Não deixarei o legado de nossa miséria

FREDERICO MORIARTY – Ray Bradbury escreveu o romance Fahrenheit 451 em 1953. Na distopia futurista, a sociedade abandonara o pensamento crítico, o debate de ideias e a leitura. Basicamente assistiam televisão ou, no máximo, folheavam livros sem palavras ou letras. Os bombeiros agora caçavam quem gostava de ler e possuía livros. Caso alguém encontrasse livros, seria incinerado a 233°C. Os subversivos leitores eram perseguidos e mortos pelo Sabujo, um cão cibernético de oito patas e 10.000 venenos.

Remake da capa original (Amazon.com)

Desde a Biblioteca de Alexandria até as fogueiras macartistas norte-americanas, passando pelas labaredas medievais, o ato brutal dos nazistas em maio de 1933, a destruição das obras psicanaliticas no stalinismo, sem esquecer da queima dos arquivos da escravidão pelo ” águia de Haia “, os homens adoram destruir livros e suas ideias.

Maio de 1933: a grande fogueira de livros, em Berlim, a capital alemã

A queima é sempre precedida da censura. A mente ignara, o cérebro pequeno e as ideias em falta levam à construção histórica de index de obras proibidas. As artes e a literatura sempre serão as inimigas dos pobres de espírito e miseráveis de conhecimento.

Da Idade Média aos tempos modernos, a Igreja definia o que ler

Rondônia escancarou nosso atraso e ao mesmo tempo nos apresentou o futuro fascista qúe se esboça. Interessante que entre os censurados estejam ultraconservadores como Nelson Rodrigues, escritores de esquerda como Mário de Andrade e muitos liberais e centristas como Carlos Heitor Cony e Millôr Fernandes. Mesmo Machado de Assis, acusado por alguns críticos de alienação, pois jamais encontramos críticas políticas e sociais em suas obras (desnudas, é claro), está na lista apócrifa.

Assustam ver entre as obras vetadas: o Castelo, de Franz Kafta (certo, ministro?), As Mil e uma Noites, Vestido de Noiva, Os Sertões, de Euclides da Cunha, e Agosto – aliás, porque tanto ódio do Rubem Fonseca? O único livro do Aurélio Dicionário (coitado) e Macunaíma. Nosso herói sem nenhum caráter tinha razão: muita saúva sem cachola nesse país.🐜🐜

Nada justifica – jamais – a censura e a destruição da arte e do pensamento livre. Os tempos sombrios em que vivemos nos lembram a imensa biblioteca em chamas imaginada por Umberto Eco. A ignorância que nos circunda nos remete a estória de Pablo Neruda, ministro da Cultura chileno deposto pelo golpe de Pinochet, em 1973.

Pressionado por soldados que queriam incendiar todos os seus livros, o poeta comunista propõe uma troca: entregaria os livros revolucionários e eles deixariam os poemas e romances. Feito o acordo, Neruda lhes entrega o “Táticas Castristas” e o clássico da Revolução Caribenha de 1959, O Cubismo”.

Satisfeitos, os soldados queimam os dois livros e mais meia dúzia de volumes escolhidos de forma arbitrária e partem da casa de pedra em Viña del Mar. Os que leem são fortes, mesmo sem armas. No filme de François Truffaut, inspirado em Fahrenheit 451, os subversivos preservam os grandes clássicos de uma forma simples e eficaz: cada um deles escolhe um livro preferido e o memoriza. O mundo está tomado de acendedores de fogo; a arte de uma miríade de estratégias contra as trevas.

Cassandra Rios, a escritora mais censurada em nossa história

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