Todas as almas merecem o Paraíso?

FREDERICO MORIARTY

Helga, 12 anos.
Hildegard, 10 anos.
Helmut, 8 anos.
Hedwig, 7 anos.
Holdine, 5 anos.
Heidrun, 4 anos.

Papai Goebells, na iminência de ser preso no bunker de Hitler, mata envenenados seus 6 próprios filhos (todos com a inicial H para homenagear Hitler). Depois, matou a esposa Magda. A covardia do soldado que não queria passar o vexame de se entregar aos aliados, o fez se suicidar em seguida.

Papa Goebbels.

Goebells, foi prefeito de Berlim e depois o poderosíssimo ministro da Propaganda nazista. Foi quase um número 2 no Partido Nacional Socialista Alemão. O político, como ministro da propaganda, criou a estética nazista de adoração incondicional ao Fuhrer, de ódio aos judeus e toda uma celebração doentia ao nazismo e seus pérfidos símbolos.

Usou das mentiras, da repetição permanente destas e do extermínio dos que não acreditavam nas falácias hitlerianas para impor uma das mais cruéis ditaduras da História. Tudo por meio dos jornais, das escolas, das rádios e do cinema. Deu asas ao antissemitismo, ao racismo, a todo tipo de preconceito.

Organizou a violência e os massacres nazistas. Incendiou milhões de livros, arrasou a Psicanálise e destruiu um gigantesco acervo de obras de arte “degeneradas”. Um homem que incentivou e preparou o holocausto dos judeus.

Hitler esperava um 3° Reich de 1000 anos. A versão tupiniquim previa uma nova década para nossa cultura. Curioso é o nome do nosso nazistinha mequetrefe: Roberto Alvim. Roberto era nome proibido no Brasil, pois aludia ao eixo nazifascista: ROma/BERlim/TÓquio. Alvim, vem de alvo, o branco, o puro, o ariano. Se Mephisto era ator de teatro na Germânia dos anos 1930, nosso Mephisto é um diretor teatral medíocre e nem precisou vender a alma.

O autointitulado Goebbels brasileiro

Thomas Mann escreveu um dos livros que mais gosto “A Montanha Mágica” (confesso que pulei a parte em que há longos diálogos em francês). Os personagens são alegorias das vidas europeias no pré-guerra. Hans Castorp sai do sanatório de Davos para as trincheiras do conflito mundial. Mann teve três filhos escritores como ele.

Klaus seguiu não só os caminhos do pai, como ainda bebeu na mesma fonte. O pai escreveu Doutor Fausto, uma recriação da obra de Goethe; o filho nos deixou a bela obra Mephisto. A inspiração de Klaus, além do genial pai Thomas e do grande romântico do século XIX, era o seu cunhado: o ator Gustav Gründgens. casado com Erika Mann.

Cena do Filme

Gustav, Klaus e Erika eram parceiros teatrais e – sorrateiramente, pois o tempo não permitia – homossexuais. Gustav tornou-se famoso na Alemanha com o filme “M, o vampiro de Dusseldorf”. Nos anos 30, o ator mediano que fizera o papel de Mefistófeles numa peça com os irmãos Mann, adere ao nazismo e passa a ser o “maior ator ariano da História”, sendo adorado por Hermann Goëring (o ministro da Fazenda nazista até 1942).

Trailer

Gustav ganhou fortunas e glória dentro do nacional-socialismo. No livro de “ficção”, Mephisto, o personagem Hendrick Hofgen é claramente o cunhado de Klaus. Houve até um processo de difamação e calúnia contra o escritor.

Mas não se perdoam as escolhas totalitárias: Hofken/Gründgens era um ator sensível ao vender a alma ao diabo, diz a frase contundente, logo depois de apertar a mão do primeiro ministro do pais ficcional (que nada mais era do que Goering),

“Não sei se poderei limpar minhas mãos jamais.”

Pouco mais de três décadas depois, com os primeiros ventos da redemocratização no leste europeu, o diretor húngaro Iztvan Szabo faz a obra “Mephisto“, inspirada no livro. Um ator medíocre que adere ao nazismo e consegue poder, glória e muito dinheiro.

Em meio ao caos e extermínio de milhões (incluindo aí a eliminação de homossexuais), o ator Klaus Maria Brandauer interpreta de forma sublime a personagem Hofken: um ator sem moral nem escrúpulos, que vê sua arte ser estraçalhada, seus amigos serem mortos, torturados ou presos arbitrariamente, enquanto ele passivamente continua bebendo o vinho da deusa fortuna, banqueteando-se entre fardas e assassinos num mundo de barbárie.

A catarse artística havia liberado Hofken de qualquer compromisso com a humanidade. Espera-se isso de brutos, de pessoas sem valores, nunca de um artista, de alguém pretensamente livre e crítico.
Isso é o Mephisto – alguém que entrega seu bem mais precioso: a consciência à barbárie. Pactua com o que há de mais abjeto na sociedade. No final da história Hofken tenta uma absolvição:


“Sou apenas um ator.”

Roberto Alvim foi rapidamente “demitido”. Entretanto, permanece ocupando importante cargo na burocracia estatal, o de diretor da Funarte. Um novo Mephisto assumiu a pasta da Cultura: apenas uma atriz.

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