Dez receitas ao redor do mundo para aplacar a ressaca – que valem pra folia momesca -, para quem bebeu além da conta e quer brindar o paladar

MARCO MERGUIZZO – Enquanto alguns brasileiros como este blogueiro estão partindo rumo a algum refúgio bem longe da batucada destes dias frenéticos de folia, muita gente vai cair no samba a partir desta sexta (21/2) e voltar só na quarta-feira de cinzas com a pilha gasta e, pior, com gosto de guarda-chuva na boca. Para recuperar o pique de toda a agitação deste feriado momesco e neutralizar os efeitos de indesejáveis porres, não deixe de conferir, logo abaixo, dez receitas campeãs preparadas em vários lugares do mundo, que são um santo e saboroso remédio contra laricas etílicas.

Boa folia e apetite.

E xô, ressaca!

CANJA DE GALINHA (BRASIL)

“Canja de galinha e cautela não faz mal a ninguém”, assegura com propriedade e boa dose de razão e sabedoria o velho ditado popular, uma recomendação que também vale para curar os males de um porre homérico. Prato de origem asiática, a canja veio para o Brasil pelas mãos dos colonizadores portugueses. Aurélio Buarque de Holanda, em seu Novo Dicionário da Língua Portuguesa, diz que a palavra vem do malaiala kanji, idioma falado em Malabar, na costa sul-ocidental da Índia, onde ficava a colônia portuguesa de Goa.

A kanji, que significa “arroz com água”, desembarcou no Brasil levando carne de galinha indiana. Na transmigração, a receita ainda foi acrescida de alho, pimenta-do-reino, cebola, louro, batata e até cenoura. Atualmente, há quem coloque no fundo do prato, antes de servir, um pão passado na chapa e temperado com alho.

No início, era comida feita para doentes e refeições familiares. Depois, virou prato de jantares elegantes e ceias intelectuais. No Brasil, a palavra ganhou novas acepções. “Dar uma canja” é o mesmo que se apresentar de graça. Cantores profissionais fazem isso em bares noturnos, após três ou quadro doses de uísque. “Ser canja” tem o sentido de coisa fácil de conseguir. Seja como for, a canja é substanciosa, rica, vigorosa e, segundo os beberrões de plantão e experts do copo, um santo remédio para aplacar os efeitos de uma indesejada ressaca.

Engenho de Dentro (Jorge Benjor)
CEVICHE (PERU)

O mais festejado e tradicional dos pratos nacionais do Peru, o ceviche se internacionalizou nas últimas décadas e se espalhou pelo mundo, conquistando inclusive o paladar dos brasileiro, graças ao o frescor de seus ingredientes e à simplicidade e a sabedoria culinárias contidas em sua receita.

Feito a partir de cubos de peixe marinados em limão e temperados com especiarias, ele é indicação certeira para restaurar o organismo após dias e dias de excessos da festa de Momo. Em especial para aqueles que amam peixe e não torcem o nariz para preparações que levam frutos do mar.

Além do Peru, outros países possuem diferentes tipos de ceviche. Sua origem remonta à civilização Inca e Mochica, há mais de 4.000 anos, povos que habitavam o atual território peruano, A receita original utilizava a Chica – uma bebida feita a partir de milho fermentado, com adição da pimenta aji e do peixe. Similar ao maracujá, a fruta nativa tumbo teria sido usada na época para adicionar acidez ao prato.

O limão teria substituído a fruta na receita a partir do século XVI, com a chegada dos europeus às Américas. Embora a versão peruana ter se tornado a mais famosa e conhecida, é possível encontrar diferentes variações de ceviche. Na Colômbia, é comum, por exemplo, preparar o ceviche com camarão e outros frutos do mar, alterando também os temperos do prato.

Enquanto a origem do ceviche no Peru diz que o prato deve conter o leche (leite) de tigre, suco de coloração branca feito a partir de peixe marinado no limão com temperos, em países da América Central é comum preparar o prato com molho de tomate e especiarias distintas.

Já no Equador, o prato é servido com ketchup, limão e azeite, numa espécie de salada. Por lá também é possível provar a receita em sua versão com lagosta, bastante distinta do ceviche peruano, feito quase sempre com peixe branco de água salgada.

A tradicional receita do Peru também utiliza coentro e cebola roxa para cortar a acidez. Seja qual for sua preferência, o certo é que ceviche se apresenta como boa pedida de um prato leve, saboroso e feito na medida para combater a ressaca, sobretudo para quem vai cair na folia m algum paraíso à beira-mar.

ČESNEKOVÁ POLÉVKA (REPÚBLICA CHECA)

Esta é uma dica do meu filho que está de passagem pela República Checa, país que inventou o estilo pílsen de cerveja e berço da famosa Urquell, que é referência obrigatória entre as loirinhas. Na verdade, é o nome da cidade que batiza a mais conhecida e consumida das cervejas no mundo (não confunda, porém as pílsen com as american lager). Este tema merecerá um futuro artigo meu (se não leu nada ainda sobre os tipos de cervejas especiais e principais escolas cervejeiras, releia outros posts anteriores, clicando aqui e aqui).

Voltando à cura local de zicas e laricas alcoólicas, já que os tchecos, no folclore tcheco, a melhor cura para um resfriado ou uma ressaca é uma tigela de česnečka, uma sopa tradicional de alho. Embora este apreciado bulbo seja o ingrediente principal, a sopa também incorpora batatas, caldo de carne, cebola e temperos tradicionais, como alcaravia e manjerona. Ultrassaudável, o prato é geralmente coberto com queijo ralado e croûtons crocantes, e geralmente é servido e apreciado como aperitivo.

Deliciosa, não? Zdraví a dobrá chuť k jídlu! (“Saúde e bom apetite!”)

CURRYWURST (ALEMANHA)

De acordo com o novo livro da escritora Lauren Shockey, ‘Hanglover Helper‘ (Auxiliar da Ressaca, em bom português), os berlinenses, conhecidos beberrões que lotam a qualquer época pubs e as suas famosas biergarden (praças da cerveja) embora desfrutem de um currywurst a qualquer hora do dia, também o fazem no dia seguinte após uma grande bebedeira.

A iguaria é preparada com linguiça de porco frita, cortada em pedaços pequenos e depois mergulhada num molho temperado à base de curry e especiarias antes de ser polvilhada com pó de curry. Para ampliar sua eficácia , os alemães recomendam degustar uma porção de currywurst com batatas fritas ou na companhia de pães típicos, como os brötchen e pretzel.

CREME DE ABACATE COM TORRADAS (AUSTRÁLIA)

Sydney, uma das maiores e mais fervilhantes cidades australianas, é famosa por seus brunchs, frequentados não só por grupos familiares mas por notívagos e beberrões que atravessam a madrugada em plena farra. Embora o guacamole mexicano ostente fama planetária, o creme de abacate temperadinho com limão e servido na torrada integral com agrião, tomates-cereja é a iguaria local predileta de quem quer amenizar os efeitos de uma ressaca homérica. Além de ser uma receita leve, bonita e gostosa, o alto teor de potássio do abacate ajuda a repor o nutriente no organismo. Adicione um pouco de molho picante para dar mais sabor ao prato.

BLOODY MARY (FRANÇA)

Embora beber muito álcool no dia seguinte não seja aconselhável, na Cidade Luz, a pedida é o Bloody Mary – um dos maiores e mais conhecidos clássicos da coquetelaria internacional. Embora a beberagem seja encontrada no mundo todo, esta bebida pra lá de elegante e saborosa tem um significado especial em Paris, já que muitos afirmam que ela teria sido inventada no Harry’s New York Bar parisiense, em 1921. Neste famoso endereço, de portas abertas até os dias de hoje, o célebre clássico do bar é servido comme il faut, segundo sua fórmula original. Ou seja, à base de vodca, suco de tomate, tabasco, sal, pimenta e limão.

BLOODY MARY (RECEITA)
INGREDIENTES
  • 1 dose de vodca
  • 1 talo de salsão
  • caldo de 1 limão
  • 1 colher (chá) de molho inglês
  • coentro em grão moído na hora
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
  • 4 cubos de gelo
  • suco de tomate gelado para completar
PREPARO
  1. Lave e seque bem o talo do salsão e, com um descascador de legumes, retire as fibras do caule. Passe pelo ralador cerca de 5 cm do talo e reserve o líquido e o purê. 
  2. Num copo alto junte o caldo do limão, o sal, o molho inglês, o salsão ralado e uma pitada de pimenta-do-reino moída na hora. Coloque quatro cubos de gelo, junte a vodca e complete com suco de tomate gelado. 
  3. Com uma colher bailarina, puxe os temperos do fundo para que eles se misturem ao suco e à vodca. Salpique o coentro em grão moído na hora e enfeite com o restante do talo de salsão. Sirva a seguir.
GASPACHO (ESPANHA)

Tentação rubra no prato fundo, o gaspacho ou caspacho é uma sopa fria à base de tomate, pepino e pimentão, muito popular no sul de Portugal (Alentejo e Algarve), no sul de Espanha (sobretudo na Andaluzia, na Estremadura, em Múrcia, em Castela-La Mancha e na Comunidade Valenciana), bem como no México e outros países centro-americanos. Muito consumida no verão, também é uma receita certeira para restaurar o organismo e brindar o paladar após um porre homérico.

SUCO DE PEPINO (RÚSSIA)

Na Rússia, um copo de suco de picles de um pote de pepinos é uma cura tradicional para a ressaca. A ideia é que a salmoura salgada o leve a beber mais água, algo que o corpo precisa quando está desidratado. É uma escolha conveniente e barata quando você não consegue aguentar o pensamento de alimentos sólidos – e uma caminhada até a geladeira é o mais longe possível.

HAMBÚRGUER DE BACON (NY, EUA)

Clássico norte-americano, o famoso sanduíche com bacon, ovo e uma amalgama imbatível de três queijos: prato, chedar e gouda. Esta é a sugestão campeã dos novaiorquinos, segundo a escritora e pesquisadora Lauren Shockey, para curar os males da ressaca da metrópole mundial que funciona 24h durante os 365 dias no ano. Vai duvidar de tamanha energia? Manteiga, sal, pimenta e ketchup são os complementos do sanduíche, para recuperar as energias após uma noite agitada.

YAKAMEIN (NEW ORLEANS, EUA)

Já ouviu falar das culinárias creole e cajun? Não? Ambas nasceram na Louisiana, estado localizado no sul dos Estados Unidos, e têm influência principalmente francesa e espanhola, além de portuguesa, africana, caribenha, entre outras. Enquanto a cozinha Creole veio mais da culinária clássica europeia, mais delicada e refinada, a cozinha Cajun surgiu de uma culinária francesa  mais rústica, mais simples.

Em resumo: enquanto a cozinha Creole veio mais da culinária clássica europeia, mais delicada e refinada, a cozinha Cajun surgiu de uma culinária francesa  mais rústica, mais simples. É nesse caldo multicultural e de sabores exóticos que nasceu na fervilhante New Orleans o Yakamein – um tipo de sopa de macarrão de carne de jacaré encontrada em muitos restaurantes crioulos da cidade.

A receita, que lembra em parte a mesma inspiração oriental do popular lámen de origem chino-japonês, consiste em uma carne cozida em seu próprio caldo e servida sobre macarrão, ovos cozidos e cortados ao meio e cebola verde picada. Potente, estimulante, ele ainda leva uma insana mistura de molhos picantes de Sriracha, Crystal, Tabasco e o acréscimo de suculentos cubos de carne de jacaré. Pra levantar qualquer bêbado depois do porre. E o paladar.

(*) Colaboraram Nathan Aurélio Gonzalez Merguizo e Luisa Pintor, especialmente de Praga, na República Checa).

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
Me acompanhe também no Facebook e no Instagram, 
acessando @marcomerguizzo  
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