Dia do Teatro nos tempos da peste

JOSÉ SIMÕES –  Comemorar o dia Mundial do Teatro (27 de março de 2020) com todos os espaços teatrais fechados e a população em isolamento no país é um duro golpe para os profissionais trabalhadores das Artes da Cena.

Os artistas estão em casa sem a sua cara metade. Sem o palco e a plateia.

Para os artistas das artes da cena são insubstituíveis aqueles segundos antes de entrar em cena.  Muitos artistas se referem a esse momento da entrada no palco semelhante a “cair num vazio ou se jogar”. É muita adrenalina. Como viver este tempo? É forte e implacável para os artistas esta situação de isolamento.

Porém é sempre bom relembrar que o teatro, mesmo diante de dificuldades nunca deixou de existir. Já sobreviveu as guerras, as pestes, a perseguição da igreja e outras religiões, a chegada do cinema e da televisão, a perseguição política, etc.

Certamente se o Teatro fosse descartável ele já  teria desaparecido. Claro que sim! E observem que desde o teatro grego mudou muito pouco no seu fazer. Ator, publico e “duas tábuas e uma paixão”, como diz o ditado.

Os artistas se encontram em constante processo de reinvenção, inquietação, criação e, nesse momento de isolamento, estão certamente processando tudo à sua volta, para em breve reocuparem estes espaços, hoje vazios.

Depois da peste, das dores das mortes, do choro, dos prejuízos materiais, o teatro vicejará e será necessário para a reconstrução da sociedade.

Viva o teatro!

Augusto Boal escreveu, em 2009, a mensagem para o dia Internacional do Teatro. Suas palavras naquele tempo dizem muito agora.

Todas as sociedades humanas são espetaculares no seu
cotidiano, e produzem espetáculos em momentos especiais. São espetaculares como
forma de organização social, e produzem espetáculos como este que vocês vieram
ver.

Mesmo quando inconscientes, as relações humanas são
estruturadas em forma teatral: o uso do espaço, a linguagem do corpo, a escolha
das palavras e a modulação das vozes, o confronto de ideias e paixões, tudo que
fazemos no palco fazemos sempre em nossas vidas: nós somos teatro!

Não só casamentos e funerais são espetáculos, mas também os
rituais cotidianos que, por sua familiaridade, não nos chegam à consciência.
Não só pompas, mas também o café da manhã e os bons-dias, tímidos namoros e
grandes conflitos passionais, uma sessão do Senado ou uma reunião diplomática –
tudo é teatro.

Uma das principais funções da nossa arte é tornar conscientes
esses espetáculos da vida diária onde os atores são os próprios espectadores, o
palco é a platéia e a platéia, palco. Somos todos artistas: fazendo teatro,
aprendemos a ver aquilo que nos salta aos olhos, mas  que somos incapazes
de ver tão habituados estamos apenas a olhar. O que nos é familiar torna-se
invisível: fazer teatro, ao contrário, ilumina o palco da nossa vida cotidiana.

Em Setembro do ano passado fomos surpreendidos por uma revelação teatral: nós,
que pensávamos viver em um mundo seguro apesar das guerras, genocídios,
hecatombes e torturas que aconteciam, sim, mas longe de nós em países distantes
e selvagens, nós vivíamos seguros com nosso dinheiro guardado em um banco
respeitável ou nas mãos de um honesto corretor da Bolsa – nós fomos informados
de que esse dinheiro não existia, era virtual, feia ficção de alguns
economistas que não eram ficção, nem eram seguros, nem respeitáveis. Tudo não
passava de mau teatro com triste enredo, onde poucos ganhavam muito e muitos
perdiam tudo. Políticos dos países ricos fecharam-se em reuniões secretas e de
lá saíram com soluções mágicas. Nós, vítimas de suas decisões, continuamos
espectadores sentados na última fila das galerias.

Vinte anos atrás, eu dirigi Fedra de Racine, no Rio de
Janeiro. O cenário era pobre; no chão, peles de vaca; em volta, bambus. Antes
de começar o espetáculo, eu dizia aos meus atores: – “Agora acabou a ficção que
fazemos no dia-a-dia. Quando cruzarem esses bambus, lá no palco, nenhum de
vocês tem o direito de mentir. Teatro é a Verdade Escondida”.

        Vendo
o mundo além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as
sociedades, etnias, gêneros, classes e castas, vemos o mundo injusto e cruel.
Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é
possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco
e na vida.

Assistam ao espetáculo que vai começar; depois, em suas
casas com seus amigos, façam suas peças vocês mesmos e vejam o que jamais puderam
ver: aquilo que salta aos olhos. Teatro não pode ser apenas um evento – é forma
de vida!

Atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em
sociedade: é aquele que a transforma!

(Augusto Boal – 2009)

(Foto: Espetáculo Valsa No 6  – Ator: Gui Miralha / Direção: Angela Barros – 2019)

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