Lá se foi a autoridade

GERALDO BONADIO – O exercício da governança, seja em que campo for, se apoia sobre dois pilares. Um deles, de natureza jurídico-política, é a investidura. Esta, em se tratando de cargo eletivo, se faz pela via da eleição e diplomação e, quando envolve a designação de um agente político – ministro de Estado, secretário, assessor – promana do decreto de nomeação. Na área privada a investidura, habitualmente, resulta de contrato para o exercício da atividade, seja de presidente de uma montadora de veículos ou técnico de uma equipe de futebol.

O segundo pilar, não menos importante, é a autoridade, característica moral que a pessoa conquista – e deve manter, dia após dia – graças ao domínio da área em que atua, à competência demonstrada nas funções, iguais ou assemelhadas que desempenhou anteriormente e lhe assegura o respeito dos subordinados.

Quem tenta governar sem investidura fracassa. Veja-se a patética figura de Juan Guaidó, na Venezuela. Apesar de suas recorrentes tentativas de assumir o comando daquele país por um golpe de estado, é mantido em liberdade pelo governo autoritário de Nicolás Maduro, o qual nele não vê ameaça que justifique seu encarceramento. (Em tempo: não vou para a Venezuela, jamais desejaria que o Brasil tivesse um regime político parecido com o que ali existe e não vejo, em Guaidó, alternativa que permita aos venezuelanos saírem do perrengue em que estão metidos.)

Risco semelhante corre a presidenta-tampão da Bolívia, cujas tentativas de manipular o processo eleitoral vai fazendo do seu governo, dia após dia, a ditadura que dizia querer evitar, ao derrubar o ex-presidente Evo Morales.

Do mesmo modo, governa mal – ou mal governa – quem, portando um mandato, não faz por merecer o respeito dos governados, caso do atual presidente do Brasil e dos militares de alta patente, principalmente do Exército, que o respaldam.

Desde os seus tempos de tenente, falta ao atual chefe do Executivo uma qualidade sem a qual não se obtém autoridade: assumir, de forma clara e peito aberto, a responsabilidade por aquilo que faz. Ao liderar uma campanha dos oficiais de baixa patente, reclamando melhores salários, o tenente Jair Messias, em dado momento, projetou uma ação terrorista que, além de alvos militares, alcançaria a adutora do Guandu, deixando sem água o Rio de Janeiro. Descoberto e processado, negou tudo – até que a revista Veja estampou um croqui do projeto de atentado, por ele mesmo elaborado.

Tratado com injustificada misericórdia pelo tribunal castrense, em vez de ser expulso do Exército por ser, como o definia o general Ernesto Geisel, mau militar, foi reformado com a patente de capitão. Isso lhe possibilitou desenvolver um projeto político pessoal que, favorecido pelos fados, o conduziu à Presidência. Ao longo do trajeto, multiplicou manifestações de desprezo à democracia, defesa de implantação de uma ditadura precedida de um banho de sangue de pelo menos 30 mil adversários e culto a uma das mais sinistras figuras do Exército, o coronel Brilhante Ustra.

Incapaz de lidar com as pequenas resistências encontradas por qualquer governo, no trato com os demais poderes da República, foi pilhado, no Carnaval, articulando um auto golpe que lhe daria poderes ditatoriais, a partir de manifestações de rua marcadas para dia 15, as quais legitimariam o fechamento do Congresso e do Supremo Tribunal Federal.

O fez sem ser confrontado com repúdios suficientemente firmes e duros, excetuados os do decano do Supremo, o bravo tatuiense Celso de Mello, e o do presidente do Conselho Federal da OAB, Felipe Santa Cruz, em quem, como Advogado, me vejo plenamente representado.

A firmeza, na repulsa ao golpe sugerido é, no caso, imprescindível.

O que se trama é uma traição à Constituição e, como ensinou o doutor Ulysses, hoje encantado nas águas do mar, “traidor da Constituição é traidor da Pátria”.

“Conhecemos o caminho maldito: rasgar a Constituição, trancar as portas do Parlamento, garrotear a liberdade, mandar os patriotas para a cadeia, o exílio e o cemitério.”

Conhecemos e rejeitamos.

Ao acenar com essa possibilidade, o presidente e os que o cercam, se esvaziaram da autoridade, sem a qual ninguém governa nada.

Ruim para ele e seus “acepipes”. Pior, muito pior, para todos nós, brasileiros.

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