Duplicação da Raposo é demorada e multiplica situações de risco

GERALDO BONADIO – O contrato pelo qual o governo do Estado de São Paulo concedeu à ViaOeste o direito de cobrar pedágio sobre os veículos em trânsito pelo trecho entre os km 34 (Cotia) e 115,5 (Araçoiaba da Serra) foi assinado em 1999, durante o primeiro mandato de Mário Covas (PSDB) como governador de São Paulo. As obras de duplicação foram iniciadas em abril daquele ano, num segmento com menos de 5 km de extensão (km 110,8 a 115,5), no território araçoiabense.

Quase 21 anos passados, os serviços ainda não foram concluídos e num dos seus trechos mais movimentados – os 20 km que se estendem de Sorocaba a Mairinque – os veículos ainda transitam em pista única e sinuosa – na qual a ultrapassagem é muito arriscada e a travessia da pista, indispensável ao acesso às muitas chácaras de recreio, condomínios, povoações e estabelecimentos comerciais que a ladeiam equivale a uma versão rodoviária da roleta russa.

No final de janeiro, o ex-prefeito de Sorocaba, José Theodoro Mendes, um dos políticos brasileiros mais influentes de sua geração, que na Câmara dos Deputados, exerceu a Presidência da Comissão de Constituição e Justiça, a mais importante daquela casa do Congresso – envolveu-se numa colisão ao tentar cruzar a pista. O desastre ocorreu num ponto que ele conhecia muito bem, pois o percorria nos sábados, para reunir-se com familiares num sítio localizado nas proximidades.

Antes e depois da morte de Theodoro, vários desastres semelhantes ocorreram no mesmo local, ainda que com consequências de menor gravidade para os condutores e passageiros dos veículos envolvidos. Riscos semelhantes existem em vários outros pontos daquele segmento, mas, a menos que haja alguma iniciativa da sociedade, das lideranças políticas ou do Ministério Público, não haverá qualquer modificação ao longo do ano. No cronograma definido pelo megaconsórcio CCR-ViaOeste, atual concessionário do trecho, o início das obras de duplicação só deve ocorrer a partir de novembro.

Inaugurada em 1954, no final do primeiro mandato de Adhemar de Barros (PSP), como governador eleito de São Paulo, a Raposo Tavares é a mais antiga estrada paulista, pois foi rasgada em cima de trechos do Peabiru e do Caminho das Tropas e nasceu obsoleta. Adhemar, que construiu duas das mais avançadas rodovias do Brasil, aprovou, no caso da Raposo, um traçado altamente prejudicial às cidades que deveria beneficiar, pois o trânsito de estrada – caminhões, ônibus e automóveis – passava por dentro delas.

Em Sorocaba, os veículos estradeiros ingressavam na cidade pela avenida São Paulo e saiam dela pela antiga avenida Curitiba (hoje Armando Pannunzio). O número de acidentes graves ocorridos na conexão da avenida São Paulo com a Raposo levou, depois que muitas pessoas ali perderam a vida, a construção da chamada Variante Externa, que também acabou sendo ultrapassada pela área urbana.

Bancada, na prática, pelos usuários – que começaram a pagar pedágio antes que as melhorias fossem executadas – a duplicação da Raposo, em especial no trecho urbano de Sorocaba, em que os motoristas não contam com avenidas marginais, sendo forçados a misturar-se com o tráfego rodoviário para ir de um ponto a outro da cidade, dá muito o que pensar a quem não se alinha entre os partidários incondicionais da privatização do sistema rodoviário.

Morosas, e tocadas por um consórcio que tanto tem de grande quanto de indiferente aos riscos enfrentados pelos que transitam por aquela estrada, mais de duas décadas passadas, desde a assinatura da concessão, elas, além de ocasionarem muitos danos materiais, mutilam e até matam, continuamente, um número absurdamente grande de pessoas, deixando as famílias das vítimas emocionalmente desarvoradas e relegadas ao mais completo abandono.

A quem interessa esse estilo de modernidade?

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