Fabulosa: Primavera e Outono da Associação Portuguesa de Desportos

FREDERICO MORIARTY (Blog Pipocando La Pelota) – Trinta e sete minutos do 2° tempo. Partida truncada num Morumbi lotado com mais de 120 mil torcedores, a imensa maioria santista. Era setembro de 1973, a decisão do maior e mais importante campeonato de futebol do Brasil: o Paulista. Muitos foram ao estádio para ver desfilar, pela última vez numa decisão nacional, o transcendental Rei Pelé. O maior jogador de futebol de todos os tempos anotara 26 gols em 22 jogos do torneio.

Na despedida certamente deixaria sua memória nas redes do Cícero Pompeu de Toledo. Mas a sólida defesa arquitetada por Otto Glória impedia. E no 37° minuto citado, o lateral santista falha, a bola resvala em sua perna e cai nos pés do atacante Cabinho da Portuguesa. Ele dribla o goleiro Cejas e toca para o fundo das redes. Gol da Portuguesa! Gol da tricampeã paulista – a Associação Portuguesa de Desportos.

Inexplicavelmente o árbitro Armando Marques de Mesquita anula o gol. Entra o VAR e o gol volta a ser legitimado. Pelé quase chorou. Não meus caros leitores, o VAR não existia, o Rei não chorou. A partida terminou “oxo” (imortalizado por um jornalista esportivo, o “oxo” era um neologismo para o placar zero a zero, mas também uma critica ao resultado chocho e sem gols).

A prorrogação mantém o zero intacto. Pela primeira vez na história, uma decisão no Brasil iria para os pênaltis. Zé Carlos bate e o goleiro da Portuguesa Zecão (sorocabano) pega a penalidade. Cejas, goleiro do Santos pega dois pênaltis seguidos. Carlos Alberto e Edu fazem 2 a 0 para o time praiano. Era a vez do ponta esquerda da Portuguesa, Wilsinho, bater. Ele chuta um tirombaço. O travessão do Morumbi balançou por 3 dias.

O árbitro Armando Marques assopra o apito e anuncia: o Santos é campeão Paulista pela 13° vez! Pelé conseguia seu 11° título regional. Festa no gramado, invasão de torcedores e jornalistas. Passados 20 minutos alguém avisa: faltavam duas cobranças para cada lado. Ou seja, matematicamente poderia acontecer do Santos perder os 2 pênaltis e a Portuguesa acertar os dois. Improvável, afinal Pelé cobraria a última penalidade mas possível. Todos descem aos vestiários da Fabulosa (apelido da Portuguesa). O time já havia partido cabisbaixo do Morumbi.

A Federação Paulista de Futebol se reúne às pressas e 15 minutos depois dá a sentença: Santos e Portuguesa de Desportos dividiriam o título de 1973. O time do Canindé conquistava sua última grande glória no futebol brasileiro. Com justiça, diga-se de passagem, seja pela campanha ou mesmo pela partida final. A Portuguesa parou Pelé e ainda fez um gol indevidamente anulado. Quanto ao árbitro, teria ele errado em nome da tradicional “lei da compensação”, arrependido pela anulação do gol legítimo no 2° tempo? Não. A explicação dada por Armando Marques caberia em qualquer das falas do nosso atual ministro da Educação, Weintraub:

“O que houve mesmo foi erro de Mobral. Agora, comigo erraram dezenas de milhares de pessoas que viram o jogo. Não apareceu ninguém, mas ninguém para me dizer nada. Só depois de quinze minutos vieram me alertar.” (Jornal da Tarde, 28 de novembro de 1973. Entrevista com o árbitro Armando Marques de Mesquita)

As origens e o Canindé

A colônia de imigrantes portugueses era a única que não possuía um Clube de Football em São Paulo. Para comemorar a Vitória na Batalha de Aljubarrota (1385), ponto central da ascensão da dinastia de Avis, em Portugal, no mesmo 14 de agosto de 1920, nascia a Associação Portuguesa de Desportos. Os fundadores assinaram os papéis no centro de São Paulo, na tradicional rua São Bento.

Foto: arquivo da Associação Portuguesa de Desportos

A sede inicial ficava na rua do Porto, lugar de difícil acesso, pois cercado de lagos nascidos dos meandros do rio Tietê. Os lagos eram atravessados por estreitas pontes de tábuas – daí o apelido da região de Ilha da Madeira. Atrás dos Lagos havia outro clube, bem mais rico e de instalações mais apropriadas: o São Paulo Futebol Clube. Em 1955 o abastado clube vende a região para a Portuguesa e vai embora para o Morumbi.

No ano seguinte, o arquiteto J. Villanova Artigas apresenta o projeto de aterro da região da construção do clube, dum parque aquático e do estádio da Lusa. Aterrada, a Ilha da Madeira virou Canindé, com suas arquibancadas de madeira. O clube e as piscinas seguiram os projetos de Artigas, um dos mais importantes arquitetos de nossa história.

Mas o estádio teve de esperar até 1972 para ser inaugurado. Projeto inovador de Hoover Américo Sampaio e luta do diretor esportivo Osvaldo Teixeira Duarte, que atualmente batiza o estádio com seu nome. A construção do anel superior levou mais 9 anos. O Canindé como o conhecemos hoje, com as baixas arquibancadas rubro-verdes no anel leste e a parte elevada dando costas para a Marginal Tietê, só foi inaugurado em janeiro de 1981.

Nada de pequena, a Lusa também lota estádios

A Lusa venceu todas as cinco partidas das três inaugurações: em 1956, derrotou um combinado Palmeiras e São Paulo; em 1971, venceu o Benfica de Portugal; e por último foi campeã do torneio internacional contra Corinthians, Fluminense e o Sporting, de Portugal.

Os grandes feitos e títulos

Durante muitas décadas falávamos da existência de cinco grandes times paulistas. A Portuguesa de Desportos sempre foi a quinta força do Estado. Mas essa posição não a impediu de sapecar derrotas humilhantes aos outros qiuatro times de São Paulo. No Paulistão de 1952, o Palmeiras levou um sonoro 6 a 3. Três anos depois, meses antes de Pelé estrear, a Portuguesa tascou 8 a 0 no Santos. No torneio de 1961, foi a vez do Corinthians levar 7 a 0 dos rubro-verdes. O último foi o São Paulo, no Brasileirão de 1998, apenas cinco anos depois de ser bicampeão da Libertadores e do Mundial, o time do Morumbi era massacrado pela Lusa: 7 a 2.

Taças, a Fabulosa levantou três campeonatos paulistas (1935, 1936 e 1973), dois torneios Rio- São Paulo (1952 e 1955), duas séries A-2 do Paulista e um Brasileirão da Série B. Neste último, teve a segunda melhor campanha da história e o melhor ataque de quase 90 gols. O futebol envolvente e ofensivo deu à Portuguesa o apelido de “Barcelusa” – uma versão muito mais pobre do time catalão de Messi & Cia, mas que enchia os olhos do torcedor muito mais do que o campeão da série A, o Corinthians de “EmpaTite” e suas goleadas de 1×0 .

A Lusa foi vice-campeã paulista 4 vezes, do Rio-São Paulo, uma vez e esteve muito próxima do título Brasileiro, em 1996. Na final deste último, até os 38 minutos do segundo tempo a Portuguesa era a campeã mas o Grêmio do retranqueiro Felipão fez o gol no minuto seguinte, deixando o time da colônia portuguesa com o vice-campeonato daquele ano.

Revista Lance. 2011

Entre 1951 e 1955, a Portuguesa teve seus anos de glória: foram 8 títulos e 3 “faixas azuis” (prêmio da FPF aos times que faziam brilhantes excursões ao exterior, em geral invictas). A Portuguesa foi a base da Seleção Brasileira na Copa de 54. Djalma Santos, Julinho Botelho, Pinga e Brandãozinho eram titulares da CBD no torneio da Hungria (nele, pela primeira vez usamos o estandarte amarelo).

Os Craques
Djalma Santos (Fonte: Acervo da Bola, 1956)

A Portuguesa teve uma saraivada de craques; A maioria serviu à Seleção Brasileira. Relembremos alguns:

Goleiros: Félix (tri-campeão em 70) e Weverton (o atual reserva imediato de Tite na seleção).

Laterais: Djalma Santos (bicampeão mundial e eleito o maior lateral da história pela Fifa), Zé Maria (depois teve carreira de sucesso no Corinthians) e Zé Roberto (jogou profissionalmente por 25 anos, um recorde, hoje auxilia os departamentos de futebol de Portuguesa e Palmeiras).

Defensores: Marinho Perez (da Lusa foi para o Palmeiras e a Seleção de 74) e Badeco.

Cabeças de área: Brandãozinho e Gallo.

Meio-campo: Enéas (o mais talentoso jogador do rubro-verde, caso não tivesse os joelhos estourados, seria um dos maiores da história do nosso futebol), Dicá (exímio batedor de faltas), Denner (craque dos gols de placa), Leivinha (atacante moderno) e Rodrigo Fabri.

Atacantes: Basílio (o homem que tirou o Corinthians da fila de 23 anos em 1977), Ricardo Oliveira, Pinga, Julinho Botelho (o ponta direita que silenciou 168 mil pessoas no Maracanã) e Edu Marangon.

Enéas (cromo da revista Placar 1976)
Um ano Inesquecível: 1998

Após um Campeonato Paulista impecável, a Portuguesa de Desportos foi para a semifinal com um leve favoritismo sobre o Corinthians. Preocupada com as reclamações contra a arbitragem, a FPF inventa um árbitro argentino: Javier Castrilli. A Lusa sai na frente. Ainda no primeiro tempo, o apito amigo não vê um impedimento claro e o Corinthians empata.

Segundo tempo e a Portuguesa volta a ficar na frente mas, aos 42 minutos, Castrilli marca um pênalti que só ele, Carlos Gardel, Perón e Vicente Matheus viram. O empate tirou a Lusa da final. Castrilli entrou para a história como uma das 10 piores arbitragens da história do nosso futebol.

Veio o Brasileiro e a Portuguesa fazia uma boa campanha e aparecia em 8° lugar. Da metade para o fim do campeonato teve uma sequência difícil. Começou com o Botafogo em Marechal Hermes, no Rio. O time carioca faz 2 a 0 em 15 minutos. Mas a Fabulosa vira e massacra a Estrela Solitária por 5 a 2. Na partida seguinte, o adversário era o pentacampeão Flamengo de Romário, Marcos Assunção, Ricardo Rocha e Caio. A campanha do rubro-negro carioca não era boa e o falastrão presidente do clube Kleber Leite vai a tevê e anuncia:

Os ingressos baixaram de R$ 10 pra R$ 3. Vamos lotar o Maracanã e embalar o Flamengo. Tenho tanta certeza da vitória que, se não ganharmos, devolvo o dinheiro!!

Quase 60 mil torcedores encheram o estádio Mário Filho. Evair abre para a Portuguesa. Ainda no primeiro tempo, Romário e Marcos Assunção viram para o time da Gávea. Segundo tempo e o jovem rubro-verde Alexandre faz dois golaços e vira a memorável partida. Final com a vitória de 3 a 2 da Portuguesa em pleno Maracanã.

Na semana seguinte o alvo foi o São Paulo: nova vitória de 7 a 2 para a Portuguesa (Evair costuma brincar que era para ser mais, pois ele não fez nenhum). As três vitórias seguidas colocaram o time nas quartas de final. A Lusa eliminou o Coritiba, mas caiu na fase seguinte, eliminada na semi-final pelo Cruzeiro e terminando em quarto lugar.

Evandro comemora o 5°gol contra o São Paulo (Foto: Placar)

E o Flamengo? Kleber Leite teve de devolver R$ 170 mil para os torcedores e pagar mais R$ 50 mil para o vencedor fora de casa, a Portuguesa de Desportos. Evair comentou na tevê, no dia seguinte, que a equipe lusitana parou pra comer um hot-dog na saída do estádio. Ele viu centenas de flamenguistas trocando os ingressos por sanduíches.

“O cara deve ter ficado rico, o ingresso valia 3 reais e o sanduíche era 1 real. Mas foi bem feito. A gente subiu para o jogo mordido. O diretor achou que a Portuguesa era time pequeno.”

O ocaso

No Brasileiro de 2013, a Lusa terminou em 11° lugar. Porém, depois de um longo imbróglio, o time perdeu 4 pontos no STJD e foi rebaixado. Sucessivamente, caiu para as série C e D do Brasileiro e para a B do Paulista, onde sempre patina nas últimas posições. O estádio foi penhorado. As dívidas passam dos R$ 300 milhões. Desde 2018 não tem ranking para nenhum torneio nacional. Dirigentes tenebrosos se sucedem. Nada mais a dizer.

Por onde recomeçar?

Na semana passada, uma reportagem da Globo viralizou. Um fanático torcedor da Lusa de apenas 7 anos parece ter resgatado a luta da Fabulosa. São duas vitórias seguidas e o que é melhor: os quatro grandes de São Paulo decidiram emprestar jogadores (sem custo) para o time do Canindé se reerguer (leia aqui a reportagem do Estadão). E assista ao vídeo, abaixo, e tente não se emocionar:

Esse blog tem uma sugestão: a Portuguesa venderia o Canindé e o clube (avaliados em R$ 350 milhões). Renegociaria a dívida usando parte do recebido. Outra parte seria utilizada para comprar áreas no Jaguaré (há muitos locais abandonados por lá). O clube emprestaria o CT de algum grande clube até conseguir construir o seu.

Estádio? Fácil. Faria uma parceria público-privada com a USP. Lá, há um estádio para 25 mil espectadores. É próximo a estações de trem e metrô como o saudoso Canindé. Também foi erguido sobre os lagos de um rio, no caso, o Pinheiros. A Portuguesa fincaria um pé na USP, onde o arquiteto Artigas fez história.

Mais: o clube seria o primeiro time-escola do país. Os atletas profissionais e da base seriam acompanhados por pesquisadores e cientistas das Faculdades de Educação, Educação Física, Nutrição, Fisioterapia, Psicologia, Computação e, quem sabe um dia, da Faculdade de Futebol. Seria um projeto completo de ensino-pesquisa-extensão e, de quebra, ajudaria a reerguer o 5° time grande de São Paulo e o 2° no coração de todo morador da capital.

Viva a Portuguesa de Desportos!

Viva o centenário dessa fábrica Fabulosa de talentos!

E que muitos Enéas e Denners voltem a nos encantar.

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