O vinho é meu rei! Bell Marques, ex-líder da banda Chiclete com Banana, diz porque só troca a guitarra e a axé music por um bom Bordeaux

MARCO MERGUIZZO – Música. Bahia. Carnaval. E vinho. Estas quatro paixões – não necessariamente nessa ordem – fazem o coração de Bell Marques bater mais forte. Três semanas antes do Carnaval, o músico baiano abriu sua agenda ultraconcorrida para conversar com o blog Aquele Sabor Que Me Emociona e conceder esta entrevista feita com exclusividade para a seção Papo de Vinho.

Washington Marques da Silva, seu nome verdadeiro, ou Bell Marques, o nome artístico com o qual se tornou conhecido, é um dos mais populares cantores de axé music do país. Natural de Salvador, classe de 1952, mais precisamente de 5 setembro, um virginiano exigente e perfeccionista, portanto, ele nasceu na casa de número 11 do largo do Terreiro de Jesus, bairro histórico Pelourinho, no Centro da capital baiana, onde também é oriundo o poeta Gregório de Matos (1636-1696), o “Boca do Inferno”, mordaz e sarcástico crítico social do Brasil colônia.

Com uma bem-sucedida carreira-solo, Bell alcançou o estrelato da MPB ainda como vocalista da banda Chiclete com Banana, cujas vendas já ultrapassaram até os dias de hoje a marca impressionante de mais de 10 milhões de CDs e outras milhões mais de músicas baixadas no Spotfy. Tamanho sucesso ao longo de mais de três décadas de carreira acabou por virar devoção por parte de uma legião de fãs – autodenominados de “bellzeiros” – vertente dos “chicleteiros” emigrados de sua ex-banda.

Carismático, irreverente, de uma alegria contagiante e forte presença no palco ou em cima de seu trio elétrico, Bell Marques também é compositor requisitado, além de um exímio guitarrista. Nas horas vagas só uma única coisa o faz trocar o instrumento com o qual se consagrou e os momentos com a família ou, ainda, os shows sempre eletrizantes que faz país ou mundo afora: uma boa taça de tinto produzido na região francesa de Bordeaux – de longe os seus preferidos, a ponto de se considerar um ‘bordófilo de carteirinha’, como se autodenomina.

Com uma agenda disputadíssima, sobretudo durante o Carnaval, que todo ano arrasta milhões de pessoas para a capital baiana, Bell reservou algumas horas para conversar com exclusividade com este blogueiro sobre aquela que é uma de suas principais paixões – o vinho e o seu rico universo –, ao lado, claro, da mulher Ana, dos filhos Rebeca, Rafael e Filipe e das netas Íris e Elis, da Bahia e do Carnaval.

Confira, abaixo, os principais momentos deste gostoso bate-papo enquanto o trio elétrico de Bell Marques já está agitando turistas e foliões pelas ladeiras de Salvador no Carnaval de rua mais agitado e animado do Brasil. Axé ao vinho e aos orixás mais hedonistas da Bahia!

Fotos: Divulgação e bancos de imagens

Blog Aquele Sabor Que Me EmocionaComo começou a sua paixão pelo vinho?

Bell Marques – Com a chance de viajar com frequência para fora do Brasil por causa dos meus shows, fui percebendo como lá fora o consumo do vinho é muito natural. Comecei a experimentar rótulos maravilhosos, que foram me conquistando. Ou seja, começou do nada, sem nenhuma pretensão. Mas foi um aprendizado, um processo muito prazeroso e de descobertas mesmo.

O vinho é considerado por muita gente como uma bebida “chique”. Você e a sua música passam uma ideia de alegria, festa e irreverência. Vinho e axé tem conexão com seu público e o consumidor brasileiro?

Sim, claro! Tem tudo a ver! No Brasil, infelizmente, o vinho ainda carrega a imagem de bebida “chique”. Na Europa ou em países de tradição vinícola e onde se consome muito vinho, como Chile e Argentina, você percebe como as coisas são diferentes. O vinho é uma bebida muito popular nesses locais, com preços bastante justos, inclusive. E nesse contexto, vemos como ela cai bem em qualquer ocasião, temperatura e ambiente, seja no Carnaval de Salvador ou num concerto clássico. As possibilidades do vinho são maravilhosas e acho que cabe aos produtores brasileiros lutar por essa desmistificação.

Beber vinho, então, é um prazer que pode ser tanto um ato de reverência quanto de irreverência?

Com a prática, a gente começa a diferenciar melhor um vinho do outro. Cria o seu próprio gosto, as suas preferências e percebe que num determinado momento esse ou aquele vinho merece, sim, ser reverenciado porque é uma obra de arte! (risos). Mas há também aquele espumante que é perfeito naquela reunião mais descontraída com os amigos e o que importa é o convívio, o prazer de estar junto, na qual a companhia é mais importante que o rótulo que se bebe.

Você nasceu e vive em Salvador, uma cidade de altas temperaturas o ano todo. Costuma pensar muito para trocar a cerveja gelada pelo vinho?

Te falo uma coisa, Marco: você nunca me verá bebendo cerveja! Quando posso, tomo vinho diariamente durante minhas refeições. E mais geladinho, claro, porque é indicado resfriá-lo no calor – e é uma delícia! Mas baiano sente frio de vez em quando também! (risos). Quando você percebe as nuances do vinho, como ele consegue casar perfeitamente com uma refeição, você o vê de outra forma e passa a consumi-lo de outra maneira, com os sentidos mais atentos.

Pegando carona nesta sua opinião, você acha que pelo fato de o Brasil ser um país tropical o vinho não seja tão popular quanto a cerveja? O que poderia ser feito para mudar essa situação?

Sinceramente? Não acho que tenha a ver com a temperatura. Acho que os impostos atrapalham muito mais a popularização do vinho no Brasil. Na Bahia mesmo, o consumo cresceu muito nos últimos anos, graças ao esforço de alguns empresários. Até no Carnaval, alguns camarotes passaram a servir e o consumo é enorme. Mas, pelo preço da maioria dos rótulos, não tem como as pessoas terem uma adega cheia o ano todo. Não tem como virar rotina. Pedir uma garrafa toda vez que sai para jantar é mais caro ainda! Então, fica essa coisa de ser uma bebida de gente rica.

“Sou apaixonado por vinho francês, sobretudo os de Bordeaux. Mas não me peça para citar nomes de produtores, pois cada um tem para mim o seu próprio encanto. Uma coisa é certa: sou um ‘bordófilo’ de carteirinha!”

Qual o seu vinho do dia a dia e aqueles que você abre para comemorar uma conquista profissional ou um momento especial seu e da sua família?

Sou apaixonado por vinhos franceses, sobretudo os de Bordeaux! (fala entusiasmado). Mas não me peça para citar nomes de produtores. Para mim, cada um tem o seu encanto próprio. Uma coisa eu te garanto: sou um “bordófilo” de carteirinha! Amo os vinhos feitos naquela região. Estão num patamar muito acima das outras. É minha opinião.

Quais pontos em comum há entre a música e o vinho? O que um apreciador de um e de outro podem aprender e tirar o melhor?

Tanto o vinho quanto a música “brincam” com os sentidos, com as emoções. Algumas músicas te deixam mais eufórico, outras mais tranquilo, ajudam a relaxar. Com o vinho é a mesma coisa. É engraçado perceber como existe, realmente, um vinho para cada momento e isso, claro, é bem pessoal, assim como é com a música.

Após fazer enorme sucesso como vocalista da banda Chiclete com Banana, você repetiu semelhante êxito na carreira solo. Como foi essa mudança?

Foi muito legal, pois foi na hora certa. Foram 30 anos à frente do Chiclete com Banana. Chega um momento em nossas vidas que é preciso partir para novos projetos, novos desafios. Foi esse desejo que me motivou a correr atrás desse sentimento que não conseguiria realizar junto com a banda. Hoje, me sinto extremamente realizado com o caminho que segui e os resultados já alcançados. É muita sorte ter aquela sensação de recomeçar, mesmo após tantos anos na estrada.

Quer dizer, então, fazendo uma analogia, que os seus “taninos musicais” são tão nobres e longevos como num vinho de guarda?

Taí, gostei (ri alto, concordando)! Ainda bem, né?! Foram muitos anos à frente do Chiclete com Banana e consegui sair de um projeto que, mesmo após 30 anos, estava no auge – não foi uma escolha fácil! (enfático). Me sinto um privilegiado por dar continuidade a uma carreira após tanto tempo e me manter motivado e prestigiado pelo público. Creio que tive muita sorte em dar os passos certos, pisando felizmente em terras férteis. (filosofou essa frase, dando muitos risos).

Seus fãs se autodenominam de ‘bellzeiros’. No caso do vinho, você é fanático por algum estilo? É barolista? Brunellista? Na França, gosta mais dos vinhos produzidos em Bordeaux ou na Borgonha?

Eu gosto bastante dos vinhos de Bordeaux, portanto, me considero um “bordófilo” de carteirinha e dos mais fiéis. Porém diria que não sou tanto quanto os meus fãs, não! (risos), já que aprecio também outros estilos. Gosto de passear e experimentar de tudo. Acho que é essa, aliás, a graça do vinho.

“Além dos tintos de Bordeaux, os meus prediletos, também curto outros estilos. Portanto, não sou tão fiel quanto os meus fãs! Gosto de passear e provar de tudo. Acho que essa é a graça do vinho.”

Qual sua preferência pessoal: tinto ou branco? Alguma casta predileta ou estilo de vinho? Novo ou Velho Mundo? Algum produtor em especial?

Além dos tintos bordaleses, tenho um apreço muito grande pelos grandes vinhos italianos. Mas ainda estou mais para o lado dos franceses. Gosto muito dos chilenos também, pela expressão dos diferentes terroirs, mas ainda prefiro os europeus. O Velho Mundo ainda detém a expertise dos grandes vinhos e produz maravilhas como ninguém.

Em relação aos vinhos brasileiros, o que você acha do atual estágio dos brancos e tintos nacionais?

Tive o prazer de experimentar alguns, mais recentemente, e acho que estamos caminhando muitíssimo bem. Tenho certeza que, se houvesse a diminuição dos impostos de importação e consequente popularização do vinho no Brasil, o consumidor teria mais acesso e isso, automaticamente, fortaleceria nossos produtores e os vinhos nacionais. Já temos prestígio mundial em espumantes, além de tintos e brancos excepcionais, mas precisamos democratizar o consumo e “treinar” mais o nosso consumidor.

Curte cozinhar? Quais sugestões você faria se tivesse que preparar um jantar harmonizado para um amigo que gosta de bons vinhos?

Eu gosto de comer mas cozinhar já é outra história! (risos). Gosto muito de uma paleta de cordeiro e de um frango ensopado com batatas. Tenho um gosto bem eclético, plural e democrático – como de macarronada a pratos mais sofisticados mas sem frescura! (Risos). Para acompanhar, creio que o gosto de cada um deva prevalecer na escolha do vinho, por isso a experiência e o paladar pessoais devem conduzir a escolha nessa hora.

Quais rótulos e tipos de vinho não podem faltar nunca na sua adega?

Um bom e legítimo champanhe francês e, claro, sem pensar duas vezes, os magníficos tintos produzidos na região de Bordeaux.

Você e a Bahia têm a cara do verão. Se pudesse escolher, qual vinho elegeria como símbolo deste verão ou do Carnaval 2020? Quem sabe algum vinho brasileiro produzido no vale do São Francisco, no interior da Bahia?

Apesar de gostar mais de tintos, a Bahia tem mais a cara dos brancos e dos espumantes, que tendem a ser mais leves e refrescantes. Acho injusto indicar este ou aquele vinho, porque deixaria muitos rótulos maravilhosos de fora. Portanto, proponho um brinde muito especial aos bons vinhos hoje produzidos no Brasil e em todas as partes do mundo.

O chicleteiro que virou vinho

Sob a batuta do premiado enólogo argentino Mauricio Lorca, cujo currículo inclui as vinícolas mendocinas Bodegas Esmeralda, a icônica Catena Zapata, Torino, Luigi Bosca e Finca La Celia – Bell Marques realizou o sonho de todo amante de vinhos: virar produtor de seus próprios rótulos. Em meados dos anos 2000, lançou dois tintos feitos no país hermano sob a supervisão de Lorca: o Chicleteiro Malbec-Cabernet Sauvignon Reserva (estágio de 12 meses em barricas francesas) e o Gran Reserva (18 meses).

Batizados com a alcunha dos fãs de sua ex-banda – chicleteiro -, ambos são vinhos de corte moldados com o famoso dueto de uvas francesas (fifty to fifty), cujas cepas se adaptaram esplendidamente àquele conhecido terroir argentino, desde o final do século 19, originando desde então grandes vinhos, sobretudo nas últimas três décadas.

Até 2012 tais rótulos eram importados e comercializados no mercado brasileiro, época em que o projeto enológico foi interrompido e definitivamente extinto por Bell. Hoje, algumas poucas garrafas permanecem em sua adega pessoal para o seu próprio deleite, dos familiares e amigos mais próximos.

No coração de Bordeaux uma ode ao vinho

Arquitetura futurista: alusão ao movimento do vinho no decantador

Capital e referência dos grandes vinhos, a cidade de Bordeaux, no sudoeste da França, reverenciada pelos críticos e consumidores do mundo todo pela qualidade superlativa de sua produção, ganhou em 2016 um museu de arquitetura futuristae high-tech dedicado a mostrar a história da bebida, desde os primórdios da civilização.

Sem paralelos no mundo, La Cité du Vin, ou ‘A Cidade do Vinho’, em bom português, é uma obra monumental de 13.350 m2 de extensão e 55m de altura, verdadeira ode ao hedonismo e à bebida milenar feita das vitis vinifera, as uvas de vinho. Não por acaso o ousado e inédito museu bordalês se tornou conhecido como “o Guggenheim dos vinhos”.

Engenhosamente, o formato do prédio faz alusão ao movimento circular de girar uma taça de vinho que normalmente se faz para liberar seus aromas e a um enorme decanter ou decantador — o utensílio de vidro alongado e base bojuda usado para oxigenar e separar sedimentos depositados no fundo da garrafa – uma sacada genial.

Fotos: Divulgação (La Cité du Vin)

O interior da construção de oito andares – uma verdadeira Disneylândia para o amante de vinho – abriga exposições permanentes e temporárias, salas om recursos interativos e imagens em 3D, como a viagem a bordo de um navio que mostra a aventura dos mercadores de vinho.

Além de salas para degustações técnicas, bar a vin (bares de vinho), restaurantes e uma livraria. O acervo principal detalha, em pouco menos de 20 salas, toda a história do vinho, sua relação com a terra e o homem, seu papel na mitologia e nas religiões.

Uma das maiores atrações da Cité du Vin é a experiência multissensorial que tem lugar numa sala circular, com projeções em 360º, que inclui sons e aromas. Incrível. Há também um auditório para concertos musicais, performances teatrais e outras exibições culturais.

O Belvedere no topo da construção: ótimos goles e visão mesmerizante

A visita pode terminar (ou começar, já que não existe um percurso obrigatório) em um mirante, a 35m de altura, na área chamada de Belvedere, com vista privilegiada para a cidade de Bordeaux, com o Port de la Lune e o rio Garonne em primeiro plano. O teto, composto por milhares de taças, é outra ideia para lá original e inusitada do projeto (na foto abaixo). É o lugar perfeito, portanto, para provar uma taça de vinho que está inclusa no valor da entrada.

E num ambiente desses até a loja é caprichada: com uma oferta bem grande de vinhos de todos os lugares do mundo, há tablets com vídeos explicativos sobre cada um deles, apresentados por bem-informados sommeliers formados na região.

Já fora do museu, ainda é possível descobrir os vinhedos em excursões terrestres, de van, de carro alugado, de bicicleta ou, melhor ainda, a bordo de balões coloridos que sobrevoam os cenográficos vinhedos de Bordeaux. Um programa e tanto. Simplesmente imperdível.

SERVIÇO

La Cité du Vin Quai de Bacalan, 50, Bordeaux, França, tel. 33/(0)5-56-16-20-20 | Aberto diariamente; fecha apenas 25 de dezembro | Horário; de junho a agosto: das 9h30 às 19h30; outros meses, confira aqui) | Ingresso: 20 euros (com direito a audioguia em 8 idiomas e 1 taça de vinho de 50ml no Belvedere). Site oficial: aqui.

Prepare a taça: Bordeaux Fête le Vin em junho

Vai estar em Bordeaux entre 18 e 21 de junho? Aproveite para conhecer a festa bienal que celebra o vinho na cidade, a Bordeaux Fête le Vin (Bordeaux celebra o vinho). Dispostos à beira do rio Garonne, ao longo dos quais Louis XVIII e Richelieu, pavilhões oferecem as mais diversas variedades da bebida, além de petiscos pra não ficar com o estômago vazio. Uma escola de harmonização e espaços dedicados à história do vinho também fazem parte do evento, que traz mais de 80 sabores diferentes da região.

A cada noite, acontecem dois espetáculos: às 23h, o Images Sounds & Lights, que aproveita a fachada do Palais de la Bourse para ambientar os visitantes no universo das vinhas; e uma queima de fogos sobre o rio às 23h30. Nas proximidades há também tours organizados por vinhedos e apresentações da Orquestra de Bordeaux.

Há vários tipos de passes para o evento (dependendo do que você quiser incluir no passeio, ou se pretende conhecer sabores mais raros). Até 20 de junho, comprar pela pré-venda sai por 17 euros. Durante o evento, os ingressos começam a partir de 21 euros.

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
Me acompanhe também no Facebook e no Instagram, 
acessando @marcomerguizzo  
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#coletivoterceiramargem
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