paladar produzidas há séculos na cidade de Modena – e só ali -, com maestria e rigor.

Das redações de revistas aos sets de filmagem
Fellini: um dos cineastas mais influentes do século 20 (Fotos: Arquivo)

Classe de 1920, Fellini nasceu em Rimini, uma cidade milenar surgida durante o antigo Império Romano, em 260. a. C., às margens do mar Adriático, numa posição geográfica e militar estratégicas. Hoje, com vocação pesqueira e turística, ela tem uma população com menos de 1/4 da população de Sorocaba, em torno de 150 mil habitantes.

Filho mais velho de três irmãos do mascate Urbano Fellini e da dona de casa Ida Barbiani, o “mago de Rimini” como também era conhecido um dos cineastas mais influentes do mundo, iniciou sua vida como promissor desenhista e exímio caricaturista. Com 18 anos foi para Florença onde iniciou-se na carreira jornalística no extinto Semanário 420. Um ano depois, mudou-se para a capital italiana para trabalhar como caricaturista e redator de uma revista de humor, a finada Marc Aurelio.

Ainda em 1939, regressou para Rimini e em seguida voltou para Roma onde se matriculou na Universidade de Direito de Roma, a pedido de seus pais, mas não frequentou os bancos escolares. De volta à Marc Aurelio, ingressou no seu conselho editorial junto com Ettore Scola, Cesare Zavattini e Bernardino Zapponi, futuro roteirista de Fellini, onde trabalhou até 1942.

Depois de escrever pequenos roteiros e piadas para comediantes de rádio, entrou para o cinema como assistente dos diretores Roberto Rossellini, Pietro Germi e Alberto Lattuada, quando adquiriu conhecimento da técnica da produção audiovisual. Em 1943, casa-se com Giulietta Masina, que estrelou vários de seus filmes. Em 1945, colaborou com o roteiro de Roma – Cidade Aberta, de Roberto Rossellini.

Sua estreia no cinema se deu atrás das câmeras como co-diretor ao lado de Alberto Lattuada, no filme Mulheres e Luzes (1950). Com Abismo de Um Sonho (1952), Fellini fez sua primeira direção. No filme, ele aborda um tema recorrente em sua preciosa filmografia de 17 filmes desenvolvida ao longo de quatro décadas: a oposição da realidade e sonho.

O diretor italiano nas filmagens de La Dolce Vita (1960) e, abaixo,…
take de uma cena de Amarcord (1973): expressões do universo felliniano

No ano seguinte dirigiu Os Boas Vidas (1953), prêmio no Festival de Veneza. A consagração de Fellini veio com A Estrada da Vida (1954), que recebeu o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza. Em 1958, Federico Fellini conquista seu segundo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com Noites de Cabíria (1957).

É considerado, com razão, o mais sentimental de todas as películas do cineasta. Sua mulher, Giulietta Masina, interpreta a pequena protagonista, modestamente linda, romanticamente frágil e extraordinariamente humana. É a cortesã sonhadora, atropelada na vida pelo capital, pelo machismo e pelo preconceito. Com trilha monumental de Nino Rota, o final tem algumas das mais belas e tocantes cenas da história do cinema, quando a moça chorosa encara o espectador do outro lado da tela. Pura poesia.

No set de La Dolce Vita, Fellini com a sex simbol sueca Anita Ekberg

Em 1960, Fellini dirige A Doce Vida, que fala da decadência da burguesia italiana. Quem ainda não conhece a capital italina, tem neste clássico de Fellini um roteiro do que há de mais autenticamente romano na Cidade Eterna. Em Otto e Mezzo (1963), Fellini faz uma obra autobiográfica sobre um cineasta em crise e recebe seu terceiro Oscar. O quarto Oscar veio com Amarcord (1973). No filme ele reconstroi sua adolescência em Rimini durante a ascensão política de Mussolini. É a minha película preferida.

Quem a assistiu a Amarcord, no entanto, pôde se deliciar com suas ácidas críticas alegóricas ao fascismo. Fellini enfia em uma névoa densa a passeata ridícula dos adeptos do ditador da Itália. A plateia gargalha dos rigores bizarros da educação juvenil sob o regime do fascio. O diretor mostra a brutalidade do governo de extrema-direita que, em sua versão provinciana, interroga e tortura um cidadão acusado de tocar a “Internacional” em um gramofone na torre da igreja.

O cineasta com o ator Marcello Mastroianni, em Otto e Mezzo (1962)

Outro filme magistral do grande mestre do cinema italiano, Prova d’Orchestra (ou Ensaio de Orquestra) mostra o ensaio de uma orquestra dentro de uma igreja romana. Os músicos começam a falar de suas vidas, angústias, frustrações e desejos. No final, o grupo se rebela contra o totalitarismo do maestro – um verdadeiro retrato da sociedade e da alma italiana. Uma deliciosa metáfora. Brilhante e anárquico, o filme também marca o último trabalho junto com o brilhante maestro Nino Rota.

Pelo conjunto de obra, em 1993, aos 73, ano da sua morte, Fellini foi premiado com um Oscar especial pela Academy Awards de Hollywood, conquistando pela quinta vez a honraria, o que fez dele o diretor recordista de estatuetas na categoria, junto de seu conterrâneo, Vittorio De Sica (1901-1974).

A filmografia de Federico Fellini

  • Mulheres e Luzes (1950)
  • Abismo de um Sonho (1952)
  • Os Boas Vidas (1953)
  • Amores na Cidade (1953)
  • A Estrada da Vida (1954)
  • A Trapaça (1955)
  • Noites de Cabíria (1957)
  • A Doce Vida (1960)
  • Oito e Meio (1963)
  • Julieta do Espíritos (1965)
  • Satyricon de Fellini (1969)
  • Roma de Fellini (1972)
  • Amarcord (1973)
  • Casanova de Fellini (1976)
  • Prova d’Orchestra (1979)
  • Cidade das Mulheres (1980)
  • Ginger & Fred (1986)
  • A Voz da Lua (1990)
Neorrealismo italiano e antifascismo: inspirações

Um dos cineastas mais influentes do mundo, Fellini ganhou destaque na chamada sétima arte pela poesia de seus filmes. Eternizado pelo lirismo de seus trabalhos, o diretor uniu em suas obras duas importantes correntes que impulsionaram a produção audiovisual do pós-guerra: o neorrealismo italiano, objetivo, popular e que serviu de contraponto à estética fascista, e o cinema de temática existencial, constituindo um elo entre a metafisica e o fascínio pela magia, a partir das lentes do cinema.

Seus mestres no cinema foram Rossellini, para quem trabalhou em vários projetos, como Roma, Cidade Aberta e Paisà, adquirindo conhecimento da mecânica da produção audiovisual, e Lattuada, com quem codirigiu seu primeiro filme.

A inspiração neorrealista é evidente na primeira fase das obras de il maestro, com muitos personagens populares, de fácil identificação e grande carga emocional.  Esse movimento teve lugar e tempo na Itália do final da Segunda Grande Guerra, em processo de “libertação” do regime fascista, como veículo estético-ideológico da resistência. Hasteava a bandeira da representação objetiva da realidade social como forma de comprometimento político.

O período mais produtivo e significativo do cineasta ocorreu entre 1945 e 1948. Seus temas protagonizados por pessoas da classe operária imersas em um ambiente injusto e fatalista, sempre encontrando a frustração na eterna busca por melhores condições de vida, foram trazidos por influência do realismo poético francês.

Pouco a pouco, contudo, a imaginação de Fellini foi superando seu compromisso com a realidade. Em Oito e meio já estão presentes o sonho, a fantasia e o grotesco, que formariam a matéria-prima de sua carreira.
Fellini escrevia roteiros, mas sempre a contragosto. Dizia que era uma pena transformar em palavras o que, na verdade, deveria ser transportado diretamente da sua imaginação para o filme.

Gostava de improvisar, de trabalhar com não-atores e de não planejar muito sistematicamente sua rotina de trabalho. Sabia cercar-se de outros grandes talentos, que enriqueciam os filmes e davam um suporte seguro para suas “pirações”: Giulietta Masina (atriz), Marcello Mastroianni (ator), Nino Rotta (músico), Tonino Guerra (roteirista).

Apesar de, em alguns filmes (principalmente em sua obra-prima Amarcord e no feroz Ensaio de Orquestra) abordar temas políticos, Fellini não se sentia à vontade com cobranças ideológicas: “Minha natureza não é política; e o discurso político me confunde na maioria das vezes. Não o compreendo. Mas confesso isso como uma fraqueza, como uma de minhas carências.”

Poucos diretores de cinema conseguiram marcar tão claramente seu estilo, a ponto de virar adjetivo. O dicionário italiano anexou o termo felliniano em seus verbetes. Significa quase tudo o que tem a ver com o mago de Rimini e seu cinema.

Dizer que tal filme ou tal personagem é “felliniano” significa identificá-lo com o universo estético, social e político popular e ao mesmo tempo barroco que impregnou a sociedade italiana há seis décadas, no qual o exagero e a predileção pelo inusitado conduziram, em verdade, a uma reflexão séria – e muitas vezes cruel – sobre o cotidiano de seres humanos frágeis e anônimos de uma nação inteira.

Fellini com o também diretor, poeta e escritor Pier Paolo Pasolini (1961)

Mais: Fellini fundou uma nova maneira de contar o mundo a partir dos sonhos e do lado mais grotesco de suas próprias memórias. A tensão entre o homem moderno e os rudimentos do passado, os sonhos eróticos, o machismo caricatural ou uma estranha mistura de crítica e paixão simultânea por uma sociedade do espetáculo que acabou se tornando uma odiosa indústria publicitária. Antevisão ou premonição do que se vive hoje, nestes tempos rasos de era digital e eletrônica.

Nos melhores e mais insólitos filmes dirigidos por ele, como Os boas vidasJulieta dos espíritosA Doce VidaAmarcord e La Nave Va, o grande mestre italiano da sétima arte consegue demonstrar que o cinema pode ser absolutamente autoral, porém, sem perder a universalidade e toda a sua aura de magia.

A mesa de Fellini
Em Veneza, com a atriz Valentina Cortese e a esposa Giulietta Masina

Fellini não teve filhos. Ele e a mulher Masina perderam o pequeno Pier Federico onze dias após o nascimento de seu bambino. A sobrinha Francesca Fabbri Fellini, de 55 anos, filha única de seu primo Ubaldo e única herdeira do precioso legado do cineasta, ocupou durante anos esse lugar na retaguarda sentimental do tio. Ela tem seu próprio Amarcord (que significa “eu me lembro” no dialeto romanholo) sobre aqueles anos em que viu o tio se tornar uma estrela internacional.

“Voltava a Rimini para ver a mãe, sua irmã Maddalena… Eu tenho lembranças muito ligadas à mesa. Giulietta cozinhava em Roma e minha mãe, em Rimini. Começava-se com a piadina, um pouco de parmesão, depois a massa recheada no caldo. E se terminava com a zupe inglese (sopa inglesa), a sua sobremesa favorita”, descreveu Francesa em recente depoimento ao tradicional jornal Corriere della Sera, de Milão.

Álbum de família: a cinquentona Francesca Fellini, aos 7 e 45 de idade

“Todo mundo queria saber dele. Eu nunca ousei pedir algo a ele ou questioná-lo. O que você perguntaria hoje e ele? Talvez se ele não tivesse preferido curtir mais a família e seus entes queridos, em vez de estar permanentemente criando e trabalhando. Eu perguntaria se ele se arrepende de não ter curtido mais a mãe, o irmão Riccardo, a mim… Era o gênio criativo que mudou o cinema, com cinco Oscars… mas acho que sempre se tem de pagar um preço”, relata Francesca Fellini. Talvez essa fosse a parte menos felliniana de sua vida.

À mesa felliniana, zupa inglese, piadina, parmeggiano, brodo e prosciutto
MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
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