Sem domésticas na Disney

GERALDO BONADIO – Confiada às mãos do ministro Paulo Guedes, a política econômica do governo Bolsonaro está fadada ao fracasso. A razão é simples. Ela teima em ignorar o dado essencial da realidade brasileira: o crescimento do Produto Interno Bruto do país se alicerça sobre o consumo das famílias e este, ao longo dos anos em que seremos governados pelo capitão, só tende a encolher.

Mesmo Fernando Henrique, herdeiro infiel de um clã de militares nacionalistas e comprometidos até à medula com as causas da soberania e do desenvolvimento, admite que o Brasil é um país injusto. Na verdade, bem mais do que isso, é campeão mundial da desigualdade: 1% da população concentra, em suas mãos, 50% da renda nacional.

Consequência inevitável da realidade é que o consumo desse punhadinho de biliardários não tem impacto algum sobre o mercado, em nada contribuindo para que ele se expanda. Ainda que essa elite endinheirada possa, num delírio consumista, agregar às garagens de suas mansões uma dezena dos automóveis de mais alto preço ou ancorar dois ou três iates nas marinas de que se valem, isso não deflagra nenhum processo de crescimento econômico. E não deflagra porque os veículos, nesse caso, serão quase sempre importados e, ainda que aqui produzidos, não criam uma demanda capaz de gerar vagas nas montadoras.

O inverso acontece quando, como ocorreu principalmente nos mandatos de Lula, o governo se dispõe a realizar aquilo que a jovem e brilhante economista Laura Carvalho define como um milagrinho, colocando dinheiro nas mãos dos mais pobres. Distribuída por milhões de famílias essa renda adicional viabiliza – como viabilizou, naquele momento – o acesso de uma multidão de nossos patrícios pobres ao carro, à casa própria, ao churrasco semanal para os amigos com direito a cerveja e até aos aeroportos. Com isso, a roda da economia gira e todos ganham.

Nada disso ocorreu e dificilmente ocorrerá, mais adiante, no governo de santarrões e farsantes que temos hoje. O abandono de um projeto de desenvolvimento nacional vai nos relegando à condição de país recolonizado que, na melhor das hipóteses, exporta soja, minério de ferro e petróleo, cujo parque industrial, em grande parte ocioso, tende ao sucateamento e, por via do torpedeamento das universidades públicas, nossas principais instituições de pesquisa e tecnologia, mergulha cada vez mais fundo no poço sem fundo da irrelevância.

Abobalhada, a nossa elite tacanha não percebe nada disso e se contenta com a diminuição do número de pobres nos aeroportos, felicitando-se porque, no máximo, eles irão apenas até Cachoeiro do Itapemirim, deixando a Disney “só para eles”.

Bobo rareia, mas não acaba.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: