O dia em que os soviéticos transformaram os deuses americanos em humanos

FREDERICO MORIARTY – Vladimir Kondrashin jogou basquete. Virou técnico do Spartak Moscou. Inovador, passou a treinar a seleção juvenil de basquete masculino da União Soviética em 1967. Passados quatro anos, Kondrashin assume a seleção principal com um objetivo: derrotar os sobrenaturais norte-americanos. Na mais triste Olimpíada da história, a de Munique em 1972, os comunistas vinham de quatro derrotas em finais em basquete (1952, 1956, 1960 e 1964) para os imbatíveis estadunidenses. Em 3 segundos, a história do basquete mudou para sempre.

A teoria dos robôs
O lendário técnico soviético Vladimir Petrovich Kondrashin

Kondrashin assumiu a seleção soviética em 1971. Sabia que poderia vencer 500 jogos, mas nada valeria se perdesse uma partida apenas: para os Estados Unidos. Manteve os treinos táticos e técnicos, mas deu preferência aos jovens talentosos e habilidosos da União Soviética. Utilizava da marcação sobre pressão que durava os 40 minutos da partida (até os anos 80 a FIBA-federação internacional de basquete não utilizava a linha dos 3 pontos e dividia o jogo em 2 tempos de 20 minutos).

Pressão é a forma de marcação “homem a homem”. Não há descanso para o atacante. A outra forma de marcação é a “por zona”. Os cinco jogadores fixam-se na linha do garrafão e apenas o jogador com a bola recebe a marcação “homem a homem”. A influência russa no basquete é tão grande que o mais importante torneio do planeta, a NBA, proíbe a marcação “por zona”, somente a “pressão” é permitida.

Kondrashin aliou a tática à qualidade técnica dos jogadores. Um deles foi Aleksander Below, um pivô ágil de 2m e 21 anos apenas. O outro era o ala-armador de 1,9m e apenas 22 anos, Sergei Below (nenhum parentesco com Aleksander). Sergei foi um dos maiores jogadores da história do basquete.

Em 1991, a FIBA elegeu os 10 maiores cestobolistas que jogaram na Europa entre 1940 e 1990. O russo recebeu quase 300 votos e ganhou a disputa. O iugoslavo Petrovich, que se tornou ídolo na NBA, ficou em.segundo. O espetacular pivô russo Sabonis, em terceiro. Nosso cestinha Oscar apareceu em décimo lugar.

As Olimpíadas de Munique de 1972
O ala-armador soviético Sergei Below: o primeiro estrangeiro no hall da fama da NBA

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O desafio comunista era quase impossível. Em sete edições das Olimpíadas, os Estados Unidos venceram todas. Mais do que isso, colecionavam 56 vitórias em 56 jogos. Na maioria das vezes com diferenças de 20, 30 e 40 pontos. Praticamente imbatíveis. Durante o torneio de Munique, Estados Unidos e União Soviética cumpriram o roteiro: 7 vitórias para cada seleção.

A esperada final foi adiada por conta de uma tragédia: nos dias 5 e 6 de setembro de 1972, o grupo extremista Setembro Negro invade a Vila Olímpica e sequestra 11 atletas e 2 treinadores da delegação israelense. Na mesma Alemanha que, 36 anos antes, assistia a Olimpíada Nazista. Triste e macabra coincidência. O governo da Alemanha Ocidental aceitou negociar com o grupo, cedendo inclusive um avião para a fuga. Mas o final foi trágico.

Na pista de embarque, após um confronto, todos os 13 israelenses e quase todos os sequestradores morreram (dois deles fugiram e nunca mais foram encontrados). O Cômite Olímpico Internacional quase encerrou os jogos, mas no dia 8 as competições voltaram. Para encerrar os jogos, na madrugada do dia 9 para o 10 de setembro, aconteceu a final do basquete masculino.

Righetto confere o tempo (Wikipedia)

A seleção de Kondrashin, marcando obsessivamente os adversários, abriu uma razoável vantagem no primeiro tempo: 26 a 21. Os atletas americanos, que logo depois dos jogos foram para equipes da NBA, paravam na marcação sob pressão. A partida era tensa. Brigas entre os dois bancos levaram a expulsão de um jogador de cada seleção.

Veio o segundo tempo e os arremessos norte-americanos começam a cair. Faltando menos de oito minutos, os russos ainda venciam por 39 a 36. No minuto final, a União Soviética ganhava a partida por apertados 49 a 48. Faltando 27 segundos para o fim do jogo, os Estados Unidos tem a posse de bola. Num lance embaixo do garrafão, o pivô americano Doug Collins sofre falta a apenas três segundos do final da partida.

Três segundos que abalaram o mundo
Dwight Jones (9) e Below (14): em quadra, hegemonia em jogo

O jogador americano vai bater os dois lances livres, com amplo apoio da torcida alemã. Calmamente acerta o primeiro e logo depois o segundo arremesso. Estados Unidos 50, União Soviética 49. Oitavo título e 64ª vitória norte-americana. Os russos ainda batem o fundo bola, mas não conseguem passar do meio da quadra. O árbitro principal, o arquiteto brasileiro Roberto Righetto, apita o final da partida.

Righetto apitou em quatro Olimpíadas seguidas, de 1960 a 1972. Munique era o auge de uma grande carreira. Enquanto os americanos comemoravam, o diretor da FIBA, Willians Jones, aceita a reclamação soviética: antes do fundo bola, Kondrashin havia pedido tempo, mas Righetto não ouviu. O cronômetro central retornou aos 3 segundos faltantes.

Depois de muitas brigas, novo fundo bola é batido, mas os Estados Unidos interceptam a bola. Righetto encerra a partida pela segunda vez. Estados Unidos octacampeão! Nova briga. O relógio do árbitro retornou apenas a 1 segundo e meio e não 3 segundos como devido. Brigas intensas. Righetto errou na contagem, a jogada foi inválida.

Após vários minutos de paralisação, com os americanos e boa parte da torcida inconformada, a partida teria seu terceiro recomeço. Neste momento, entra em quadra a genialidade de Kondrashin. Em poucos segundos, ele alterou a ordem dos jogadores, a bola viajaria para as mãos de Aleksander e não mais para as de Sergei.

O ala-armador puxaria a marcação para o lado direito da quadra. O fundo bola é batido, Sergei agora corre para o lado direito, os americanos vão pra cima dela. Ivan Edshenko manda um tirombaço que atravessa a quadra toda e encontra Aleksander praticamente sozinho próximo a tabela.

O ágil pivô dá uma rápida finta de corpo e faz a cesta. Sim, agora a partida estava encerrada. Oito Olimpíadas e 64 jogos depois, os Estados Unidos eram finalmente derrotados no basquete: URSS 51 x 50 EUA. A União Soviética era campeã olímpica de 1972!

A vitória épica dos soviéticos (Fotos: Wikipedia)
Subindo na vertical

Como vivemos no lado capitalista, a história que nos chega é a da injustiça. Nada mais equivocado. A URSS possuía um excelente seleção de basquete (Aleksander não jogou na NBA pois descobriu um sério problema do coração – a angiosarcoma cardíaca -, que tirou-lhe a vida em 1977, aos 26 anos). As técnicas e táticas de Kondrashin eram visionárias, exemplificadas pela marcação sobre pressão e a jogada de fundo bola que deu o título em 1972.

Dois anos depois, na final da Copa do Mundo de Basquete em Porto Rico (1974), a URSS de Kondrashin bateria os Estados Unidos por 106 a 95. Diferença considerável de 11 pontos. Em Olimpíadas, a revanche foi adiada. Em 1976, a URSS caiu na semifinal inesperadamente para a fortíssima Iugoslávia. Em 1980, o boicote americano evitou o jogo.

Los Angeles (1984) foi a vez do boicote soviético. O jovem Michael Jordan não pôde vingar seus concidadãos. Na última partida entre URSS e EUA numa Olimpíada, Seul 1988, com o mundo comunista em ruínas, na partida semifinal, os vermelhos de Lênin derrotaram mais uma vez os norte-americanos por 82 a 76. Robôs? Jamais. Jogadores lendários do basquete.

Cartaz em inglês do filme russo Going Vertical ainda inédito

Em 2018, a televisão russa produziu um exclente filme mostrando o outro lado da história: o socialista. Baseado na biografia de Sergei Below, Going Vertical tem cenas impressionantes de treinos e tentou recriar a partida de 1972.

Este blogueiro dá em primeira mão a notícia deste filme. Consegui assistir a película no original (em sites piratas) cerca de 30 minutos dos 133 minutos totais. Aqui, faço um apelo para que seja exibido nas tevês pagas ou nos cinemas.

Uma verdadeira aula de história do basquete. O técnico do filme tem outro nome, pois a família não aceitou a versão. No leste europeu o filme arrecadou mais de US$ 45 milhões e tornou-se a maior bilheteria de um filme russo até hoje na terra dos czares.

Trailer da produção russa Going Vertical disponível no Youtube
Fim do Socialismo

Os jogadores norte-americanos jamais receberam a medalha de prata de 1972. As mesmas estão na sede do COI até hoje, Righetto faleceu sem nunca ter assinado a súmula e a mesma só é válida pois o outro árbitro, um búlgaro, assinou concordando com a decisão. Erro da seleção americana e do árbitro brasileiro. Dentro das regras do esporte, a partida teria de voltar por duas vezes sim. Não houve conflito de autoridades, pois William Jones era o secretário geral e representava a FIBA, órgão dirigente do basquete mundial, exercendo um cargo que o permitia interferir na decisão equivocada do árbitro (lembremos do VAR atual).

Kondrashin saiu da seleção em 1978, mas teve uma carreira de destaque em clubes até o fim dos anos 80. A União Soviética, depois a iugoslávia e o Brasil de Oscar e Marcel em 1987 (ao derrotar os Estados Unidos em Indianápolis no Pan-americano, terra onde foi inventado o basquete), acenderam a luz vermelha: ou os Estados Unidos levavam o seu melhor ou outras nações poderiam derrotar os semideuses jogadores de basquete do pais.

Em 1992, nas Olimpíads de Barcelona, Tio Sam leva a maior seleção de basquete que jamais será vista novamente. Michael Jordan, o maior jogador da história, se juntou a Magic johnson, Larry Bird, Charles Barkley, David Robertson, Pat Swing, Karl Malone e Scottie Pippen eternizando o Dream Team.

Na final contra os iugoslavos a diferença foi de 32 pontos. Mas não havia mais Guerra Fria, nem comunismo, muito menos União Soviética. Havia somente o jogo mais emocionamnte criado pelos homens: o basquetebol. Palavras de um fanático torcedor de futebol. Afinal qual jogo mais poderia derrubar os deuses do Olimpo em T-R-Ê-S segundos?

Os melhores momentos da final de basquete da Olímpiada de Munique (1972)

(Imagem de capa: Aleksander Below e Dwight Jones disputam a saída de bola, na final das Olímpiadas de Munique. Foto: FIBA)

LEIA TAMBÉM DE FREDERICO MORIARTY:

A história de Rocky, o primeiro filme da série

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