Tigres, poligamia, intrigas. E lantejoulas.

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LÚCIA HELENA DE CAMARGO – Comecei a ver “A Máfia dos Tigres”, na Netflix, pelo interesse nos felinos. Como muita gente, sou absolutamente fascinada pela graça, beleza, pragmatismo e modo de viver dos gatos grandes e pequenos. A cena mais bela que já vi na vida foi protagonizada por uma família de leões, em um final de tarde africano. Acontece, porém, que essa série que está fazendo grande sucesso no streaming em época de quarentena, prende o espectador pelo bizarro.

Joe Exotic (foto, Divulgação Netflix) é o auto-denominado “Tiger King”, título da série no original em inglês. Dono de zoológico particular de felinos em Oklahoma, nos Estados Unidos, o lugar abriga poucas ou muitas dezenas de tigres, leões, panteras, entre outros. Ele cobra ingressos que custam centenas de dólares para que as pessoas acariciem filhotes de tigres e leões e posem com eles para selfies. Os animais ficam em ambientes imundos, pequenos, claramente são mal alimentados (às vezes com comida vencida que uma rede de supermercados joga no lixo).

De visual exótico, Joe usa mullets (aquele cabelo que jamais entenderemos como se tornou popular nos anos de 1980, curto na frente e comprido atrás da cabeça), suas roupas seguem no mesmo tom, com lantejoulas, recortes, peças em couro, perfazendo o estilo country-brega exacerbado. Tem que ver! Nascido Joseph Allen Schreibvogel, depois adotaria o nome de Joe Maldonado-Passage, acoplando o sobrenome de dois de seus maridos. Carismático, Joe é abertamente gay e foi casado com dois ao mesmo tempo, com direito à cerimônia de casamento com os três usando camisa cor de rosa choque.

Crime

Desde o início de “A Máfia dos Tigres” sabemos que Joe está preso, porque é uma chamada a cobrar da prisão que dá início à saga. Descobrimos em seguida que o motivo da prisão pode ser sido uma tentativa de assassinar Carol Baskin, sua arqui-inimiga, autodenominada ambientalista, também amante de grandes gatos. Acontece que ela, em suas instalações na Flórida, também possui muitos felinos, cobra pela visitação e mantém os animais em ambientes também pequenos. E ainda conta com uma enorme rede de voluntários, que trabalham de graça em seu parque, chamado de reserva. Carol combate Joe Exotic de todas as formas que consegue: na justiça, nas redes sociais, junto ao público. No discurso dela, Joe explora os animais. Mas fora a exibição e o comércio de filhotes, que ela não pratica, fica difícil distingui-la nesse mercado. Joe rebate as críticas com ameaças, inclusive veiculando vídeos de péssimo gosto, nos quais exibe serpentes como metáfora de veneno e morte.

Sobre Carol ainda paira o misterioso desaparecimento de seu marido, que teria deixado para ela uma herança milionária. Alguns chegam a imaginar que ela teria matado o marido e dado o corpo como carne aos tigres.

E Joe, que entre farras que incluem lançamentos de granadas sem muito cuidado dentro da propriedade, administra o parque tendo sempre uma arma à cintura; e ainda é estrela de clipes fakes de música country, candidata-se governador, arranja um sócio pilantra, lida com um acidente envolvendo um tigre que arranca o braço de uma funcionária…

Em resumo, há muita ação.

9 esposas

Entre as outras figuras com graus variados de bizarrice está Dr. Bhagavan Antle (ou Doc Antle), também dono de um parque no qual a atração são os grandes felinos. O título de doutor auto-conferido dá ares de intelectual. Em sua propriedade, além das visitas do público, o negócio rentável pode vir de vendas de felinos, cuja procriação é feita ali mesmo. Opositores o acusam de matar os tigres quando ficam velhos e já não servem para serem exibidos. Os shows que ali acontecem envolvem garotas em roupas justíssimas, fazendo poses junto a felinos poderosos. De Doc Antle (doutor em ciências ocultas) é dito também que mantenha três, cinco ou até nove esposas (a depender de quem narra). Ele não confirma nem nega o fato, nem qualquer número. Ao entrevistador responde apenas que sua vida particular “não é assunto para o horário nobre”. Uma dessas ex-mulheres aparece dando entrevista, dizendo que ele tem um tal poder mágico de encantar que as faz trabalhar no parque de segunda a segunda, sem qualquer descanso, ganhando apenas US$ 100 por semana, e ainda ir para a cama com ele regularmente, integrando seu harém, sem reclamar.

Ligers

Doc Antle gosta de exibir seus ligers (animal híbrido que resulta do cruzamento de um leão e uma tigresa), um felino gigantesco, o maior do mundo, com mais de três metros de comprimento. Ele sabe que os ligers são “polêmicos”, então se esquiva de falar sobre eles à frente da câmera. Essa procriação não é bem vista por biólogos, porque a saúde desses bichos é muito frágil. O cruzamento jamais ocorre na natureza. Apenas pela ação do homem. O tamanho exagerado torna os órgãos mais fracos. A explicação pela qual crescem tanto é que eles nascem sem os genes que controlam os hormônios do crescimento, porque nos leões essa característica vem das mães e nos tigres, dos pais. Como o liger é filho de um leão com tigresa, não possuem esse controle hormonal.

O documentário “A Máfia dos Tigres” vai aumentando o tom aos poucos, ao longo dos sete capítulos. E nada disso que aqui revelamos estraga a surpresa de assistir. Embora tudo ali seja brega, a filmagem é de qualidade e em diversos momentos ficamos com a impressão de que aquilo não pode ser verdade, porque como alguém se deixaria filmar naquela situação tão vexaminosa? Enfim, muito pode não ser mesmo verdade, já que os personagens se sabiam à frente de uma câmera (na maioria dos casos). Mas temos que admitir: é entretenimento do tipo que não se consegue parar de ver até a conclusão.

Ao final da minissérie, fica a curiosidade em saber como estão os felinos, de que maneira estão sendo tratados. A decepção é saber que tudo continua igual. Eles continuam sendo mantidos em ambientes pequenos e explorados como atrações, para que os donos dos parques façam caixa com ingressos e venda de produtos.

O sucesso da série na Netflix despertou a curiosidade de muita gente, que lotou os parques no início de março. Com o evento da covid 19, foram obrigados a fechar temporariamente as portas, como todos os demais estabelecimentos. Esperamos que depois, quando a vida voltar ao normal, ambientalistas consigam começar a desmantelar esse tipo de atração, que explora essas criaturas magistrais como se fossem mercadoria.

A solução não é fácil.

Quando será que vamos começar a entender que o planeta é de todos e parar com a prepotência de achar que os humanos são os mais importantes habitantes?

Brigitte Bardot, Rita Lee, Luisa Mell, Mônica Amiga dos Animais (ativista sorocabana) e quem mais puder: à luta!

Lúcia é jornalista.
luciahcamargo@uol.com.br

E escreve também no blog www.menudalu.com.br

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