Escândalo matutino

LÚCIA HELENA DE CAMARGO – Notícias sobre coronavírus você vê lá fora. Aqui vamos falar de uma série interessante disponível aos assinantes do serviço de streaming Apple TV: “The Morning Show”. Dessas para ver, caso você esteja à toa no confinamento involuntário, de uma tacada só, todos os dez episódios.

Se você é mulher e já trabalhou em alguma empresa juntamente com homens, sabe bem como costumava ser: não raro eles faziam gracinhas sobre a sua roupa, às vezes rolava uma insinuação sexual, piadinhas de duplo sentido, e muito disso era visto por todos – inclusive você mesma – como natural, parte da natureza masculina. Algumas até poderiam considerar as piadinhas lisonjeiras, como cumprimentos pela beleza. Outras, que se incomodavam e apontavam o machismo, eram taxadas de chatas, mal amadas, amargas.

Mau humor = TPM?

Mesmo na área de comunicação, que reúne, em tese, pessoas mais bem informadas e menos preconceituosas, encontramos ao longo da vida profissional muitos homens que julgavam perfeitamente natural chegar perto de uma colega e tocá-la sem pedir permissão. Porém, se a moça tinha uma reação contrária à aproximação indevida ou à “gracinha”, imediatamente já chegava um nobre representante do sexo masculino para dar o veredito sobre o que de fato ocorria ali: “Ela tá na TPM!”. Claro, se a mulher já tivesse passado dos 40 anos, então as piadas eram diferentes. A causa da irritação só poderia ser menopausa. Entre chacotas variadas, era chamada de velha, bruxa, louca. Vez ou outra, algum “espirituoso”, dizia “mas ainda dá um caldo”. E os demais caíam na gargalhada.  

Depois de movimentos como o “#Mee Too” o assédio sexual passou a ser criminalizado, principalmente nos locais de trabalho. Talvez no Brasil ainda persista a velha cultura em muitos ambientes. Mas nos Estados Unidos a coisa ficou feia para o lado dos assediadores. O caso mais vultoso no mundo do entretenimento foi o que envolveu o produtor da Harvey Weinstein, fundador da gigante Miramax. Denunciado por assédio e estupro por mais de 80 mulheres, entre elas Angelina Jolie, Gwyneth Paltrow e Mira Sorvino, ele foi condenado e preso em 2018. Atualmente com 68 anos de idade, neste mês de março ele contraiu covid 19 na prisão.

Assédio e relevância

Perdão pelo longo preâmbulo, mas queria falar tudo isso para contextualizar a série “The Morning Show”, na qual o famoso apresentador Mitch Kessler (Steve Carell) do programa televisivo de maior audiência nas manhãs é demitido após ser acusado de assédio sexual. Sua colega de bancada, Alex Levy (Jennifer Aniston) a princípio fica desconcertada, depois parte para a batalha de manter a relevância e o emprego. Em seguida, entra em cena a jovem sem papas na língua Bradley Jackson (Reese Witherspoon), que vai desestabilizar a rotina e interferir nas dinâmicas do programa.

A série, que estreou em novembro de 2019, começa meio desanimada, mas a partir do segundo episódio melhora consideravelmente. O roteiro parece engatar, os personagens ficam mais consistentes e você começa a se interessar pelos destinos dos produtores e demais membros da equipe que fazem todos os dias o programa de TV.

Baseada no livro Top of the Morning: Inside the Cutthroat World of Morning TV, do jornalista Brian Stelter, The Morning Show (ou TMS, como se referem a ela os personagens) vai crescendo até desembocar numa catarse final em grande estilo, no último episódio da temporada. A aposta é que mulheres de idades variadas vão adorar, seja porque se verão representadas ou porque o drama é bem construído e concatenado, expondo o ridículo de certas figuras. E os homens que não são misóginos babacas também poderão apreciar.

Os episódios no meio do caminho servem para mostrar como tudo na vida é cinza, e quão difícil é encontrar no mundo atual verdades absolutas. Além de fazer piada com o fato de que todo mundo – todo mundo – sempre procura se justificar para si mesmo, ainda que a pessoa seja autora dos atos mais atrozes.

Enfim, a série é boa. E salvo uma ou outra liberdade poética da trama, até onde sabemos as coisas aconteceram mesmo daquela forma. Saber que se trata de história real torna ainda mais saborosa.

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