Ciência e Dogmatismo

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Áudio completo do artigo narrado pelo autor disponível

Marcello Fontes

        Na maior parte do tempo, as pessoas em geral não pensam na Ciência. Simplesmente vale-se de forma quase automática daquilo que o desenvolvimento científico pode proporcionar, como se fosse algo banal. E, de fato, a Ciência e a tecnologia daí decorrente produzem resultados na vida prática das pessoas que cada vez mais são vistos como corriqueiros. Não nos perguntamos por que ou de que modo, queremos apenas saber como e quando funciona. O físico, biólogo, astrônomo e divulgador científico Carl Sagan (1934 –  1996) fez grande sucesso na década de 1980, com seu programa televisivo “Cosmos”, inclusive no Brasil. Sagan via problemas no desinteresse ou desdém pela Ciência: – “construímos uma sociedade baseada em Ciência e tecnologia na qual ninguém entende nada sobre Ciência e tecnologia. E essa mistura inflamável de ignorância e poder, cedo ou tarde, irá explodir em nossa face” – dizia. Os problemas têm a ver, segundo ele, com o fato de que as pessoas que tomam reais decisões sobre o futuro e o modo como serão tratadas importantes questões para o desenvolvimento da sociedade, que hoje é dependente da Ciência e da tecnologia, nada sabem sobre isso, ou pior, até mesmo desprezam tais conhecimentos. Sagan disse isso em 1996.

“…construímos uma sociedade baseada em Ciência e tecnologia na qual ninguém entende nada sobre Ciência e tecnologia. E essa mistura inflamável de ignorância e poder, cedo ou tarde, irá explodir em nossa face”. – Carl Sagan

            De modo geral, quando o senso comum pensa na Ciência, relaciona-a com algo dogmático. Ora, o dogma é uma verdade absoluta inquestionável, um conceito geralmente ligado ao fenômeno religioso, mas não apenas. O dogma é algo que se aceita por uma questão de fé e vinculação a um conjunto organizado de crenças com as quais se identifica, não podendo ser alvo de crítica ou questionamento. Justamente por isso, dogmas também trazem segurança àqueles que os abraçam, por serem recebidos como verdades reveladas, acima de quaisquer suspeitas humanas, pois são provenientes de outro tipo de essência. Ao crer no dogma, o indivíduo busca uma identificação com ele e com outros que partilham desta mesma crença. Desse modo, a Ciência deveria para tal senso comum ser algo que escolho acreditar ou não. Em caso positivo, ela passa a ser recebida como uma espécie de mistério acessível apenas a poucos, que os demais devem apenas repetir tal como um mantra sagrado. Ou em caso negativo, posso simplesmente descrer da Ciência e afirmar que não me identifico com suas conclusões, por mais demonstráveis que elas sejam, pois eu creio em outras coisas, sejam elas religiosas ou não, que se opõem às conclusões científicas mesmo quando há uma quase unanimidade e normalidade em suas conclusões. Falamos um pouco sobre isso no último artigo “Negação dos fatos, má fé e risco civilizatório”.

            Contudo, a Ciência nada tem a ver com dogmas e a aceitação de seus postulados não deve ser fruto de crença, mas de compreensão. Veremos ainda que tais postulados, diferentemente dos dogmas, não são definitivos nem muito menos absolutos. Não se crê na Ciência, mas estuda-se, reflete-se e, se for o caso, critica-se e mesmo questionam-se seus postulados, teses e conclusões. A Ciência evolui e progride deste modo, inclusive. Para melhor começar a entender isso, falaremos um pouco de Filosofia da Ciência, que é a área da Filosofia que se pergunta sobre a Ciência, problematizando-a a partir de seus fundamentos, métodos, conclusões e aplicações, a partir de dois de seus grandes expoentes no último século.

“não importa quantos cisnes brancos você veja ao longo da vida; isso nunca lhe dará certeza de que cisnes negros não existem”.  – Karl Popper

            Para início de conversa, precisamos compreender que a Ciência não só não é nem deve ser dogmatizada, como também só se pode considerar uma tese como sendo científica se ela for passível de ser contrariada ou falseada. Quem irá apresentar tal concepção é o filósofo da Ciência austríaco naturalizado britânico Karl Popper (1902 -1994), principalmente em sua obra “A lógica da pesquisa científica”. Popper defendia aquilo que ficou conhecido como método hipotético dedutivo no lugar do método indutivo. No método indutivo, após a observação ou experimentação eu construo uma teoria. O problema é que, por mais que se observe algo, nunca poderei esgotar todas as possibilidades e bastará uma só observação ou experimentação diferente para derrubar a teoria. Inspirado no filósofo inglês David Hume, Popper costumava dizer: “não importa quantos cisnes brancos você veja ao longo da vida; isso nunca lhe dará certeza de que cisnes negros não existem”. O método hipotético dedutivo, por outro lado, primeiro elabora uma hipótese e depois busca confirmá-la por meio de testes. Mas o que para Popper realmente fará com que uma hipótese ou teoria seja científica é a possibilidade de que ela seja falseada. Se isso lhe soa estranho ou mesmo contraditório talvez seja porque sua compreensão de Ciência permanece ligada a conceitos dogmáticos e não científicos. O que Popper estava defendendo é justamente o fato de que a boa Ciência nunca poderá ser definitiva, mas apenas conjectural e, no limite, provisória. As teses científicas devem poder ser contrariadas ou falseadas se qualquer um de seus aspectos não puder ser mais comprovado. Isso não torna a Ciência não confiável, mas apenas a distingue de posições não científicas. A Ciência evolui e caminha justamente porque suas teses não são definitivas, mas abertas a questionamentos e críticas, desde que estes sejam feitos de modo lógico e racional. As teses que temos hoje, em qualquer área da Ciência, são as que até agora não puderam ser falseadas e até que isso ocorra, são as aceitas e defendidas pela comunidade científica.

            Também é importante que se compreenda como esse processo de progresso ou evolução da Ciência funciona. O físico e filósofo da Ciência estadunidense Thomas Khun (1922 – 1996) via o desenvolvimento da Ciência de modo cíclico e estruturado em revoluções científicas. Embora o termo revolução tenha se tornado com o tempo mais conhecido como uma ruptura abrupta de uma ordem social, econômica ou política (Revolução Francesa, Revolução Industrial, etc), o termo é na verdade emprestado da astronomia e significa o retorno periódico de um corpo à própria órbita, como, por exemplo, o movimento que a Terra faz em torno do Sol, mais conhecido como translação.

estrutura das revoluções científicas Thomas khun
Estrutura das Revoluções Científicas de Thomas Khun – Marcello Fontes

       Desse modo, para Kuhn, a Ciência move-se de maneira cíclica, retornando de tempos em tempos ao mesmo ponto. Este ponto inicial ou final (dependendo da perspectiva) seria aquilo que Khun chamava de Ciência Normal. Esta Ciência normal consiste no modo de compreensão científica aceito de forma geralmente unânime por toda a comunidade científica. A Ciência Normal irá se dedicar ao trabalho de resolução de alguns poucos enigmas que ficaram sem solução no campo atual do conhecimento, como em um quebra cabeças: as peças são as respostas e trabalhos de cientistas anteriores, que conduziram a Ciência àquilo que Khun chamará de Paradigma, ou seja uma espécie de modelo baseado em um conjunto de teses até então aceitas e não falseadas ou refutadas. Contudo, segundo Khun, esse paradigma irá com o tempo apresentar, no modo usual de se fazer Ciência, alguma Anomalia, ou seja, uma certa incapacidade para a resolução daquilo que até então era resolvido de um mesmo modo. No geral, isso se relaciona com algo inesperado, um dado novo ou surpreendente que porá em xeque o paradigma até então aceito. Tem-se então uma Crise do Paradigma e, por conseguinte, da Ciência Normal. Será um período turbulento, no qual as variadas buscas por respostas novas serão acentuadas e intensas. Temos aí o início da Mudança do Paradigma, processo revolucionário que dará origem a uma Nova Ciência Normal. Ou seja, por um lado volta-se ao ponto de onde se saiu, mas por outro lado esta volta ou revolução traz um novo ponto de partida. E assim será, segundo Khun, sucessivamente na História da Ciência, embora não de modo corriqueiro e frequente, é importante frisar.

       Claro que aqui temos uma sintetização extrema das teses destes importantes Filósofos da Ciência. Mas o que isso nos diz acima de tudo é que, em Ciência, nunca haverá “absolutos completos” ou “definitivos acabados”: ela é, antes de tudo, uma obra em andamento. E claro que isso traz certo desconforto para quem pensa em termos dogmáticos, pois a segurança nunca será plena ou total. Pensar cientificamente, além das categorias lógicas e dedutivas, além do rigor do método e do esforço das tentativas e erros, é compreender o caráter cíclico e provisório, em última análise, daquilo com o que se trabalha e raciocina.

…as eventuais refutações que o aprendizado em tempos de intensa pesquisa como o atual promove não advirão do que é dito nos grupos de Whatsapp ou redes sociais, mas de cientistas. Sim, principalmente devido à honestidade com a qual ela compreende suas limitações, você pode confiar na Ciência.

          Isso quer dizer, de algum modo, que não podemos confiar naquilo que afirma a Ciência ou que podemos por em dúvida suas teses comprovadas, fazendo isso de forma simplista, irracional e leviana? De modo algum! A Ciência move-se de modo científico e a partir de mais Ciência, não de especulações amadoras fruto de má fé ou ignorância. Em momentos cruciais, como o atual, aquilo que a comunidade científica afirma precisa ser tomado como referência, pois ela não o faz sem muita pesquisa e investigação. E as eventuais refutações que o aprendizado em tempos de intensa pesquisa como o atual promove não advirão do que é dito nos grupos de Whatsapp ou redes sociais, mas de cientistas. Sim, principalmente devido à honestidade com a qual ela compreende suas limitações como acima apresentado, você pode confiar na Ciência.

          No entanto, mais uma vez lembramos que confiar não é crer cegamente. Iniciamos o artigo falando dos riscos de uma sociedade dependente cada vez mais da Ciência e que pouco sabe, no geral, sobre Ciência. Só há uma saída para essa perigosa equação não se tornar explosiva: estudo e aprendizado. Valorize, apoie, incentive e busque aprendizado científico. Faça seus filhos, independente da carreira a ser seguida, aprender Ciência. Isso não só evita que se passe vergonha em conversas, mas nos dá capacidade de saber minimamente o que estão fazendo com nossas vidas. Não menospreze a Ciência: você irá precisar dela. Entenda de uma vez por todas que recursos financeiros voltados à Ciência não são gastos, mas investimentos necessários para um presente e um futuro melhor. Ah, e você pode ter sua fé e fazer tudo isso ao mesmo tempo! Mas este já é assunto para outra prosa.

Para saber mais:

A última entrevista de Carl Sagan: https://youtu.be/c2sJbjO3Vis

A Lógica da Pesquisa Científica, por Thomas Khun: https://bit.ly/3ep0ICz

A Estrutura das Revoluções Científicas, por Karl Popper: https://bit.ly/2K0JFbE

Imagem de Free-Photos por Pixabay

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