Vinte e um anos de Matrix: a maioridade do clássico cyberpunk

FREDERICO MORIARTY – Certa vez comentei com um conhecido que gostaria muito, por ser historiador, de conhecer o Egito, um dos berços da civilização. O cidadão caiu na gargalhada e vociferou:

– Por que você não vai à Disney? Nos estúdios tem as pirâmides que utilizaram pra filmar Cleópatra…

Óbvio que aquele homem, tomado de ignorância e dinheiro, jamais saberá quem foi Jean Baudrillard mas sua fala descreveu à perfeição os conceitos de simulacro e simulação do sociólogo francês.

Jean Baudrillard (Fonte: BBC)
Simulacro e Simulação

Capitu, a heroína de Machado de Assis, tinha os olhos oblíquos de cigana. Dissimulada que era. Quando há o conhecimento da verdade e mesmo assim procuramos escondê-la, temos a forma da dissimulação. Seu antônimo, na tese do filósofo Baudrillard, é o ato inventar uma verdade, desconhecida e aparentemente real.

Na era das tecnologias digitais, dos sistemas via satélite, dos robôs, drones e computadores, a simulação da realidade é uma necessidade, um “imperativo categórico”, como diria Kant.

A maior rede social do mundo, o Facebook, unifica três bilhões de humanos num imenso laço de (teoricamente) amizade em que 99,9% jamais se encontrarão, nunca irão tocar as mãos ou sequer beijos e abraços. Nunca se olharão nos olhos. Uma miríade de estranhos e solitários vivendo num mundo tomado de pessoas digitais. Muito além, portanto, da dissimulação.

Baudrillard inova ao defender o conceito de simulacro. Segundo o sociólogo, o poder político e econômico, seja ele de uma república ou monarquia, um império ou uma democracia direta. Seja o capitalismo ou socialismo. Venha de uma estatal mastodôntica ou de uma grande corporação. Não importa, esse poder domina todas as esferas da vida privada e pública e exerce de forma totalitária sua versão da verdade. Inventa uma realidade e nos faz vivê-la e senti-la como real.

Mas se na simulação há uma imitação da verdade existente, no simulacro não existe uma verdade, pois não existe o conflito. A dialética hegeliana-marxista está superada. A afirmação e a contradição estão dissolvidas numa síntese sem possibilidades de mudança. A realidade que vivemos é apenas uma invenção de quem detém o poder, ela não condiz com a realidade e jamais será fidedigna. Os conflitos são aleatoriamente criados para termos uma sensação maior de que o real (que é imaginário) existe. Ela inventa uma verdade, de caráter midiático, a denominada hiperrealidade.

A representação em gif da hiperrealidade
Os Simulacros

O atentado ao World Trade Center em 2001 é um exemplo. Uma verdade sendo criada, a do “Bem contra o Mal”, dos cristãos versus muçulmanos, dos homens de bem contra terroristas. Dualidades sem nenhuma auto-crítica. Mais do que isso, a realidade simulada transmutou-se em realidade vivida. Quantos filmes já havíamos assistido com a destruição de Nova York? Agora, ela ocorria ao vivo e transmitida para mais de 100 países. É a hiperrealidade.

Os vários simulacros: Mickey, R2-D2 e George Lucas (Estúdios Disney)


O fenômeno Disneyworld. Milhões de adultos buscam as atrações “infantis” todos os anos. São centenas de brinquedos e diversões que simulam a realidade (da vida real e dos filmes). A infantilização, necessária ao consumo, permite aos “maiores de idade” divertirem-se como uma criança, mas depois voltar à vida adulta.

Uma grande falácia. O parque infantil erguido por adultos é o espelho das nossas necessidades pueris eternas. A farsa leva milhões a crer que aquilo é apenas uma diversão infantil, um simulacro da realidade.

Como nosso amigo do início dessa história. O Egito verdadeiro nada significa para ele, pois é um Egito com verdade e realidade. Com hotéis baratos, pessoas pobres nas ruas, insetos desconhecidos, o calor insuportável do Saara e blocos de pedras de 5.000 anos. Vivemos na era do simulacro, da hiperrealidade.

O verdadeiro Egito é o dos cenários cinematográficos, dos turistas endinheirados, das camisetas alusivas ao passado e das pirâmides com ar-condicionado e miniaturas em 3D. Mas não há dúvida de que o maior exemplo e lição de simulacro aparece no filme Matrix, de 1999, das irmãs Lana e Lilly Wachowski (na época como os Wachowski Brothers, Andy e Larry), que em 2020, completa 21 anos.

Matrix, o filme

John Anderson (Keanu Reeves) é um hacker nas horas vagas. Durante o dia trabalha num escritório financeiro. Ele desconfia de que há algo de estranho (um simulacro, como depois descobre) no mundo. Numa noite, Anderson é convidado a seguir o coelho tatuado na costa de uma estranha que bate em sua casa. A alusão é clara: Anderson é “Alice no País das Maravilhas” que irá seguir o personagem do romance de Lewis Carrol até o segredo da Matrix. Anderson guarda os segredos num cofre com a capa do “Simulacro e Simulação”, de Baudrillard. A chave do filme.

Anderson é Neo. O novo em latim. O predestinado que traçará a jornada do herói. A mulher que o conduz ao mundo além do real chama-se Trinity (Carry Anne Fisher). Ela é a mãe, a amante e a alma que salvará Neo. A Santíssima Trindade, exposta no nome. Neo terá uma escolha: entre permanecer no mundo das sombras ou despertar do sono eterno.

Trinity, Neo e Morpheus (Foto: Arquivo)

O “mito da caverna” escrito por Platão, em “A República”, foi recriado em Matrix. Neo escolhe a luz do sol que cega, mas revela o mundo da essência, como no mito platônico. Quando desconfiam da verdade, Neo e o personagem platônico têm seus grilhões arrancados e aos poucos eles vão deixando o mundo sensível das aparências e adentrando ao mundo das ideias e do conhecimento.

Prof Martinho explica o mito

E qual a metáfora da luz e sombra? O “Deus grego do sono”, Morpheus (Laurence Fishburne). No sono acontecem os sonhos e por estes revelam-se o nosso inconsciente. Ao escolher a pílula da verdade, Neo poderá sair da caverna e entender todo o simulacro. Interpretar e conhecer o mundo dos sonhos.

Que, em verdade, vivemos no ano de 2199, logo após a hecatombe ambiental e uma guerra nuclear que quase puseram fim á vida na terra. Dotadas de inteligência artificial e preocupadas com o ocaso do homem e, consequentemente, com o controle sobre a eletricidade, essencial para o funcionamento das máquinas, estas se rebelam contra os homens, escravizando-os e colocando-os em imensas incubadoras.

Ali sugam a energia corporal, transformando-a em mecânica e, depois, elétrica. Tudo para movimentar os algoritmos binários do sistema Matrix. Para manter o corpo vivo e produzindo energia, a Matrix sabia que seria necessário viver. Por isso, cria uma realidade virtual completa, ambientada em 1999, para que os humanos acreditassem numa hiperrealidade. Vivessem, comessem e amassem como num mundo real, repleto de falhas, como é, por sinal, a nossa realidade. Matrix é o “simulacro” à perfeição.

Neo enxerga a verdade e passa a navegar numa nave que lembra as Vinte Mil Léguas Submarinas, de Júlio Verne, com outros humanos conhecedores do real, como Morpheus e Trinity. Nome da embarcação: Nabucodonosor, o antigo Imperador da Babilônia que levou os judeus ao cativeiro no século VI a.C.

Menos conhecida é a história dos sítios arqueológicos: 90% dos destroços dos babilônios encontrados até hoje são do período de Nabucodonosor, assim como Morpheus & cia. queriam a reconstrução do mundo, é por meio do facínora imperador que conhecemos a Mesopotâmia histórica.

Há ainda na embarcação outros nomes-signos: o personagem Mouse que os ajuda a fazer a transferência mundo real-mundo digital, assim como o “ratón” dos computadores espanhóis. E o traidor dos rebeldes, o homem que prefere o mundo dos prazeres do simulacro à triste luta contra as máquinas, conhecido como Cypher, que nada mais é do que a redução de Louis-Chyper, ou Lúcifer, em latim.

Cypher, o traídor: representação dos desvios humanos

No mundo da Matrix tudo pode ser aprendido em instantes, basta carregar a nossa memória com jiu-jítsu, karatê, yoga, judô, literatura grega e romana ou mesmo Ulisses, de James Joyce. E Neo, como todo herói, não acredita no “chamado”, muito menos que é o escolhido.

Mas a própria narrativa o empurra ao protagonismo. O contraponto que traz Neo para a missão, o vilão de Matrix, é o Agente Smith (o nosso Silva) o nome mais comum e repetitivo de todos. Todos os vilões são iguais ou todos nós temos um pouco de vilão (ou muito).

Smith versus Neo (Warner Brothers)

Para ter certeza de que Neo é o predestinado, eles o levam de volta ao mundo virtual para consultar o Oráculo. Da mesma forma que Sócrates descobriu pelas predições de Delfos que era o homem mais sábio do mundo. Na casa da senhora confeiteira (o Oráculo), o herói conversa com um pequeno monge budista que lhe explica o segredo para entortar uma colher. Não era pela força, afinal:

– A colher não existe – diz o menino. (imagem logo abaixo). Ao entrar na cozinha, Neo vê o ensinamento socrático no pé da porta da cozinha: “Conhece-te a ti mesmo”. Matrix tem uma imensidão de alusões e referências filosóficas e culturais. Matrix pede apenas para que olhemos em nosso interior e encontremos a resposta para as nossas colheres da vida.

Derrotar a Matrix era impossível, todos os rebeldes dizem isso no filme. Mas Neo, o predestinado, irá burlar a verdade e vencer – é a crença otimista. Qualquer máquina pode ser mais rápida, mais forte, mais inteligente do que qualquer ser humano. É uma batalha inglória.

Porém, numa inversão filosófica, em que os homens construíram os robôs à sua imagem e semelhança, como um Demiurgo/Deus platônico-cristão, na Matrix eram os homens que se espelhavam na imitação (simulação) das máquinas. Tentavam ser tão altos, tão inteligentes e tão fortes quanto os andróides. O erro brutal que Neo entende. Jamais alcançaremos os deuses.

There is no spoon

Neo tem o insight ao quase morrer no mundo real. Lutando com as mesmas armas de Smith. Tentando ser um simulacro da realidade criada por Matrix, ele sempre seria derrotado. Neo entende que se as máquinas possuíam uma inteligência binária, numa combinação infinita de números 1 e 0, jamais os alcançaríamos. Nunca teríamos força suficiente. A menos que quebrássemos esse código. Destruíssemos a sequência e isso era extremamente simples. Inserir um vírus na Matrix. E nada melhor do que um hacker pra inserir um vírus na Matrix.

Apenas um vírus

A batalha final é de uma lentidão irritante. Não havia mais força ou pressa em Neo. Assim como a colher, a Matrix não existia. Bastava esperar o vírus agir e o sistema cairia como num castelo de cartas. Neo era o predestinado.

Dark City (Trailer oficial)

Matrix é um dos filmes essenciais de ficção científica que revolucionou o cinema. As cenas em que se misturam a velocidade máxima dos personagens e balas, intercaladas com um sistema de defesa em câmera lenta, fizeram escola. O figurino também saiu das telas e foi para o deserto do real. Jaquetão de couro, óculos escuros e a velha vaselina voltaram com Matrix.

O filme passa pela filosofia de Baudrillard, Freud, Platão e Sócrates. Faz intertextualidade com a História Antiga, com Lewis Caroll, com histórias bíblicas e o cyberpunk de Neuromsncer. Brinca com a possibilidade de não existirmos hoje, de sermos apenas fruto de uma realidade virtual distante 180 anos.

O filme é herdeiro cinematográfico de “Cidade das Sombras(Dark City), com Rufus Sewell e forte inspiração no romance Cyberpunk Neuromancer (William Gibson). Cyberpunk é um gênero alternativo de ficção científica, conhecido por seu enfoque que mistura “alta tecnologia, baixa qualidade de vida” (“high tech, low life”).

As histórias juntam ciência avançada, como as tecnologias de informação e a cibernética com a desintegração social, política e ambiental do futuro. O termo foi criado em 1980, pelo escritor Bruce Bethke, autor do “Cyberpunk”. Neuromancer levou o gènero à condição de vanguarda literária. O trecho abaixo parece falar dos rebeldes de Matrix, ao nos explicar quem é o cyberpunk.

“Os personagens do cyberpunk clássico são seres marginalizados, distanciados, solitários, que vivem à margem da sociedade, geralmente em futuros distópicos onde a vida diária é impactada pela rápida mudança tecnológica, uma atmosfera de informação computadorizada ambígua e a modificação invasiva do corpo humano.”

(Lawrence Person, critico da New Yorker)

Fica a pergunta: a ideia central de Matrix, a de que o mundo é um mero simulacro do real, é possível? Qualquer pessoa que brincou com The Sims ou jogou futebol num PlayStation no final dos anos 90 sabe a diferença de gráficos, de interações, de efeitos em 3D, etc.. O quanto evoluiu a arte digital e o quanto a verossimilhança é cada vez mais próxima. Imagine daqui dois séculos como serão nossas máquinas e a linguagem digital? Talvez sejamos apenas uma bateria como Morpheus aponta para Neo. Ou o grande vírus que destrói a tudo e a todos, como explicam os agentes de Matrix ao atônito Neo.

Estamos muito além de um Coronavírus. E o que fazer? Baudrillard nos aponta a solução. Para derrotar esse Império que é um “simulacro do real”, mesmo a violência do terrorismo é justificável, como aparece em outro filme das irmãs Wachowski, “V de Vingança”. Todo poder aos cyberpunks. Hackers de todo o mundo, uni-vos!

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