Ignorância: a mãe dos nossos medos. E de nossos erros!

NILSON RIBEIRO (Blog Um Anjo Passou Por Aqui) – A aranha estava no corredor, próxima à entrada do quarto do meu filho de seis anos. Era de porte médio, talvez uns três ou quatro centímetro. Não pensei muito. Com uma chinelada certeira matei o bicho. Não sem uma forte sensação de pena, culpa e de ignorância. Não que eu me considere um ignorante. Mas sobre aranhas, certamente sou. Não sei distinguir as perigosas das inofensivas. Talvez aquela aranha apenas se alimentasse de moscas e outros pequenos insetos e jamais picasse ninguém na minha casa. Mas, na dúvida, e sem informações que me pudessem ajudar naquele momento, a decisão de momento foi de exterminá-la.

Mas não em vão. Pelo menos me fez pensar sobre todas as nossas ignorâncias e suas consequências.

Como no caso da infeliz aranha, todos sentimos um certo medo daquilo que não conhecemos. A menos que nos aprofundemos em uma questão, ficamos à mercê desses nossos receios, por vezes alimentados por mentiras ou informações falsas. Logo armamos nosso chinelo para exterminar aquilo que parece nos oferecer perigo.

Por vezes é um chinelo moral para nos defender de situações que falsamente nos parece perigosa, como a menina que se apaixona por outra menina ou o menino que se apaixona por outro menino. Por falta de um aprofundamento no entendimento do sagrado, criamos um Deus cruel que abomina o amor (mesmo entre iguais). Uma aberração. Acreditamos em histórias falsas como “mamadeiras de piroca”, “kit gay”, “perigo comunista” e acabamos por apoiar falsos messias, salvadores da pátria que, em nome de outras mentiras, pregam o uso de armas, a censura, a discriminação, a exclusão das minorias e por aí afora.

Não foi o Nazismo que matou 7 milhões de judeus: foi a ignorância que elegeu um Hitler na Alemanha. Não foi o terrorismo que derrubou as Torres Gêmeas e matou 7 mil pessoas: foi a ignorância que gerou o fundamentalismo religioso. Foi a ignorância quem construiu a falácia das divisas entre países, separando povos, gerando guerras.

É a ignorância que nos faz acreditar que nossos muros delimitam um pedaço de planeta a que chamamos “nossa casa”, “nosso sítio”, “nossa propriedade”. A ignorância cria o medo e o medo gera ações ignorantes.

Assim, temos medo de que nossos filhos sejam “contaminados” pelos amigos gays; temos medo que a proliferação de gays acabe com a raça humana; temos medo de que Deus mande um novo dilúvio porque há muitos gays no mundo; temos medo que os comunistas invadam nossa casa e tomem o que é nosso; temos medo que o rock seja obra do demônio; que a arte e a cultura livre tire nossos filhos do caminho do bem e leve o país inteiro pro inferno; medo de viver com liberdade de escolha; medo de morrer… Medo de aranhas inofensivas.

Dizem que Sócrates, dias antes de ser morto por cicuta pelos ignorantes de sua época, recebeu em sua cela um outro presidiário que conhecia várias línguas (outro herege!), e pediu que o ensinasse esses fundamentos. “Mas por quê? Vais morrer em alguns dias…”, argumentou o parceiro de cela. “Mas vou morrer sabendo mais alguma coisa”, respondeu o mestre Sócrates.

 Quanto a mim, começo hoje a estudar melhor as aranhas para não mais ficar preso a essa teia de ignorância e sair por aí chinelando todos os aracnídeos por total falta de conhecimento do assunto.

Bom dia, Vida!

Nilson Ribeiro é Psicanalista e Escritor

nilribeiro63@hotmail.com

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