Ronaldo, Maradona, Coutinho e o craque votorantinense Ize. No campo e na mesa, os boleiros bons de garfo do passado que também comiam a bola

MARCO MERGUIZZO – Com mais de 200 milhões de técnicos de arquibancada, muitos deles nem isso já que a imensa maioria se refestela no sofá de casa nos finais de semana para esbravejar, ou melhor, torcer confortavelmente diante da TV – o futebol continua a mexer com os corações e a galvanizar as atenções de boa parte dos milhões de flamenguistas, corintianos, são-paulinos, palmeirenses, santistas, são-bentistas e os milhões de torcedores dos clubes de todas as séries e regiões do país.

Herança em boa medida da história gloriosa de conquistas do futebol canarinho, que além de cinco Copas do Mundo, ao longo do tempo produziu uma seleção dourada de craques fenomenais. Caso de Arthur Friedenreich, “El Tigre”, autor de 1.329 gols. De Mané Garrincha, “o craque das penas tortas”. De Newton Santos, “A Enciclopédia”. De Didi “Folha Seca”. De Leônidas da Silva, o inventor da bicicleta.

E mais: de Carlos Alberto Torres, o capitão do Tri. De Eduardo Gonçalves de Andrade, o Tostão. De Roberto Rivellino, “a patada atômica”. De Zico, “o galinho de ouro”. De Ronaldinho gaúcho e Ronaldo Nazário de Lima, “o fenômeno”. E, claro, de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, o maior de todos eles – e de todos os tempos.

Das quatro linhas para dentro do prato. Além de expressões zona do agrião, frangueiro e outras metáforas nascidas no universo futebolístico, a pátria de chuteiras também produziu gerações de craques desde que o mais globalizado dos esportes coletivos começou a ser praticado por aqui há mais de 130 anos. Incluindo uma galeria de gorduchos bons de bola que hoje nem entraria em campo em meio ao corre-corre dos gramados profissionais. Veja, abaixo, a seleção de pesos-pesados do futebol mundial, que inclui entre outros craques, Ronaldo “Fenômeno” Nazário, o R9, um comilão incorrigível que embora vencesse e driblasse como poucos os defensores adversários, levava um olé da balança.

Distante do futebol praticado atualmente que privilegia o vigor físico e atlético e a correria em campo em detrimento da técnica, um sub-grupo de craques de outrora entraria para jogar sequer alguns minutos no chamado esporte bretão de hoje. Além da medicina, fisiologia e fisioterapia, a nutrição esportiva também deu um enorme salto evolutivo jamais visto, nas últimas duas, três décadas.

Crucial na preparação dos atletas nos dias atuais, muito boleiro por aí no entanto insistia em driblá-la até tempos atrás, mantendo uma dieta engordativa e desconectada com os avanços das ciências do esporte. Jogador que vem logo à mente é o jogador Walter Henrique da Silva, ainda em atividade e um dos últimos pertencentes a essa categoria de jogadores praticamente em extinção. Último e derradeiro dos moicanos gordinhos em campo, Walter disputará o campeonato regional e o Brasileirão deste ano pelo Goiás, após perambular por mais de uma dezena de clubes em todo o país.

Desde sempre brigando e de mal com a balança, o baixinho gorducho foi artilheiro por onde passou. Caso do Sport (onde iniciou), e Santa Cruz do Recife. Do Fluminense do Rio. Do Internacional de Porto Alegre. Do Cruzeiro de Belo Horizonte. Do Atlético Paranaense. E do Porto de Portugal. Chegou até a vestir a camisa amarelinha da Seleção Brasileira. Participou de todos os jogos da Seleção Sub-20 na campanha do time na conquista do Bi-Campeonato Sul-Americano da categoria, em 2009. De quebra, ainda foi um dos artilheiros do campeonato com cinco gols.

Walter: gorducho sim, porém, goleador por onde passou (Fotos: Arquivo)
Os fenomenais Puskas e Coutinho

Entretanto, não é de hoje que jogadores de silhueta rotunda entram em campo. Na história do futebol, há vários gordos que foram craques e, embora exagerassem no garfo, eram espetaculares com a bola nos pés. Nos já longínquos anos 30 e 40, por exemplo, Palmeiras e Fluminense reverenciavam Romeu Peliciari, que foi titular da Seleção na Copa de 1938.

Em pleno verão carioca, Romeu, que era careca e jogava de gorro na cabeça, vestia agasalho para perder o peso que ganhava nos restaurantes e botequins da então capital federal. Meia-armador, como se dizia antigamente, ou meia-de-ligação dos dias atuais, não errava um passe e tampouco perdia a macarronada de domingo. Vivia dizendo que não era gordo – tinha só uma “leve tendência” para engordar. 

Quando entrava em campo, o húngaro Ferenc Puskas (1927-2006), que papou uma série de títulos – como o de campeão espanhol, todos pelo Real Madrid (consecutivamente, de 1961 a 1965), da Europa (1959, 1960 e 1966), mais a taça de campeão olímpico, em 1952 -, ninguém dava nada por ele. Baixo e atarracado, o Esquerda de Ouro, como era chamado, jogava ao lado de Sándor Kocsis, dupla que as torcidas adversárias gozavam como “o gordo e o magro”. Quando a bola colava nos pés de Puskas, porém, é que o bicho pegava. Com passes precisos, dribles curtos e secos e um chute primoroso de esquerda, o gordo húngaro é quem ria sempre por último. 

Camisa 9 que fez a histórica dupla de ataque com Pelé no time dourado do Santos dos anos 60, Coutinho talvez nem esquentasse o banco na equipe do Peixe atual comandada pelo técnico portuga, o veterano Jesualdo Ferreira. Enquanto Pelé comia salada, Coutinho repetia sem remorsos a feijoada. 

A dupla Pelé-Coutinho: o primeiro comia salada; o segundo, feijoada 

No começo, o mundo confundia os dois gênios. Quem é Pelé? Quem é Coutinho? Depois que Coutinho deu uma engordada, ficou fácil. O gordinho era Coutinho – o “gênio da pequena área” como era chamado. Bicampeão da Libertadores e do Mundo (1962 e 1963), ninguém jamais ousou chamá-lo de gorducho ou coisa que o valha, por motivos óbvios para quem o viu em campo. Depois de pendurar as chuteiras e já longe da bola, foi que afinou a cintura. 

Maradona, o barrigudinho de Dios
Maradona, ‘El Pibe d’Oro’: um tal de Roberto Rivellino inspirou o cracaço

E Claudomiro Estrais Ferreira? Entre os anos 60 e 70, o centroavante rompedor do Internacional de Porto Alegre, cujo apelido era Bigorna por conta de seu corpanzil e vigor físico, reclamava que os uniformes estavam encolhendo. A torcida colorada, por sua vez, pegava no seu pé volta e meia pelas gordurinhas extras.

O fato é que Claudomiro passava fome em Porto Alegre e, com raiva, descontava no Grêmio. Chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira, mas sua carreira foi encerrada prematuramente em 1979, aos 29 anos, devido às constantes brigas com a balança.

Neto no Corinthians: mesmo gordinho chegou à Seleção nos anos 80

O hoje comentarista de futebol na tevê, o ex-meia corinthiano Neto, que jogou no trio de ferro do futebol paulista e teve sete convocações pela Seleção nos anos 80 e 90, sempre brigou com a balança. Hoje, cinquentão e magro como um bebedor de chá, dizia-se “boleiro e não atleta”. Além de Diego Armando Maradona e Ronaldo Nazário, o Fenômeno, dois dos melhores atacantes que eu vi jogar – obviamente no ápice de suas respectivas formas físicas. Ao contrário do primeiro, estes certamente têm cadeira cativa na lista dos melhores de todos os tempos, e são titulares absolutos nessa seleção de craques roliços que sabiam tudo de bola.

Talvez o mais genial dos barrigudinhos em campo tenha sido o canhoto argentino. Maradona, que fez o célebre gol de mão contra a Inglaterra pelas quartas-de-final da Copa de México, em 1986 (batizado por ele de ‘la mano de Dios’), pertence àquela categoria de extraclasses do esporte mundial como Pelé, Garrincha, Cruyff, Zico & Cia.

Além, claro, do seu conterrâneo, o ‘E.T.’ Lionel Messi, ou no basquete, o trio de foras-de-série Michael Jordan-Magic Johnson-Kobe Brian (leia o post que eu fiz há poucas semanas sobre este último fenômeno das quadras) – todos eles protagonistas capazes de jogadas plásticas de raro talento e habilidade, gerando naqueles torcedores que puderam vê-los jogar um sentimento de êxtase diante da maestria e genialidade de um ser humano com as bolas nos pés e com as mãos.

E mais: mesmo atuando em esportes coletivos, foram atletas determinantes que, num drible inesperado ou em um lance engenhoso e de pura técnica, mudaram os rumos de um jogo, chegando a vencer sozinhos uma partida ou uma final de Copa do Mundo, “carregando o time nas costas”. Caso de Maradona e de um certo garoto chamado Edson Arantes do Nascimento, na Copa de 1958. (veja, no final, o vídeo a célebre arrancada de El Pibe d’Oro na Copa do México de 1986, em que ele driblou seis jogadores ingleses).

De Ronaldo “o Fenômeno” a Ronalducho
Ronaldo: matador implacável, mesmo levando olé da balança

Outro craque de silhueta pra lá de redonda é Ronaldo Nazário de Lima, um dos mais letais finalizadores que o mundo já viu. Após incorporar vários quilos a mais em volta de sua cintura, Ronaldo que era o “Fenômeno” foi reapelidado de Ronalducho. O nove do Cruzeiro, do Barcelona, da Inter de Milão, do Real Madrid, do Corinhians e da Seleção pentacampeã de 2002, tinha no auge de sua forma todos os predicados de um atacante dos sonhos: velocidade, drible e habilidade de finalização em ambos os pés.

Na sua volta ao Brasil para defender o Timão, logo na sua estreia, ficou famosa a queda do alambrado no estádio de Presidente Prudente, na comemoração do gol que anotara no empate de 1×1 contra o Palmeiras, o seu maior rival, no campeonato paulista de 2009 (assista, no final do post, ao gol e em seguida a queda do alambrado escalado pelo camisa 9 corinthiano na comemoração com outros jogadores alvinegros). Desde aquela época, nunca mais Ronaldo foi o mesmo, brigando com a balança a cada partida.

Em Sorocaba, houve um jogador de futsal nos anos 1970 e 80 que marcou história do esporte da região. Seu nome? Ize. “Apesar da fama, não há nos registros da imprensa daquela época sequer o sobrenome do craque das quadras”, afirma o professor e pesquisador Frederico Moriarty, titular do blog Pipocando La Pelota.

Artilheiro matador, o pançudo mas habilidoso pivô votorantinense foi e é considerado por críticos que o viram brilhar nos anos 70 uma espécie de Falcão do futsal da era pré-profissional, época na qual o esporte era praticamente amador. “Originalmente, a profissão de Ize era a de operário na Votocel”, revela Moriarty.

Confira, logo abaixo, o relato completo sobre este gordinho ambidestro matador, cuja chuva de gols e chutes demolidores se tornaram célebres:

O roliço camisa 10 do Votocel

Por Frederico Moriarty, do Blog Pipocando La Pelota

Os quilos a mais entregam: Ize é o quarto agachado (da esqu. p/ dir.)

O jogo começaria às 20h, mas meus dois irmãos queriam chegar cedo na Vila Hortência (Hortência grafado com ‘cê’ mesmo). O Ginásio de Esportes iria lotar. Anos 70 não havia assentos numerados. Chegou cedo, meio do campo e terceira fileira acima. Perdeu a hora, jogo atrás do pilar com dois gigantes sentados à frente. Poucos minutos antes de começar o jogo não havia espaço nem para um cachorrinho sentar. Eu, moleque de 11 anos, imaginava que a cidade inteira de Sorocaba estava ali.

Era a grande final do Torneio Aberto de Futebol de Salão do jornal Cruzeiro do Sul, considerado à época o maior do gênero no mundo. Nos anos 1980 uma das edições teve mais de 500 inscritos e 5.000 jogadores. Números impressionantes. Era de dar orgulho num caipira em tempos de ditadura ufanista. “O maior do mundo, o maior do mundo”. “Um dia o Brasil também seria o maior do mundo?”, perguntava inocentemente para o meu pai.

Quando o árbitro apitou e começou a decisão entre a Empresas Pagliato e o então tricampeão Associação Desportiva Votocel, o mundo parou pra mim. De um lado, vários craques da seleção paulista e mesmo da seleção brasileira, patrocinados por uma empresa de cal e cimento de Sorocaba. Doutro lado, o time formado por operários da fábrica de celulose instalada na cidade vizinha Votorantim, além de alguns moradores dela.

Golias versus Davi. Partida equilibrada, nervosa. Mas, havia um fator de peso no Votocel, o pivô Ize. Jogava com a camisa 10. Ágil, veloz e com um petardo nos dois pés. Chutes daqueles que se a bola encontra o travessão, ou o ferro entorta ou a trave cai. Ize gostava de jogar de costas, abria os braços e ia descendo em direção à área adversária, com a bola grudada nos pés. O marcador tentava tirar a pelota pela esquerda, nada. Quando ameaçava ir para a direita, Ize virava como um furacão e lançava sua tempestade contra as redes.

Fazia gols, muitos gols. Tantos gols quanto os quilos a mais que possuía. Devia ter 1,75m de altura e pesava seguramente una 100 kg. O mais impressionante era que isso não lhe tirava a velocidade nem a mobilidade. Ao contrário, o corpanzii avantajado era utilizado por ele para dificultar mais ainda a vida dos marcadores. Não lembro o placar final. Lembro apenas que Ize foi a pedra de Davi que derrotou o poderoso Golias sorocabano em 1979.

Foi o primeiro e um dos poucos heróis que vi pessoalmente jogar. Ize e o Votocel foram os únicos tetracampeões seguidos do Cruzeirão (entre 1976 a 1979). O atacante em forma de barril foi artilheiro em algumas edições do Torneio. O Votocel também foi bicampeão paulista do interior em 1973/74. Abílio Neto, o técnico da equipe à época, dizia que se Ize tivesse se profissionalizado, seria o Falcão (do futsal) dos anos 70.

Com outro estilo mas sem dúvida um fora-de-série, Ize começou a jogar no final dos anos 60. O futebol de salão ainda não era reconhecido como “esporte”. Jogadores profissionais viviam de bico. Por esse motivo, Ize jamais deixou sua Votorantim e a fábrica da Votocel. Morreu praticamente esquecido no início dos anos 2000, de cirrose aos 51 anos de idade.

Trajetória semelhante a de vários craques brasileiros. Deixei o ginásio eufórico com o título da Votocel. Na escola tentava imitar a “bica” do Ize. Feliz também, pois estava com os irmãos mais velhos. Esses dias pensando no destino de Ize imaginei que se vivesse hoje, talvez teria se profissionalizado como jogador. Algum técnico maluco o trancaria num spa e depois de emagrecê-lo, mudaria a forma dele jogar em nome da tática. Pior, mataria sua única virtude: jogar futebol de salão como ninguém.

Mais próximos da mesa do que dos aparelhos de ginástica, essa seleção magistral de craques bons de garfo continua a encantar, mesmo que por meio de vídeos na internet, velhos e novos torcedores. Mais: talentosos e geniais, desafiam a lógica do futebol e os paradigmas da nutrição esportiva e da preparação física modernas, que por vezes privilegia em demasia a correria em campo em detrimento do talento e da genialidade cada vez mais difícil de se ver nas arenas de futebol e nos campinhos de futebol de várzea espalhados pelo país.

Das quatro linhas para dentro do prato

As expressões culinárias eternizadas pelo esporte bretão

Esse atacante é muito bom, ‘comeu’ a bola no clássico. Ou aquele goleador tem ‘cheiro’ ou ‘fome’ de gol, Foi um jogo cujo empate teve gosto ou ‘sabor de derrota’. Que ‘frango’ o goleiro engoliu! Um tremendo ‘peru’! Aquele zagueiro é muito parado! Fica ‘plantado’ feito mandioca na terra. Quem já não ouviu na arquibancada ou vociferou diante da tevê algumas dessas expressões (ou todas elas) antes, durante ou depois de uma partida de futebol?

Do território da cozinha para as quatro linhas do gramado, todas essas expressões que dão um ‘tempero’ e ‘molho’ especiais ao universo da bola, enriquecendo a gíria do mais apaixonante dos esportes (pelo menos para nós, brasileiros), tem como origem o universo da boa mesa. 

Salvo algumas poucas metáforas culinárias, como “zona do agrião”, cunhada nos anos 70 pelo ex-técnico da Seleção Brasileira, o jornalista e radialista João Saldanha (1917-1990), para definir a grande área, ou “ripa na chulipa e pimba na gorduchinha” do inesquecível e criativo narrador Osmar Santos – a maioria delas tem autoria desconhecida e foi gerada no tempo em que o radinho de pilha era o mais ágil e eficiente meio de comunicação do país e fazia o papel dos celulares conectados à rede mundial de computadores que hoje trazem informações e imagens on-time ao torcedor.

PARA VER E CURTIR:
ANTOLOGIAS DE DOIS CRAQUES GORDUCHOS
MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
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acessando @marcomerguizzo  
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