Fabian Manning: uma lenda desconhecida do tênis

FREDERICO MORIARTY – Fabian Keaton Newcombe Manning nasceu na Nova Zelândia, em fevereiro de 1885. Seu pai, Layer Keaton Newcombe, era um comerciante de pesca inglês que veio em busca do ouro nas Terras do Norte. Acabou se apaixonando por uma nativa Maori e ficou por lá.

A conquista da Nova Zelândia

Entre 1840 e 1872, a atual Nova Zelândia sofreu com as Guerras Maoris. Costume do Império Britânico de nominar suas guerras e invasões coloniais com o povo subjugado. Guerra do Ópio Chinês (domínio do país asiático, primeiro viciando a população asiática na droga para depois conquistá-la), a Guerra dos Boeres (os massacres na África do Sul) e a infame Guerra dos Maoris. O nome correto para a guerra seria: Conquista da Nova Zelândia.

As diversas e sanguinárias batalhas provocadas pela Inglaterra duraram quase 4 décadas. Em 1872, o último rei Maori, Taranaki, é derrotado pelos ingleses. As Terras do Norte que ainda resistiam à colonização foram dizimadas. Agora, a Inglaterra podia unificar as Terras do Norte e do Sul e iniciar a exploração do ouro na Nova Zelândia.

Kauany Manning foi a única sobrevivente de sua família. Manteve o nome Maori de nascença, mas foi-lhe imposto o sobrenome do senhor de terras inglês, Manning, que ela passou ao único filho. Era quase uma escrava quando conheceu o jovem inglês que a tirou do semi-cativeiro.

O pai doou ao menino Fabian K.N. Manning o gosto, a paixão e as regras da ‘nobre arte’ do tênis, esporte nascido em terras inglesas na década de 1860. O garoto mestiço gostou do jogo. Treinava todo dia no pequeno quintal de terra da família. Tinha uma raquete que o pai lhe trouxera por embarcação da Inglaterra.

Difícil era repor as caríssimas bolinhas. O terreno acidentado, os tufos de mato, os porcos, tudo atrapalhava o treino-diversão de Fabian. Aos nove anos, com a fama do menino prodígio do tênis correndo pelas aldeias vizinhas, ele foi desafiado por um adulto. Fez uma partida difícil, mas espantosamente conseguiu vencer por três games a dois.

The First Racket Frame (1874 a 1903) Timeline de Meg Bowersax

Por gostar de nadar, como a mãe, tinha braços estranhamente fortes para a idade, fato este que lhe ajudava nas batidas indefensáveis com a direita. A fama saiu das aldeias e correu pela ilha e aos 13 anos um técnico australiano o descobriu num torneio juvenil (apesar de Fabian ter idade para 3 categorias abaixo, a infante).

Foram três anos de brigas entre a família e o técnico. Como os pais não deixaram o menino se mudar para a Austrália, ele se limitava a treinar no país vizinho somente nos quase 3 meses de férias escolares neozelandesa.

Ali, ele desenvolveu seu ‘forehand‘, um canhão de direita quase imbatível numa partida. Numa delas, a raquete do adversário de Manning estourou, tamanha a força. Fabian Manning fez a primeira partida oficial (ainda no amadorismo, pois o tênis profissional só apareceu nos anos 1960) aos 16 anos e venceu por duplo 6 a 0. A força descomunal, a capacidade de recuperação e os longos cabelos negros e lisos, como os da mãe Maori, chamavam a atenção da refinada plateia de então.

Não há imagens de Manning em nenhum arquivo, mas pelas descrições, talvez se parecesse com o artista Maori acima

No ano seguinte, seu técnico consegue um convite, e Manning foi disputar o torneio de Wimbledon com apenas 17 anos. Foi vencendo todas as partidas com certa facilidade. Nas quartas de final, derrotou Norman Brookes (o canhoto que disputou 6 finais do torneio inglês) por 3 sets a 1.

Na semifinal vencia a partida por dois sets a zero. A partida foi subitamente interrompida. Preocupados com a possível vitória do jovem colono de origem simples, corpo e fisionomia de Maori, em plena era do Imperialismo e do darwinismo social, os organizadores do torneio encontraram uma brecha e paralisaram a partida.

Os diretores da All England alegaram que por ser meio Maori, Manning não poderia ser considerado um cidadão neozelandês, país inscrito na Federação Internacional de Tênis que administrava o torneio aberto de Londres. Manning era natural de um povo sem país, uma escória para a elite inglesa, portanto estava impedido de jogar.

Foi desclassificado na grama hoje centenária de Wimbledon. Com a partida quase ganha. Era a continuação da Guerra contra os Maoris. Lawrence Doherty vence o substituto de Fabian, Frank Riseley, com facilidade e dois dias depois levanta a taça de Wimbledon, em 1903.

Lawrence Doherty (Foto: Arquivo)

No ano seguinte, devidamente protegido por uma norma adicional com a permissão de “povos sem Estado”, Manning voltou ao templo inglês. Um a um seus oponentes foram se desfazendo em quadra. Ele chegou a final derrotando por três sets a zero Riseley, seu substituto no ano anterior.
A final seria no domingo, Manning estava com quase 19 anos. Era favorito disparado.

No sábado, a notícia corre pela cidade, milhares de pessoas correm e se acotovelam em frente a Wimbledon. Às 15h daquele dia, dois senhores de fraque e cartola saem às janelas do All England Law Tennis and Croket Club e lêem a notícia triste: Manning havia passado muito mal no dia anterior, decorrentes de um problemas no coração e não resistira. Um inesperado e cruel ataque cardíaco tirara a vida de Fabian.

A única imagem encontrada de Manning na Semifinal de 1904 (ele está ao fundo) (Foto: Arquivo da All England Club)

O espanto e a tristeza foram generalizados. Os amantes do tênis choraram por semanas. Nas ruas muitos ainda desacreditavam na história. Os dirigentes colocaram-no num navio e o mandaram pra Nova Zelândia, supunham. Manning estava vivo.

Mas era real. Por luto, a final foi suspensa por 7 dias. O caixão lacrado de Manning foi enviado para a Nova Zelândia. Tempos depois, um amigo tenista revelaria a verdade: na sexta-feira, anterior à decisão, Manning fora até a praia nadar nas águas geladas para fortalecer o corpo. O hábito de nadar contra a corrente o levou para águas mais profundas. Perdido e desorientado, Fabian bateu numa baleia azul de ventre amarelo.

Baleia azul: a maior de todas as espécies do Atlântico Norte

Manning fora destroçado pelo cetáceo. Provavelmente, a baleia acreditava estar sendo atacada por algum predador, daí a resposta agressiva do animal. As águas turbulentas trouxeram o corpo desfalecido e todo machucado até a beira da praia apenas no dia seguinte, no sábado.

Os donos de Wimbledon mudaram a verdade para não chocar a população inglesa e, claro, para preservar os ganhos da aristocracia vitoriana, garantidos por valores substancialmente maiores pagos aos apostadores e patrocinadores do evento, por ser uma final caseira, entre os britânicos Lawrence Doherty e Frank Riseley (mais uma vez, herdando a vaga de Manning).

Os domínios do Império Britânico mapa mundi afora

E assim, o “Império Onde o Sol Nunca se Põe” permanecia intacto. A história das guerras, massacres, colonizações e escravidão foi sendo apagada ao longo das décadas. A Rainha é apenas uma simpática senhorinha com seus cachorrinhos. A família real não sai das colunas de fofocas. O Império erguido com vidas ceifadas, lágrimas e sangue, hoje é berço da civilização. Os Maoris, tanto no passado como atualmente, são os bárbaros. Mas não precisam mais se preocupar com a baleia azul , pois os caçadores japoneses, espanhóis, canadenses e ingleses mataram quase todas, restando pouco mais de 8.000 nos mares do Atlântico e Pacífico.

Na Oceania colonial a dor era profunda. Layer e Kauany receberam o corpo do filho dias depois. Arrasados. Incrédulos. Irreconciliados eternamente com a felicidade. De Fabian Manning restou uma lápide de pedra bruta, com seu nome e uma raquete de tênis em relevo, comida pelo tempo e a natureza, como nossos ameríndios, os Maoris não tem direito nem sequer a um passado.

A lápide de Fabian Keaton Newcombe Manning (1885-1904)
LEIA MAIS FREDERICO MORIARTY:

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: