Fogo no mato

Roberto Godinho (*)

Cronista convidado do Coletivo Terceira Margem e do Blog Aquele Sabor Que Me Emociona

Essa crise do Coronavírus me levou a tentar lembrar de qualquer episódio parecido na minha vida. Realmente nunca vivi algo com essas dimensões. A única coisa que me veio à mente foi um incêndio florestal na minha infância.

O incêndio deve ter ocorrido na década de 50 e eu devia ter cerca de 10 anos. Eu morava num sítio em Canguera, a meio caminho entre São Roque e Ibiúna, já próximo da divisa entre os municípios. À época, a comunicação era muito precária e as notícias andavam a pé ou em lombo de cavalo.

Um certo dia, alguém trouxe a novidade: um grande incêndio estava devastando as matas para os lados de Ibiúna. No começo, aquela notícia parecia não nos dizer respeito, afinal nem sabiam informar direito onde estava o fogo. Mas os dias foram passando e o fogo não dava trégua, pelo contrário, se intensificava.

Eu, uma criança, não entendia direito o perigo, mas ouvia a conversa preocupada dos adultos, afinal, o nosso sítio ficava no meio do mato. No caso de um incêndio, nossas plantações, nossos animais e até nossa casa estariam ameaçados.

Guardadas as proporções, havia alguma remota semelhança com a situação que vivemos hoje. Indefesos, aguardávamos a chegada do inimigo, sem saber o que poderia acontecer. A situação no sítio lembrava um pouco o clima que antecedia à chegada das tempestades, que a gente chamava de chuva brava.

Eu me lembro que os raios e os ventos criavam um clima de pavor em todos. O que nos protegia eram as palmas benzidas no Domingo de Ramos e as promessas. Como hoje, as notícias iam chegando, muito espaçadamente naquela época, mas suficientes para, devagarinho, ir instalando o pânico. Os adultos tentavam poupar as crianças, mas a gente ouvia as conversas por trás das portas.

A situação ia piorando, as notícias iam chegando, como o fogo que a cada dia ia se aproximando. Depois de algum tempo só se falava no fogo, eu me lembro que num dia de pavor eu fiz promessa para o Bom Jesus de Pirapora, pedindo proteção contra o fogo.

Santuário do Senhor Bom Jesus de Pirapora (Foto: Arquivo)

E assim os dias foram piorando, até que o fogo bateu à nossa porta. Dava para ouvir o estouro das taquaras ao longe e à noite o céu ficava avermelhado e claro. Uma cena inesquecível para uma criança temerosa. Eu me lembro do dia que o fogo já lambia as matas do sítio e todo tipo de ajuda chegando.

Lembro de meus tios e vizinhos chegando, da figura de minha tia Nica correndo, as pessoas com as ferramentas para fazer os aceiros e máquinas costais de sulfatar as videiras para pulverizar água nas chamas, gente baldeando água, uma mobilização intensa. Não me recordo quanto tempo durou aquela luta intensa.

As crianças tinham que ficar em casa, como os velhos de hoje. Estas foram as minhas duas únicas experiências – um longo hiato de 60 anos, uma da outra -, as quais tive que ficar em casa. Eu só sei dizer que tudo terminou bem e a alegria de todos que viveram de perto aqueles dias foi muito grande no final.

Não me esqueço dessa grande lição de solidariedade. A pandemia me trouxe à memória esses acontecimentos da minha infância. Não tinha a proporção dos fatos atuais, mas a cabeça do menino não sabia avaliar direito e sofreu a angústia como nos dias de hoje.

Essa experiência serviu para me ensinar que as tribulações da vida têm uma dimensão real e outra projetada pela nossa mente, a partir de informações que nos são fornecidas. Essas tribulações vêm e passam – e nesses momentos a solidariedade é fundamental.

A fé também é crucial. Não custa nada pedir uma ajuda ao Bom Jesus de Pirapora. Ele socorreu o menino apavorado e não vai negar uma mãozinha ao menino que envelheceu e agora está no grupo de risco.

ROBERTO GODINHO (*) é químico aposentado. Canguerense de São Roque com muito orgulho, ele é nascido num reduto histórico da colônia portuguesa da cidade vizinha, cujas terras férteis foram cultivadas por agricultores e vinhateiros pioneiros. Quando não está produzindo vinho, cerveja e caninha da boa ou brincando com os dois netos, Roberto vira cronista, poeta e escritor de olhar sensível e apurado. Seus textos autorais tratam das raízes são-roquenses de modo singelo e nostálgico que tocam a alma e falam ao coração.

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