Reprodução, arte e transformação

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Marcello Fontes

           Em tempos de reclusão forçada em casa pela pandemia do covid- 19 podemos perceber o quanto, em tese, pode ser realizado virtualmente. Já há um bom tempo, por exemplo, museus e exposições podem ser acompanhados diretamente da tela de nossos equipamentos. A um clique, tudo se apresenta e pode ser fruído. Reproduz-se quase tudo de modos múltiplos e cada vez mais ágeis. Copiamos, modificamos e a partir daí produzimos novos conteúdos com os mais diversos formatos. Quais as consequências disso para a arte? O que acontece com ela quando é reproduzível de modo quase infinito?

            Talvez um dos primeiros a pensar sobre isso foi o filósofo, crítico literário e ensaísta alemão Walter Benjamin (1892 – 1940). Em seu ensaio “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, de 1935, que considero uma das mais proféticas e perspicazes reflexões da Filosofia Contemporânea, Benjamin procura examinar os efeitos que a obra de arte sofre ao ser reproduzida. Sua principal tese é que este processo causa na obra de arte a perda de sua “aura”, que consistiria naquele “aqui e agora” próprios daquilo que seria a obra de arte original, e que daria valor cultural, autenticidade e unicidade a ela. Com a possibilidade da reprodução, todo o conceito estético clássico de beleza e as categorias daí deduzidas sofrem mudanças profundas e definitivas. A própria noção de autenticidade passa a não ter mais sentido diante da reprodutibilidade.

            Ainda que a obra de arte sempre tenha sido de algumas formas reprodutível, por alunos, curiosos e mesmo falsários, a reprodutibilidade técnica, com o advento de tecnologias que se iniciaram na xilogravura, passando pela fotografia e o cinema, não apenas alteram o caráter único da obra de arte, mas podem destacar aspectos que a própria obra de arte “original” não tinha possibilidade de fazer ou que escapavam ao olho nu e agora ganham destaques que vão do enquadramento ou foco diverso, isso para não se falar nas inúmeras possibilidades que as mídias digitais hoje permitem, haja vista o que podemos fazer com o tratamento de imagens não apenas de modo profissional, mas através de plataformas como Hipstamatic e Instagram, por exemplo.

            O que Benjamin já percebeu na década de 30 do século passado e que cada vez mais se confirma é a necessidade que este novo modo de relação com a obra de arte produz nos indivíduos. Não apenas não preciso mais ir a uma catedral ou teatro para ouvir um recital, nem ir a um museu ou exposição para contemplar as pinturas (atualmente os arquivos de mídia diversos e os serviços de streaming ampliam tais possibilidades a níveis incríveis), mas passo a ter uma necessidade de fazer com que tudo fique mais próximo: “fazer as coisas ficarem mais próximas é uma preocupação tão apaixonada das massas modernas como sua tendência a superar o caráter único de todos os fatos através da sua reprodutibilidade. Cada dia fica mais irresistível a necessidade de possuir o objeto, de tão perto quanto possível, na imagem, ou antes, na sua cópia, na sua reprodução”. A transformação da obra de arte em mercadoria será alvo de outro artigo, brevemente.

          É importante destacar que, apesar da constatação da perda da aura pela obra de arte a partir da reprodutibilidade técnica, Benjamin não via de modo pessimista ou negativo tal fato. A perda da aura trazia consigo a retirada de um aspecto religioso e aristocrata da própria arte, que se por um lado a transformava em algo menos elevado, por assim dizer, a aproximava das massas, com as consequências positivas e negativas que isso traz. O fato é que, diante da tecnologia de reprodução, temos agora uma arte que não apenas é passível de ser reproduzida, mas que passa a ser elaborada tendo em vista a própria reprodução. O exemplo por excelência seria, para Benjamin, o cinema.

          O cinema encarna o fato de que agora o indivíduo não é mais o único catalisador da arte, mas sim um elemento modificado e recriado pela tecnologia. O ator, por exemplo, não se mostra diretamente ao público, como supostamente o faria no teatro, mas por intermédio das infinitas tomadas, planos e contraplanos, isso para não se falar na infinidade de recursos especiais, fazendo com que o público veja aquilo que se espera que ele veja. Não há possibilidade de adaptação do ator à reação da plateia, mas uma espécie de projeção de uma reação esperada ou produzida com base naquilo que se quer ou que se projeta no público. A tecnologia (a máquina, no dizer de Benjamin) faz a transição e não apenas o ator. O cinema assim representa uma espécie de paradigma da obra de arte na e para a reprodutibilidade técnica. Podemos hoje facilmente substituir cinema por YouTube, Netflix, Mobi, Vimeo ou qualquer plataforma ou aplicativo que se valha da reprodução de imagens fixas ou em movimento, mais ou menos produzidas de modo profissional, visto que tais tecnologias providenciaram definitivamente o cumprimento da profecia de Andy Warhol de que “um dia, todos serão famosos por quinze minutos”.

          Mas o que importa é compreender quais as consequências disso para arte e para os que apreciam a arte. Talvez uma das tarefas mais complexas da estética seja justamente definir o que é arte, uma vez que, em tempos de rápidas transformações como têm sido os últimos séculos, possamos ser traídos frequentemente por noções que são, paradoxalmente, conservadoras e em si mesmas nada artísticas. A reprodutibilidade técnica altera nossa própria noção de espaço, tempo e matéria, como afirmou Paul Valéry, e inevitavelmente vão alterar a própria noção de arte. Benjamin dizia que “uma das tarefas essenciais da arte, em todos os tempos, consistia em suscitar uma demanda, num tempo que não estava maduro para satisfazê-la em plenitude”. Ou seja, a arte deve trazer em si o germe da revolução e da novidade. Precisa ser capaz de questionar e produzir uma reação que gere no futuro uma nova expectativa quanto ao mundo. Nesse sentido, nada menos artístico do que o mero conservadorismo seja de técnicas, experiências, percepções ou estilos. Assim como Martin Scorsese hoje diz que os filmes da Marvel não são cinema, já se afirmou no passado que o cinema não era sequer arte.

         É certo, então, que a arte precisa ter um papel social, que pode ser também eventualmente político. Mas para alguns pode surgir um problema no caráter altamente reprodutível da obra de arte. E isso teria a ver com a quantidade de apreciadores e a forma de percepção da arte.

           A arte era produzida em termos de unicidade e, portanto, era para poucos. Isso se aplicava tanto à pintura, à escultura, a musica quanto à literatura. A arte era feita por poucos e para poucos. A proporção entre produtores de arte e eventuais apreciadores era mantida considerando uma maioria de apreciadores e uma minoria de artistas. A reprodutibilidade vai alterar isso também. Benjamin já havia percebido que as possibilidades de produção de arte ampliaram-se consideravelmente, de modo que muitos agora podem requerer para si a condição de artista. Imagine o que ele diria se conhecesse as plataformas e tecnologias de hoje, inclusive essa na qual eu, um mero professor, torno-me autor sem qualquer mediação de outrem. Uma primeira impressão poderia ser que esse aumento massivo do número de participantes no processo artístico depreciaria a própria arte. Qualquer um – dirão alguns, não no sentido de admiração, mas recriminação – pode ser um artista agora. Lembro-me de uma entrevista concedida por Nelson Gonçalves na qual ele dizia que “hoje, se o sujeito não for mudo, pode ser cantor”. Outra alteração será a forma de percepção da arte, decorrente em certa medida deste fenômeno quantitativo já descrito. A apreciação da arte tradicionalmente teve a ver com contemplação, seja no sentido mais religioso ou intelectual do termo. O modo como hoje se aprecia a arte é muitas vezes o oposto disso e já o é há muito tempo. Somos bombardeados por elementos que, para o bem e para o mal, muitas vezes não nos dão chance de realizar qualquer reflexão sobre o que está sendo apresentado. Simplesmente nos deparamos com a arte e a transformamos aparentemente num “mix” de sentimentos por vezes até contraditórios. Isso seria um problema, realmente? Benjamin fala daquilo que ele chama de “velha lamentação: as massas buscam diversão, mas a arte exige recolhimento”. Seria, segundo ele, uma falsa oposição. Para exemplificar, usa o exemplo da arquitetura, que pode ser apreciada e refletida ou usada, de modo habitual. Para ele, uma coisa não elimina a outra. E mais: é preciso uma compreensão de arte que envolva essa nova forma rápida de percepção e dela saiba se valer. Não seria preciso, como alguns no caso do cinema, por exemplo, criar uma subcategoria de “cinema arte”, como se o restante não o fosse.

          Está claro que a reprodutibilidade técnica pode ser utilizada como elemento para manobrar as massas e o fascismo que Benjamin conheceu tão bem o fez com maestria em sua época. Atuais formas de disseminação artísticas de inspiração igualmente não democráticas podem também fazer o mesmo e por vezes o fazem. A resposta seria então politizar a arte. Para ele, arte pela arte, nestas circunstância, não faria sentido. É preciso valer-se de seu caráter abrangente para que a arte seja um elemento revolucionário e transformador. Joaquim Phoenix, em seu discurso ao receber o Oscar de melhor ator por sua memorável atuação em “Coringa”, captou bem isso: “Todos nós compartilhamos o mesmo amor pelo cinema. Esse meio me deu tantas coisas extraordinárias que nem sei o que eu seria sem ele. Mas acho que o maior presente que me deu, e a muitos nessa sala, é a oportunidade de usar nossa voz pelos que não têm, seja falando sobre desigualdade entre gêneros, racismo, direitos LGBTQ+ ou indígenas, direitos dos animais, estamos falando sobre lutar contra a ideia de que uma nação, uma raça, um gênero ou uma espécie tem o direito de dominar, controlar, usar e explorar outros sem impunidade”.

         Se a arte precisa criar uma demanda futura, que possa ser por mudanças que façam os seres humanos serem melhores. E isso pode ser feito também de modo divertido. Pense nisso ao acessar o próximo site ou ver o próximo filme em sua quarentena.

Para saber mais:

Texto “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, por Walter Benjamin: https://bit.ly/2xZqLPI

Museus virtuais para se conhecer em tempos de quarentena: https://bit.ly/2JdJd9W

Imagem de Thomas Staub por Pixabay

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