A produtora Laura Catena, das bodegas Catena Zapata e Luca Wines, fala sobre as mulheres no mundo do vinho e sua obsessiva paixão pela Malbec e o terroir mendocino

MARCO MERGUIZZO – Bióloga e médica graduada por Harvard e Stanford, é o vinho, entretanto, que faz bater mais forte o coração da atual diretora-geral da vinícola Catena Zapata, a argentina Laura Catena. Sobretudo se o giro da taça evocar os aromas da uva Malbec, a casta-símbolo de seu país, pela qual por sinal nutre uma paixão declarada, incondicional e obsessiva.

Sentimento idêntico que essa executiva mendocina demonstra pelo trabalho que hoje ela realiza, simultaneamente, à frente do Catena Institute of Wine e de sua vinícola-butique, a jovem e igualmente premiada Luca Wines, que leva o nome do filho primogênito.   

Classe de 1967, Laura, integrante da quarta geração do mais famoso clã de vitivinicultores da Argentina, também é a hija mayor (filha mais velha) e sucessora do legendário produtor Nicolás Catena, cuja saga familiar no mundo do vinho teve início há exatos 117 anos.

Graças ao histórico de pioneirismo e dedicação de seus bisavós e avós, mas, sobretudo, ao talento visionário de seu pai, responsável por revolucionar o vinho argentino, a centenária vinícola hoje sob o seu comando, conquistou relevância e prestígio planetários, sendo uma das mais reverenciadas em todo o mundo. 

Desde que assumiu o posto mais alto da mais festejada bodega do país hermano, Laura comprometeu-se a elevar ainda mais o padrão de qualidade do Malbec argentino. Hoje, ela está fazendo o mesmo – e tão bem quanto o patriarca, sublinhe-se -, ao vinificar os estupendos Malbecs de parcela e um Chardonnay de clima frio.

Meticulosa, de temperamento irrequieto e visão científica abrangente, ela criou o Catena Institute of Wine, que trabalha em conjunto com a Universidade da Califórnia, em Davis, e a Universidade Nacional de Cuyo, em Mendoza, para estudar o terroir argentino e o comportamento da variedade Malbec em várias regiões do mundo.

Profícua, a equipe de enólogos da entidade opera por ano, por exemplo, impressionantes 1.000 microvinificações, além de promover pesquisas sobre os efeitos do solo e do microbioma nos aromas e sabores do vinho, as novas variedades plantadas na Argentina e o potencial dos vinhos de altitude, entre outros temas.

“Tudo o que eu faço é com muita paixão, não é um trabalho. Quando provo um vinho com meus amigos e os enólogos com os quais eu trabalho, como Alejandro Vigil, sempre pergunto a eles: – Este vinho fez seu coração bater mais forte? – Te deu palpitações?”

(Laura Catena)

Sem contar a extensa e preciosa bibliografia publicada em importantes revistas científicas internacionais. O rigor acadêmico e científico, por sinal, sempre fez parte do DNA de Laura. Fruto de um trabalho de arqueologia – o de identificar vinhedos antigos de Malbec no terroir mendocino -, cuja missão é objeto de sua obsessiva paixão, acabaram por nortear e inspirar a criação de sua própria bodega, a Luca Wines.

Além de comandar o instituto e as duas vinícolas, Laura Catena ainda trabalha como médica e professora na Universidade da Califórnia, em São Francisco. Workholic de carteirinha, ela lançou em 2010 seu primeiro livro: An Insider´s Guide to the Wines and Wine Country of Argentina, um guia com dezenas de vinícolas e personalidades da indústria vinícola argentina. E, mais recentemente, Oro en los Viñedos, que traz histórias de famílias tradicionais do mundo do vinho.

Confira, abaixo, este saboroso bate-papo do blog Aquele Sabor Que Me Emociona com Laura Catena, a grande dama do vinho de Mendoza e da Argentina.

Como você se preparou para assumir a direção da Catena Zapata, substituindo seu pai, Nicolás Catena, considerado uma lenda no mundo do vinho argentino?

LAURA CATENA – Minha preparação não foi nada ortodoxa. Estudei biologia em Harvard e, depois, medicina em Stanford. Quando era jovem, imaginei que passaria a minha vida bebendo os nossos vinhos – e não fazendo! (diz, sorrindo). Quando meu pai foi para a França estudar como fazer um grand cru argentino, em meados da década de 1980, eu o acompanhava nas viagens como tradutora. À época, era estudante, tinha só 18 anos, mas já era fluente em francês, idioma que domino desde bem jovem. Foi quando aprendi a sutileza, as tradições e a “arte” que está por trás dos grandes vinhos franceses, os melhores do mundo.

E quando tomou a decisão de trocar o jaleco de médica e de professora pelo tailleur de executiva?

LAURA – Não troquei. Concilio ambas. Mas quando comecei a exercer a medicina nos Estados Unidos, meu pai me pediu para ir junto com ele à Wine Experience New York uma das mais importantes feiras de vinhos do mundo mas que até então não havia vinhos sul-americanos. Naquele ano fomos a primeira vinícola sul-americana convidada. Lá, percebi o árduo caminho que meu pai e a Argentina deveriam trilhar. Naquele momento, decidi oferecer meus serviços ao projeto sonhado pelo meu pai.

Você é bióloga, médica e professora, além de escritora e autora de livros de enologia. Em sua opinião, o conhecimento e o método científicos são o melhor caminho para se obter a excelência de um vinho?

LAURA – Minha formação científica me ajudou muito no mundo do vinho. Compreendo a vitivinicultura e a enologia sob esse ponto de vista. Sendo assim, acredito que todo vinhedo deve ser cuidado como uma pessoa. No ambiente hospitalar, aprendi a trabalhar em equipe, algo essencial em qualquer organização ou empreendimento, e a olhar para os detalhes. Durante os meus anos de estudos na França, estudei sobre a arte do vinho e isso também é crucial, já que arte e ciência devem estar em equilíbrio quando se quer produzir vinhos originais, autênticos e de qualidade.

“Minha formação científica me ajudou muito a entender o mundo do vinho. Também estudei sobre a arte do vinho e isso também é fundamental, já que arte e ciência devem estar em equilíbrio quando se quer produzir rótulos originais, autênticos e de alta qualidade.”

Em 1995, você criou o Instituto Catena que trabalha em conjunto com as universidades da Califórnia e de Cuyo, em Mendoza, para promover a qualidade do vinho e o terroir argentinos. Quais os frutos obtidos nesses 24 anos de trabalho?

LAURA – Em 1995, fundei o Catena Institute of Wine para estudar o terroir de altitude de Mendoza e a uva Malbec. A visão do Instituto Catena é utilizar a ciência para preservar a natureza e as tradições vitícolas. Nos anos 90, haviam muitos produtores estrangeiros que vinha à Argentina para nos dar conselhos. Percebi que esses flying winemakers não conheciam de fato o nosso terroir, nosso clima de altitude e nossas tradições – assim como nós, argentinos! Foi a partir desta observação que resolvi criar o instituto.

Com o enólogo Alejandro Vigil, na calicata do vinhedo Adrianna: tesouro

E o que mais a fascina nesse seu projeto?

LAURA – O estudo das populações de Malbec. Na Europa há algumas poucas variedades desta cepa francesa que é originária da região de Cahors, próximo a Bordeaux. Batizadas sob o nome de “Cot”, produzem vinhos de alto rendimento e menos refinados do que o nosso Malbec argentino. A Malbec é uma cepa que existe há mais de 2.000 anos e as seleções dessa variedade de cachos pequenos e de baixo rendimento só existem na Argentina – elas não existem mais na Europa. Tenho uma obsessão em preservar essa linhagem que já estaria extinta se não tivesse vindo para a Argentina.

Em sua avaliação, qual o papel do terroir de Mendoza para a Malbec que acabou virando sinônimo de vinho argentino?

LAURA – O estudo dos micróbios e leveduras do solo – que são os verdadeiros donos das vinhas e fundamentais no sabor de cada vinho – é outra coisa que me apaixona nesse trabalho que realizamos. Hoje, com as mudanças climáticas e todas as pragas e trabalhos humanos que ameaçam a vitivinicultura, a ciência deve ser usada para preservar a arte do vinho. O vinho de uma parcela é como um quadro antigo que deve ser preservado para as próximas gerações. É assim que eu vejo a ciência participando da enologia.

“A ciência deve ser usada para preservar a arte de se fazer vinho. O branco ou tinto de uma parcela é como um quadro antigo que deve ser preservado para as próximas gerações. É assim que eu vejo a ciência participando da enologia.”

Nesse contexto, qual a importância de conceitos como climat (ou microclima) e microterroir para os vinhos da Catena Zapata?

LAURA – É essencial separar as áreas de vinhedos em parcelas (que podem ser de um, dois ou cinco hectares), pois cada uma produz uvas de um paladar único, devido às peculiaridades de solo, exposição solar e microclima daquele lugar. Ao identificar esses sabores, únicos e exclusivos, é gratificante poder preservá-los no vinho e ver como eles evoluem ao longo do tempo.

Por que as uvas originárias de vinhas velhas são consideradas superiores às de vinhedos mais jovens?

LAURA – Quando a planta envelhece, as raízes se tornam cada vez mais profundas, adaptando-se perfeitamente ao solo, ao ecossistema e à fauna microbiana do solo. Isso faz com que a planta entre em equilíbrio e reduza a sua produção. Este fenômeno torna o vinho oriundo de vinhedos mais antigos muito mais equilibrado e envelheça melhor com o tempo. Não é diferente, portanto, da sabedoria adquirida pelas pessoas mais velhas.

Aos pés do Andes, a cenográfica sede da bodega em Mendoza

Fundada em 1902 por Nicola Catena, a Catena Zapata é uma vinícola familiar repleta de história e paixão pela vinicultura e pela arte. Os Catena trabalharam arduamente, ao longo de várias gerações, para criar vinhos complexos e rara elegância, como os Premier Cru de Bordeaux, sua fonte de inspiração, porém, com identidade e alma genuinamente argentinas.

Uma das muitas revoluções promovidas pela Catena Zapata nos vinhos argentinos foi o uso criterioso de barricas. Em sua opinião, qual deve ser o papel da madeira em um vinho? 

LAURA – A madeira jamais deve ofuscar o “goût de terroir” (“sabor do terroir”). Não produzimos vinhos a partir de uma só fórmula. Entendemos que a barrica deve ser usada de acordo com as particularidades de cada parcela e safra (ano). Se a madeira começa a se sobressair mais que o vinho, simplesmente o tiramos da barrica.

Bodegas CARO é uma joint-venture da Catena Zapata com a maison francesa Rothschild-Lafite. Como nasceu e qual a sua avaliação dessa parceria que em 2019 completa exatos vinte anos?

LAURA – CARO foi e é um projeto muito divertido que começou entre as nossas famílias, ambas especialistas e referências mundiais em Malbec e Cabernet Sauvignon. Somos muito amigos e os vinhos produzidos pela CARO refletem essa expertise e a elegância das duas variedades, bem como a amizade e o carinho existente entre nossas famílias. Tanto nós como os Rothschild temos uma verdadeira obsessão pela excelência. Isso nos aproxima e sempre fez com que nos déssemos muito bem e desenvolvêssemos um profundo respeito pela tradição e a verdadeira arte com que os vinhos de Bordeaux são elaborados.

Assim como a CARO, a Luca Wines, a vinícola-butique que você fundou, é um projeto cujo foco são os vinhedos antigos?

LAURA – Sim, criei a Luca, que leva nome do meu primeiro filho, em 1999, época em que eu estava determinada a encontrar vinhedos antigos na Argentina. Logo, procurei fazer coisas um pouco “malucas”, como um Pinot Noir fora da curva, de grande altitude, e um Syrah de vinhas velhas, bastante singular. Na Catena Zapata todas as uvas são provenientes de vinhedos próprios. Já na Luca, trabalhamos com alguns dos vinhedos da família, mas também compramos uvas de pequenos produtores originários de vinhedos muito antigos que geram vinhos charmosos. É um projeto pelo qual sou apaixonada. Além de varietais de Chardonnay, Pinot Noir, Malbec e Syrah, produzimos um Cabernet-Malbec que leva o nome do meu outro filho, Dante, de temperamento afável e ultracarinhoso. Costumo dizer que no Beso de Dante, a Malbec “beija” a Cabernet Sauvignon (sorri).

O Adrianna pode ser considerado o vinhedo mais famoso e a menina dos olhos da Catena Zapata?

LAURA – Meu pai, Nicolás Catena, plantou esta área de vinhedo em 1992, quando todos diziam que era um lugar demasiadamente frio para a videira amadurecer. Ele acreditou, porém, que não só o sol de Mendoza ajudaria as uvas a amadurecerem, como as baixas temperaturas dariam aos vinhos a acidez e a concentração necessárias para produzir excelentes vinhos de guarda. Ao estudarmos a composição do solo, descobrimos que o Adrianna (nome da minha irmã caçula) era um antigo leito de rio que secou há milênios, por meio de uma série de fenômenos naturais, como terremotos, ventos e atividades glaciares – em centenas de diferentes parcelas. Cada uma delas é uma joia que origina vinhos únicos com grande potencial de envelhecimento. De forma visionária, meu pai uma vez mais estava certo (assista ao vídeo, no final do post, sobre este vinhedo precioso).

“Em 1999, criei minha própria vinícola – a Luca Wines -, que leva nome do meu primeiro filho. Era uma época em que eu estava determinada a encontrar vinhedos antigos na Argentina. Logo, procurei fazer coisas meio “malucas”, como um Pinot Noir de grande altitude e um Syrah de vinhas velhas.”

No final de 2018 foi lançado no mercado brasileiro, o Malbec Argentino. O que representa este vinho para a Catena Zapata a começar pelo rótulo que exalta quatro mulheres?

LAURA – Tínhamos o desejo de contar a história milenar da Malbec, cultivada desde o Império Romano, há mais de 2.000 anos, variedade considerada a mais importante de Médoc (sub-região de Bordeaux), entre os séculos 18 e 19 e que foi “salva” da extinção quando migrou para a Argentina. Minha irmã Adrianna, que é doutora em história pela Universidade de Oxford, me disse que além de um grande vinho, a única maneira para se contar esta história estaria no rótulo. Assim, toda a saga da Malbec foi representada no rótulo através de quatro mulheres, uma delas a filoxera – a praga que dizimou os vinhedos europeus no século 19 -, lindamente desenhadas a bico de pena.

Criado por Adrianna Catena, o rótulo do Malbec Argentino homenageia a Malbec, suas raízes na França e posterior ascensão na Argentina. A obra de arte foi feita por Rick Shaefer e o design por Stranger & Stranger. O rótulo retrata quatro figuras femininas que incorporam diferentes marcos na história da casta.

A primeira mulher, que simboliza o nascimento da Malbec, é Eleanor da Aquitânia. A segunda mulher é a imigrante, simbolizando o movimento dos colonos da Europa para o Novo Mundo. A terceira mulher simboliza a filoxera, que dizimou videiras europeias no final do século XIX. A última mulher, representando o presente, é Adrianna Catena, que dá nome ao vinhedo mais famoso de Catena, plantado por Nicolás Catena Zapata em Gualtallary com o objetivo de encontrar o local mais interessante para cultivar videiras em Mendoza.

Antes dominado pelos homens, a indústria do vinho e mesmo entre os consumidores a presença das mulheres é cada vez maior. Em sua opinião, esse olhar e modo de ser femininos têm mudado a forma de ver e consumir o vinho?

LAURA – Sim, isso é inegável. E não é de hoje que atuação de mulheres se tornou importante. Eleanor de Aquitânia, por exemplo, foi uma das principais divulgadoras da Malbec durante a Idade Média. Minha bisavó, Ana Mosceta de Catena, também foi pioneira ao cultivar algumas das primeiras videiras em solo argentino ao lado do meu bisavô, Nicola Catena. Embora não tenhamos evoluído em muitas áreas, como o meio ambiente, a participação das mulheres no mundo do vinho e em outros segmentos têm sido cada vez maior e fundamental.

Embora a Malbec seja a principal protagonista da Catena Zapata, qual a importância da Cabernet Sauvignon na história da bodega e da sua família?

LAURA – Meu pai é um grande amante da Cabernet Sauvignon. Nosso primeiro vinho que ficou famoso na Argentina foi o Saint Felicien, elaborado a partir dessa variedade, que se dá muito bem em Mendoza e expressa um estilo bem europeu. A Cabernet também é muito rica quando é mesclada à Malbec, como se fazia em Bordeaux nos séculos 18 e 19. Como somos uma vinícola familiar, é natural que os nossos vinhos reflitam as predileções e as paixões do meu pai e da nossa família.

Laura com o pai, o legendário produtor argentino Nicolás Catena

“Meu pai é um grande amante da Cabernet Sauvignon. Nosso primeiro vinho que ficou famoso na Argentina foi o Saint Felicien, elaborado a partir dessa variedade. Como somos uma vinícola familiar, é natural que os vinhos reflitam as predileções e as paixões do meu pai e da nossa família.”

Com tantas premiações e conquistas ao longo da trajetória da Catena Zapata, qual é hoje seu maior desafio? E o da vinícola? O que a move e faz o seu coração bater mais forte?

LAURA – Adorei essa pergunta pois tudo o que eu faço é com muita paixão – não é um trabalho! Uso essa mesma expressão quando pergunto aos meus amigos e aos enólogos com os quais trabalho, como Alejandro Vigil: “- Este vinho fez bater mais forte o teu coração? Te deu palpitações?” Vivo para que o vinho argentino seja reconhecido como um dos grandes do mundo e em pé de igualdade com os grandes nomes da França, em especial os de Bordeaux e Borgonha. Nossos vinhos têm obtido, ano após ano, pontuações máximas de vários críticos importantes, porém, há ainda muito trabalho a se fazer pelo vinho argentino.

Como concilia a sua agenda entre as duas vinícolas, o instituto, a medicina, viagens internacionais, o marido e o papel de mãe?

LAURA – Meu tempo é dedicado 100% ao vinho, 100% à medicina e outros 100% aos meus filhos! (diz, sorrindo). Talvez quem sofra mais com isso seja meu pobre marido, que é médico também e, felizmente, tem muita paciência comigo (ri). Prometi a mim mesma que, futuramente, quando todos os meus filhos terminarem os estudos, dedicarei um pouco mais de tempo a ele. Mas ainda falta muito tempo, porque tenho uma linda filha de 13 anos, e Dante, de 17, que moram comigo, e Luca, de 20, que está estudando em Boston.

Por fim, qual a sua visão sobre produção orgânica e biodinâmica e práticas agrícolas sustentáveis? Em sua opinião, este é o futuro da vitivinicultura ou uma utopia?

LAURA – A sustentabilidade tem como objetivo proteger o meio ambiente e as pessoas que trabalham na agricultura. Cada vez mais é uma condição muito importante. E que deve ser buscada com seriedade – não é uma utopia! Assim, é crucial que os produtores tenham essa visão e dispensem o uso de produtos químicos nos vinhedos e na adega, a fim de proteger não só a natureza e o planeta, mas a saúde daqueles que trabalham no campo, geração após geração, e do próprio consumidor de vinho.

Malbec hermano de fina estirpe

A partir da safra 2015, o Malbec Argentino é elaborado com um corte de vinhas antigas de dois icônicos vinhedos da família Catena Zapata: Nicasia e Angélica. Cada parcela é colhida individualmente, em seu ponto ideal, e vinificada separadamente. É um vinho extraordinário, que mereceu 95 pontos do conhecido crítico norte-americano Robert Parker, para quem é muito expressivo, e que no copo “continuou crescendo e crescendo, ficando mais focado e ainda mais fresco”. O Malbec Argentino foi criado por Nicolás Catena Zapata e logo em sua primeira safra (2004) arrematou 98+ da exigente revista Wine Advocate. Verdadeiro ícone, é sem dúvida um dos maiores tintos de Malbec da Argentina. É um vinho esplêndido, monumental. Tive o privilégio de provar as safras 2015 e a de 2017, ambos de qualidade superlativa, simplesmente incomparáveis a outros malbecs hermanos. Embora ostente um preço um tanto salgado (em boa medida pela disparada do dólar), vale cada centavo pago. Importação exclusiva da Mistral, de São Paulo (Preço da safra 2017 no site da importadora: R$ 926).

Uma francesinha que atravessou o Atlântico

Vinhedos da Malbec aos pés dos Andes: sinônimo de vinho argentino

Definitivamente, o brasileiro ama a Malbec. Está entre os preferidos do consumidor de vinhos iniciados ou não, a maioria proveniente do país hermano, pela boa relação preço-prazer e por serem mais conhecidos.

Ou seja, a simples menção à Malbec nos remete imediatamente à Argentina. Os melhores rótulos do país hermano conseguem a proeza de harmonizar as frutas do Novo Mundo com a acidez e os taninos firmes e balanceados do Velho Mundo, constituindo-se, provavelmente, na razão pela qual têm visto sua fama crescer mundo afora.

Embora para muitos, a Malbec seja sinônimo de vinho argentino, a uva está presente em outros países, como Chile, Austrália e Nova Zelândia, que também têm ótimos exemplares. Embora originária de Bordeaux e tenha consagrado a região de Cahors, no Sudoeste francês, são os tintos elaborados com a uva Malbec da região de Mendoza que, em termos de mercado internacional, ganharam fama e prestígio.

Sabe-se que a Malbec cruzou o Atlântico em meados do século 19, mais precisamente em 1852, e se adaptou espetacularmente no terroir argentino de Mendoza. Nesta zona de clima seco e com ampla utilização da irrigação artificial, ela se manteve à salvo da filoxera (a praga que devastou os vinhedos no fim do século XIX), conseguindo apresentar ali sua melhor expressão, constituindo-se hoje numa verdadeira bandeira do vinho argentino e um grande sucesso no mercado mundial.

Enquanto isso, na sua Bordeaux natal, com seu caráter mais duro e tânico, ela continua desempenhando papel secundário no chamado “corte bordalês” – composição de uvas permitidas na região para a elaboração dos vinhos dessa apelação. Lá, ela fica à sombra das globalizadas Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc e Petit Verdot.

A Malbec origina vinhos robustos e bem concentrados. No nariz recorda frutas vermelhas e negras, como cerejas maduras, ameixas, morangos, além de notas florais e de anis. Na boca, tem sabor característico, levemente adocicado proporcionado pela intensidade das frutas maduras. Assim, ele está longe de ser considerado um vinho fresco o que não significa que o vinho não possa ser potente e tânico.

Por conter acidez bem equilibrada e taninos redondos, a Malbec favorece um paladar longo e aveludado com textura que não “amarra a boca”. À mesa vai muitíssimo bem com churrasco e assados de carnes de sabor forte e gordurosas como costela, picanha, cordeiro e aves. 

Para ver e curtir:

MARCO MERGUIZZO 
é jornalista profissional 
especializado em gastronomia, 
vinhos, viagens e outras 
coisas boas da vida. 
Escreve neste Coletivo 
toda sexta-feira. 
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acessando @marcomerguizzo  
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