Além do Bem e do Mal: Caim e Abel na obra de John Steinbeck

FREDERICO MORIARTY – Adão e Eva primeiro tiveram dois filhos, Caim e Abel. O primogênito arava a terra e o caçula cuidava dos rebanhos. Caim entregou a Deus o fruto do seu trabalho em dádiva. Já Abel entregou-lhe um bezerro. O senhor recebeu o novilho com regozijo e menosprezou os frutos de Caim. Rejeitado por Deus, ele levou o mano caçula para a estrada e lá, tomado de ciúme, matou-o.

Deus sabendo da morte questiona Caim e este não assume o crime. Onisciente, o altíssimo expulsa Caim do Éden e para protegê-lo da perseguição dos que o reconhecessem como criminoso, colocou uma mancha. À leste, região da Assíria, Caim carregou sua culpa e edificou sua família. Jamais teria de volta o amor do Senhor.

John Steinbeck escreveu A leste do Éden, em 1952. Uma recriação ďa história do Gênesis, ambientada nos Estados Unidos entre o fim da Guerra da Secessão e o término da Primeira Guerra. Uma das mais poderosas narrativas estadunidenses da história literária.

Caim e Abel: óleo de Danielle Crespin (1618)
John Steinbeck

Nascido em 1902, Steinbeck escreveu obras de grande sucesso popular, algumas delas adaptadas para o cinema. “Ratos & Homens” “Vinhas da Ira” e “A leste do Éden” são as principais. Ganhou prêmios diversos, incluindo o Nobel de literatura em 1962. Porém, a crítica sempre o considerou um escritor bom, entretanto, com uma visão maniqueísta dos conflitos humanos. Injusto, demasiadamente injusto.

Steinbeck possuía uma maestria em encadear personagens e narrativas. Seus longos diálogos, sem muitas digressões, traçam um perfil tanto da personagem quanto do espaço em que ocorrem os conflitos. As falas vão se sucedendo como uma metralhadora verbal e o delineamento de homens e terras se desnudam como se assistíssemos um filme (não à toa suas obras foram parar no cinema).

John Steinbeck (Foto: Wikipedia)
História de A leste do Éden

A Guerra da Secessão (1861-66) destruiu os Estados Unidos, opondo os Estados do Norte contra os do Sul. Uma luta entre o capitalismo liberal industrialista e o capitalismo escravista agrário. A vitória do Norte, mais rico e com maior poder militar, irá impor a economia liberal ao sul, promover a abolição e causar 650 mil mortes.

Em disputa, além da hegemonia política e econômica, estava a corrida para o Oeste. As terras roubadas do México eram 4 vezes maiores do que o país possuía até a metade do século XIX. Além disso, entre o Texas e a Califórnia existia uma imensa faixa árida e semi-árida com jazidas de ouro e petróleo. Foi nessa região, no Vale de Salinas californiano, que duas famílias, os Hamiltons e os Trasks, construíram a história de A leste do Éden, entre a Guerra da Secessão e a Grande Guerra (1914 a 1918).

Capa da edição brasileira da Record Editora

Os Hamiltons são inspirados nos avós do escritor, imigrantes irlandeses que se tornaram grandes proprietários nos Estados Unidos. Os Trasks são o centro da história. Adam Trask é o filho que recebe uma herança de US$ 15.000 (hoje seria aproximadamente US$ 1 milhão) do patriarca. Homem sério, honrado e de valores morais cristãos, conhece Cathy e se apaixona perdidamente pela moça.

Cego de amor não quer perceber que ela era prostituta. Casa-se com Cathy e a leva para a propriedade da família, com a certeza de que será uma esposa virtuosa e uma mãe maravilhosa. Cathy dá a luz aos gêmeos Caleb e Aron. Logo depois do parto, ela se revolta com a prisão do casamento e foge. Adam entra em depressão e vira alcoólatra.

Os recém-nascidos sobrevivem em função da existência de serviçais na propriedade e, principalmente, pelo alterego do Steinbeck, o misto de administrador, mordomo e narrador-filósofo, o chinês Lee. Cal e Aron crescem acreditando que a mãe estava morta. Na escola, os gêmeos terão a amizade de Abra e disputarão o amor dela, da infância até a vida adulta.

Assim como no Gênesis, um presente desperta a rejeição e o ódio. O menino Cal trabalha e junta dinheiro para comprar um canivete para o pai. Este nem liga para o presente e prefere o dado por Aron, um cachorrinho. Caleb (Caim) inveja o irmão Aron (Abel). Lee revela a Cal, numa passagem posterior, que o amor de Adam era inevitável, já que Aron era muito semelhante à mãe. Ele seria sempre o filho preterido.

Cartaz original do filme nos Estados Unidos
Vidas Amargas

Elia Kazan (famoso dedo-duro no macartismo) produziu e dirigiu o filme baseado em A leste do Éden em 1955, três anos após a publicação do livro. A história nas telas se desenrola a partir da segunda parte do livro: os gêmeos já adultos. Cal é o típico empreendedor norte-americano. Sempre investindo e arriscando em novas ideias.

Numa delas dá um prejuízo considerável ao pai. Tenta transportar um carregamento imenso de alface por vagões de trens resfriados por toneladas de gelo. Um transporte que se funcionasse deixaria os Trasks ricos. Era uma experiência anterior à geladeira e fracassou com o derretimento do gelo e perda de toda a carga.

Por outro lado, o irmão Aron vira padre. Mais uma vez Cal carregava o sinal da derrota. Ele não desiste, começa a trabalhar com preços futuros no mercado de feijões e lucra bastante. Novamente teremos o conflito das dádivas. Adam adora o presente de Aron e quando vê o presente de Cal enrolado num pano, estranha. Eram US$ 5 mil (cerca de US$ 300 mil atualizados). Adam pede para Cal explicar de onde veio tanto dinheiro.

O filho conta ao pai a origem na especulação. O patriarca joga tudo ao chão ao saber. Grita com o filho, diz que este roubara dos pobres agricultores e que deveria devolver todo aquele dinheiro sujo. No filme, traduzido no Brasil para Vidas Amargas, Cal é interpretado de forma soberba por James Dean. O ator é um dos maiores ícones do cinema, mesmo tendo trabalhado em mais dois filmes além deste: Giant e Juventude Transviada. A cena é uma das mais comoventes do cinema (é a imagem em destaque deste texto).

Cal (Dean), totalmente transtornado, segura o pai pelos colarinhos, grita sufocado e em lágrimas contra o abandono e a rejeição e solta a frase dolorida: “Por que você não me ama?”. Empurra o pai e corre atrás do irmão Aron. Arrasta-o a força até o maior puteiro da região.

– Esta é tua mãe!! A dona do bordel. Ela não está morta!

Aron conversa com Cathy e sai de lá para, dias depois, se alistar no exército e ser mandado como soldado para lutar na 1° Grande Guerra. Meses depois chega a notícia de sua morte.

Timshel

O romance termina de forma trágica. Adam não suporta a perda de Aron e começa a definhar rapidamente. Cal carrega a imensa culpa de ter matado indiretamente o irmão e o separado, primeiro de Abra e depois da batina. Abra revela o outro lado da história: ela deixou Aron pois sabia que ele jamais seria um homem como Cal.

Conta-lhe ainda que Aron, antes de se alistar, aceitou uma fortuna da mãe prostituta (US$ 100 mil, cerca de US$ 5 milhões), numa nova rejeição para Cal que nada recebeu da mãe. No último diálogo do livro, Lee revela a Cal que Adam sempre soube da profissão de Cathy e inventou a morte por vergonha da verdade. Mais: a herança que Adam recebeu do avô de Cal era fruto de um golpe.

Steinbeck escreveu um romance de tese. Somos todos dúbios. Podemos parecer bons, mas trazemos a maldade incrustada em nosso interior. A grande maioria das pessoas é, em verdade, um grande ator. Fingimos ser bons, somos cordiais nas aparências, mas carregamos a falha de caráter escondida.

Cal sofre porque assume estes dois lados. Erra e se angustia com seus pecados. É o único personagem sincero da trama além, é claro, do chinês Lee. E cabe a este dizer as últimas palavras do romance, exigindo ao moribundo Adam que se desculpasse com Cal. Adam sussurra algo ao ouvido de Lee e morre.

– Timshel.

Fac-símile da capa da Bíblia do Rei James I. (1611)

Na bíblia do Rei James (1611), a mais importante e vendida edição inglesa do livro sagrado cristão, na passagem de Caim e Abel, Deus teria dito: “Timshel’. Em português seria: “Poderá”. Ao contrário dos animais, como defendeu Lee, o homem pode escolher. O homem é dotado do livre-arbítrio. E Adam (o pai) escolheu não amar o filho Caleb (Caim). Assim como Deus expulsou Caim do Paraíso. Somos todos um pouco do primogênito de Adão: carregados de culpa e rejeição.

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3 comentários em “Além do Bem e do Mal: Caim e Abel na obra de John Steinbeck

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  1. Muito boa a análise. Esta é uma obra de abrangência excepcional e uma releitura de um dos textos mais influentes e impactantes daquela que é a principal obra da literatura ocidental, a bíblia. Releituras no geral costumam ser empobrecedoras, mas esta consegue ser enriquecedora. Uma nota também triste é que James Dean jamais chegou a ver este seu último trabalho, que foi a adaptação desta obra ao cinema.

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    1. Obrigado… e agradeço por relembrar do James Dean, passou batido…críticos não gostam de escritor que ” vende”. Pra mim é dor de cotovelo

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