Apaixonada por ciências naturais, a jovem Leopoldina trouxe de além-mar uma expedição que deslumbrou o mundo com a flora e a fauna do Brasil

Sandra Nascimento

Há mais de 200 anos, em 15/8/1817, partiram de Livorno, Itália, para o Brasil as naus portuguesas Dom João VI e São Sebastião. A bordo estava toda a comitiva de Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda de Habsburgo-Lorena (1797-1826), arquiduquesa da Áustria que, após 86 dias de travessia pelo Atlântico, chegaria ao Brasil em 5//11/1817, para se casar com o então príncipe Dom Pedro (1798-1834). Outras duas naus, Áustria e Augusta, também foram disponibilizadas para a viagem por Francisco I, pai de Leopoldina e imperador da Áustria.

Faziam parte da numerosa comitiva seis damas da corte, quatro pajens, seis nobres húngaros, guardas austríacos, camaristas, um capelão, um esmoler-mor (1), secretário particular, um médico, camareira-mor, mordomo-mor, um professor de pintura e uma expedição científica que incluía notáveis estudiosos e artistas como Johann Christof Mikan, botânico e entomólogo; Johann Emanuel Pohl, médico, mineralogista e botânico; Johann Buchberger, pintor de flora; Johann Natterer, zoólogo; Thomas Ender, pintor; Heinrich Schott, jardineiro; e o naturalista italiano Giuseppe Raddi. O grupo teria por função colecionar espécies e fazer ilustrações de paisagens e pessoas para um futuro museu que seria fundado em Viena – hoje Museu de História Natural (Naturhistorisches Museum), um dos principais acervos de história natural do mundo. Com Leopoldina também vieram os cientistas bávaros Johann Baptist von Spix (zoólogo) e Carl Friedrich Phillip Von Martius (médico e botânico), nomes estes bem conhecidos das Ciências Naturais do século 19.

Johann Baptist von Spix e Carl Friedrich Phillip Von Martius

Após a permanência no Rio e os muitos preparativos para a viagem ao interior, os cientistas partiram rumo a São Paulo acompanhados de uma equipe de apoio que incluía o pintor Thomas Ender, guias, tropeiros, escravos e índios – que viabilizariam a parte operacional da expedição. Saíram do Rio de Janeiro em 8/12/1817 e passaram por São Paulo, Sorocaba, Araçoiaba, Porto Feliz, Itu, Jundiaí, Ouro Preto e, entre outras localidades, Diamantina, Januária, Formoso, Ilhéus, Salvador, Monte Santo, Juazeiro, Oeiras, Caxias, São Luís, Belém, Óbidos, Manaus, Barcelus, chegando até as fronteiras com o Peru e Colômbia.

A princesa e as ciências naturais

A menina Leopoldina
A menina Leopoldina

Considerada “uma mulher à frente de seu tempo” pelo historiador Paulo Rezzutti (autor do livro D. Leopoldina – A História não contada: A mulher que arquitetou a independência do Brasil), a arquiduquesa da Áustria, como cabia a uma princesa, recebeu educação esmerada, marcada pela rigidez nos estudos e estímulos culturais. Surpreendendo a família, ainda menina demonstrava o gosto pelas ciências. Tinha por hábito colecionar acervos de plantas, flores, minerais e conchas. Aos 14 anos interessava-se especialmente pela geologia e botânica, recebendo, por isso, um grande incentivo do pai e professores. Mais tarde, suas preferências influenciariam na decisão pela vinda da expedição de cientistas para estudos e pesquisas na nova terra. Este fato estaria relacionado às questões científicas e políticas daquele momento histórico, como a ausência de conhecimentos sobre a nova parte do globo, a vinda da família real em 1808 (2), o Decreto de Abertura dos Portos (3) e a revogação da proibição de desembarque de estrangeiros em terras brasileiras, causada anteriormente por invasões de outros povos à América lusitana.

Spix e Martius na região de Sorocaba

Spix e Martius partiram do Rio de Janeiro para São Paulo em 9/1/1818. O roteiro dessa viagem incluía uma passagem pela cidade e uma visita à Fábrica São João de Ipanema (3), nos arredores da então Vila de Sorocaba:

“Firmou-se com maior regularidade a estação das chuvas, durante a nossa estada em São Paulo. Chovia a noite inteira, quase incessantemente, e, durante o dia, encobria-se o céu, depois do meio dia, com pesadas nuvens, que se descarregavam de repente, tornando-se o céu em breve de um lindo azul; o ar, portanto, raras vezes, era muito abafado; mesmo à noite, descia tanto a temperatura, que tivemos que arranjar cobertores mais grossos. Para o nosso desejo de investigar as maravilhas da história natural do país, era o tempo atual em extremo desfavorável, pois que, apenas, desejávamos alongar os nossos passeios além dos arredores da cidade, tínhamos que voltar para casa, todo encharcado. O mundo das plantas começou pouco a pouco a despertar com renovado vigor; os animais, entretanto, apareciam ainda em menor número. Resolvemos encurtar a estada na cidade, aliás enfadonha para naturalistas, e dirigir-nos para a Fábrica de São João de Ipanema, vinte léguas distante, cujos belos arredores e considerável tesouro em plantas e animais nos havia descrito sedutoramente o próprio diretor, Sr. Tenente-Coronel Varnhagen (1), no Rio de Janeiro. O governo forneceu-nos cartas de recomendação para as autoridades com as quais teríamos que tratar, e o nosso solícito patrício Sr. Müller arranjou-nos um tropeiro paulista, com fama de bom guia de tropa. Assim aparelhados, depois de ter mandado reconduzir para São Paulo os cargueiros que estavam no pasto, para onde tinham sido tocados durante nossa estada aqui, partimos a 9 de janeiro de 1818, desta cidade, que, pela franqueza e hospitalidade de seus habitantes já nos era muito cara.

A estrada de Ipanema segue a S.S.O. [Sul-Sudoeste] por um terreno montanhoso, em parte cultivado. À direita, tínhamos o morro do Jaraguá, propriedade do general Franca e Horta, que, no Rio, nos havia convidado para passar ali uns dias, a fim de investigarmos a formação das suas antigas lavagens de ouro…

(…)
No dia seguinte, tivemos que atravessar outra vez diversas matas baixas, porém cerradas, nas quais apanhamos o pequeno lepidóptero noturno e uma nova espécie de escaravelhos. Lamparina , com mandíbulas muito curvas, aforquilhadas à frente. Ao anoitecer, saímos da mata e alcançamos a Vila de Sorocaba, passando por campos altos, cobertos de abundante capim. Essa bonita vila está à margem do rio do mesmo nome, pouco considerável e que se lança a oeste do Tietê, e se transpõe por uma ponte de madeira. Esperavam-se desde muito tempo operários alemães para a vizinha Fábrica de Ferro de Ipanema, e fomos logo interpelados à chegada, com indagações para saberem sobre a vinda deles, suas habilitações e o modo como se fabrica o metal na Alemanha.

(…)
Esperamos em Sorocaba apenas a frescura da tarde, a fim de seguirmos para a fábrica de São João de Ipanema, que ainda distava duas léguas. Passamos por campos com morros baixos, cobertos de capim rasteiro e de algumas árvores mofinas, por entre as quais se eleva, aqui e acolá, arvoredo cerrado e baixo, alcançamos ao pôr do sol o lugarejo. Reclina-se apoiado numa elevação em anfiteatro, à margem do Rio Ipanema, que aqui se alarga como lagoa; lindos campos formam o primeiro plano, e a montanha de ferro de Araasojava (Guarasojava) [Araçoiaba], coberta de um mato escuro, que desce pela encosta noroeste abaixo até ao vale constitui o fundo do cenário. As casas caiadas de fresco, espalhadas ao longo da colina, ao pé da qual se elevam os imponentes prédios da fábrica, e a impressão de atividade e de indústria ruidosa que por aqui se experimenta, transportaram-nos a nós europeus, por assim dizer, a uma bela região laboriosa do interior de nossa pátria.” (5)

(1) Pai de Francico Adolfo de Vanhagen, Visconde de Porto Seguro. (Vide biografia de R. S. Freury – Edições brasilienses).

Imagens do patrimônio histórico da Flona de Ipanema (clique nas imagens para ampliá-las)

Da viagem pelo Brasil

Depois de visitarem a região, incluindo-se aí uma ida a Porto Feliz, uma volta à Vila de Sorocaba e uma passagem por Itu, onde procuravam por uma árvore que dá o “bálsamo do Peru”, popularmente conhecida como capriúna ou casca-de-itu (Myroxydum peruiferum L.), os naturalistas em comitiva seguiram para Minas Gerais, onde era de seu desejo “percorrer o sertão na estação das secas”.

A viagem de Martius e Spix pelo Brasil duraria três anos (1817 a 1820). Juntos, percorreriam mais de 10 mil quilômetros de território e visitariam muitos dos principais tipos de vegetação existentes no Brasil, sendo, por isso, reconhecidos como os grandes responsáveis pela missão que resultou em várias obras, das quais se destacam Viagem pelo Brasil e Flora Brasiliensis – um compêndio que reúne mais de 10 mil páginas de texto e 4 mil gravuras com a classificação de milhares de espécies nativas, além de relevantes apontamentos sobre a geologia, a cultura, a música e o modo de vida dos lugares.

Ilustrações e aquarelas da expedição Martius-Spix (clique nas imagens para ampliá-las)


Imagens raras foram expostas em Sorocaba

Sorocaba sediou, no início do mês de março, através de seu Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico, uma mostra com ilustrações e aquarelas de viagem dos cientistas pelo Brasil. Numa parceria com o Instituto Martius-Staden de São Paulo e o apoio da Prefeitura Municipal, o evento acontecia por ocasião do seu 66º aniversário de fundação. Segundo o presidente Adilson Cezar, a ideia era apresentar aos estudantes da cidade aspectos da viagem pelo Brasil do século 18: “Esse é um trabalho muito importante – disse – no sentido de conhecermos um pouco do que o nosso território trouxe ao mundo.” Mas, com a chegada da epidemia do Covid-19, juntamente com outras bibliotecas e museus, o instituto precisou ser fechado e a exposição inaugurada em 3/3, que duraria todo o mês, não passou de uma semana para ser devolvida ao seu acervo.

Capa do programa da exposição Viagem de Spix e Martius


Notas

1 – Funcionário da corte real que supervisionava a distribuição das esmolas.

2 – A vinda da família real portuguesa para o Brasil ocorreu em 28/11/1807. Sua chegada foi em 22/1/1808, depois que Portugal decidiu garantir a independência quando se viu ameaçado de invasão por Napoleão Bonaparte.

3 – Por esse decreto foi autorizada a abertura dos portos do Brasil ao comércio com nações amigas de Portugal, do que se beneficiou largamente o comércio britânico.

4 – A antiga Fazenda São João de Ipanema é hoje a conhecida Floresta Nacional de Ipanema (Flona de Ipanema), uma unidade de conservação de uso sustentável da natureza. Sua área mede 5.385 ha, abrangendo parte dos municípios de Araçoiaba da Serra, Capela do Alto e Iperó, distantes 125 km da capital São Paulo. O local ainda abriga um conjunto de edifícios históricos construídos em 1810 por Dom João VI para abrigar a Real Fábrica de Ferro São João de Ipanema. Ganhou esse nome devido ao rio Ipanema que corta a região, rio este usado para mover as máquinas do complexo da fundição. A Floresta Nacional de Ipanema foi criada pelo Decreto n. 530 de 20 de maio de 1992. Sua atual administração está a cargo do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

5 – Spix e Martius, Viagem pelo Brasil, Tomo I, p. 165,167,168. Edições Melhoramentos. Uma reedição da Imprensa Nacional, Rio de Janeiro (1938).

Imagens

  • Fazenda Ipanema: foto principal e patrimônio histórico – José Finessi
  • Mapas e fotos de viagem, retratos Spix e Martius: Acervo do Instituto Martius-Staden
  • Pintura de Leopoldina criança: Ferdinand Krumholtz

Agradecimentos

Associação Mulheres pela Paz – Frauen für Frieden e.V. Augsburg

Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba (IHGGS)


Referências

4 comentários em “Apaixonada por ciências naturais, a jovem Leopoldina trouxe de além-mar uma expedição que deslumbrou o mundo com a flora e a fauna do Brasil

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