Gavetas do Corpo no Fringe – Festival de Curitiba

JOSÉ SIMÕES (Blog do Simões) – A participação do espetáculo Gavetas do Corpo no fringe do Festival de Curitiba me fez refletir acerca do trabalho dos grupos e a formação de público. Se engana quem acha que o teatro é um acontecimento repentino. Que de um momento para o outro o artistas acontecem e explodem num sucesso retumbante.

Não é à toa que muitas pessoas, no senso comum, afirmem que gostariam de ser artistas ” famosos” ou então “para serem reconhecidas”. Há, também, a ideia que ser artista é uma profissão muito fácil. Alguns imaginam que o artista acorda tarde, se espreguiça, e alguém aparece para lhe servir algo. Depois ele pega um carrão e  dirige até o estúdio para gravar  ou vai ao teatro para apresentar algo. Vida novela. Não. Não é nada disso. Há muito trabalho na vida do artista e a grande maioria dos artistas são invisíveis, anônimos. O sucesso é para poucos, muito poucos. O sucesso, também, é efêmero e fugidio. Viver depois do sucesso é um enorme desafio, principalmente, num pais sem memória como o nosso.

Certa vez uma atriz (vou manter o nome em segredo) contou num evento que quando ela estava em cartaz numa novela a sua vida cotidiana mudava. Ela ia, por exemplo, fazer as unhas e a dona do salão dizia: não precisa pagar. Faz uma foto comigo? Ela virava o assunto do salão. Logo que a novela acabava, um mês depois, no mesmo salão, a vida retomava a normalidade. Não há mais fotos.  Tudo virá pó. É fácil? Não, não é nada fácil o sucesso midiático.

Já no teatro o sucesso advém de um processo de construção lenta – escolha do repertório, esforço para colocar a produção em cena, investimentos na formação,  riscos assumidos pelas escolas, captação de recursos, viagens e o público – um longo caminho.

Todo artista de teatro troca o sucesso imediato por plateia cativas, fieis que lotem os teatros. É o publico presente – no aqui e agora – que faz o teatro. Não há teatro sem público e para que isso aconteça é necessária a formação de público. Não é um processo fácil “formar públicos”. Requer uma ação em múltiplas frentes e, também, diversificadas. Dentro daquilo que se chama política publica para a Cultura.

Uma das ações que acontece de forma localizada em cada coletivo, performer ou grupo de teatro é a de formação do público daquele grupo. O grupo busca então criar na sua linha do tempo, coerência no repertório e qualificação na atuação dialogando e fomentando com pessoas ao seu redor que terminam por se tornar público.

A Cia Camarim (Hamilton Sbrana, Julio Scandolo e Maria Helena Barbosa) é uma dessas companhias de teatro de Sorocaba que faz isso. Investem no processo de formação dos atores, na composição da cena, na qualidade dramatúrgica e na formação de público.  Seus espetáculos são processos de construção cênica demorados para se chegar ao resultado. Depois fazem os seus espetáculos circular  pela cidade e fora dela em pleno diálogo com as pessoas.

Gavetas do Corpo, espetáculo da Companhia Camarim, irá circular mais uma vez, estará presente no Fringe do Festival de Curitiba, dias 04 e 05 e abril. A companhia leva na bagagem e no corpo o trabalho feito de pequenos gestos e ações.

É importante que os grupos de teatro saiam da cidade (e mesmo da região), participem de eventos nacionais e internacionais. Há excelentes espetáculos  produzidos na cidade e na região.

Arrumar as malas e sair mas, também, voltar e e seguir fazendo o trabalho anônimo de formar público, numa cidade que não valoriza os seus artistas. Onde o teatro não tem importância para o poder público. (faço a ressalva ao Secretário do Meio Ambiente Maurício Mota  que ouviu os artistas e permitiu que acontecesse de modo oficial a atividade Arte no Parque. De resto, silêncio.)

É, portanto, neste ir e vir que as companhias de teatro da cidade amadurecem. É bem por isso, que os artistas da região se reúnem em eventos como I e o II FESTÃO (o III FESTÃO acontecerá neste semestre em  São Roque/Mairinque), para circular os seus trabalhos.  As trocas são necessárias. Aprendemos com os erros e acertos dos outros. Tudo isso ligado à muito trabalho dos artistas, ensaios, atividades corporais, leituras, escritas de projetos e uma vontade imensa de discutir o mundo frente à frente com o outro ser humano.

Viva  a Cia Camarim. Viva todas companhias de teatro da cidade e região que se arriscam ser mambembes.

Outros públicos. Outros olhares. Efêmeros.

Viva o teatro!

Boa viagem Gavetas do Corpo. Bom trabalho noutras terras.

Para ler a crítica de GAVETAS DO CORPO: https://wordpress.com/post/terceiramargem.org/6876

 

 

 

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