Rubem Fonseca, o franco-atirador do conto e do silêncio

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – A morte de um grande escritor é sempre um momento em que realidade e ficção se cruzam como num acerto de contas. A notícia da morte de Rubem Fonseca aos 94 anos, na tarde desta quarta-feira (15), é um acontecimento capaz de deslocar a nossa atenção atualmente concentrada na guerra mundial contra o coronavírus. No acerto de contas, sai de cena o homem e entra para a cultura brasileira o conjunto de uma obra literária que se tornou um clássico entre os melhores já produzidos em todas as literaturas.
Numa literatura fértil em contistas magistrais, de Machado de Assis a Guimarães Rosa, Rubem Fonseca marca a sua presença como franco-atirador do conto, tanto no conteúdo como na linguagem. Como os mestres, ele elevou o conto à condição de obra de arte. Foi modelo de inspiração técnica nos segredos da narrativa para muitos contistas que vieram depois dele. E, paradoxalmente, por esse motivo muitos também, em busca de estilos próprios, se obrigaram a se afastar dele. O problema é que Fonseca aprisiona, vicia, torna o leitor refém de uma ficção que se move com o poder de areia movediça. Se o leitor se deixa prender com prazer, o aprendiz de contista se arruína porque atingir a qualidade dos contos desse autor é tarefa monumental.
Os contos fundamentais de Fonseca estão reunidos nos livros com os títulos “A coleira do cão”, “Lúcia McCartiney”, “Feliz Ano Novo” e “O Cobrador”. Outros volumes reúnem igualmente contos excelentes, mas o essencial da obra de Fonseca está nesses quatro volumes. Destacam-se contos que são verdadeiras obras-primas como “A força humana”, “Feliz Ano Novo”, “O Cobrador”, “Lúca MacCatney” e “O Jogo do Morto”.
Descata-se a linguagem crua, direta, clara, sem rodeios, opção em perfeita sintonia para traduzir o universo de brutalidade de muitos contos. Nessas narrativas, Fonseca não é autor para quem busca distração. Quem busca entretenimento, leveza e até mesmo porrada virtual é melhor ficar nas redes sociais e no celular. Fonseca é choque, respiração ofegante, dor insuportável, encontro com o grotesco, desolação, perdição.
Um personagem cobra dos ricos aquilo que lhe foi negado desde a infância. Um matador de pessoas surpreende com a sensibilidade que tem para curtir o doce canto dos passarinhos. Um torturador de presos, após as sessões de suplício, socorre as suas vítimas com remédios. Classes sociais opostas e em confronto. Criaturas capazes de demonstrações de brutalidade seguidas de gestos sensíveis. As narrativas causaram grande impacto na época em que surgiram, na década de 1960, e prosseguiram nos anos de 1970, épocas de um Brasil sombrio e violento.
Não foi por acaso que o livro “Feliz Ano Novo” foi proibido pela censura do período, na década de 1970, com o velho clichê de que retratava uma violência chocante e feria a “moral e os bons costumes”. E pensar que, se for tomada apenas a questão da violência, o livro continua tão atual como sempre num Brasil que continua marcado pela brutalidade.
Fonseca também se destacou no romance com as obras “Buffo & Spallanzani”, “A Grande Arte”, “Agosto” e “O Caso Morel”. Na década de 1980, atraía o público e rivalizava em vendas com os lançamentos de Jorge Amado. A crítica fazia restrições ao seu talento como romancista, especialmente porque tinha nele referência altíssima como autor de contos, mas nem por isso os seus romances deixam de ocupar lugar de alta qualidade aos olhos de leitores apaixonados. “Agosto”, por exemplo, faz o leitor mergulhar nos acontecimentos que antecederam o suicídio de Getúlio Vargas em 1954 com as emoções de testemunha ocular de um Brasil que ainda acreditava em ilusões. Realidade e ficção se fundem como numa condenação histórica. Fonseca pode ser equiparado aos melhores contistas de sua geração, de Julio Cortázar a Dalton Trevisan.
A figura de Fonseca sempre provocou curiosidade e polêmica. Sua biografia traz como uma espécie de maldição o fato de ele ter participado da direção do Instituto de Pesquisas Sociais (Ipês), órgão que elaborou a base ideológica para o golpe militar de 1964 e prestou assessoria à ditadura dos generais. A esquerda brasileira jamais o perdoou. Surge a polêmica de como celebrar uma obra digna de todos os méritos sem levar em conta esse episódio da biografia do escritor.
Atribuem a esse vínculo do passado a sua repulsa por entrevistas, por holofotes, por diálogos com a sociedade e o meio cultural. Acham que é um silêncio que não apaga o passado. Que se saiba, não deixou justificativa para o seu silêncio. Os poucos que ousaram falar dele se referiram a uma criatura agradável com quem se poderia tomar um café e falar de futebol, mulheres, cinema.
Fonseca fez companhia a outros reclusos célebres. No Brasil há o paranaense Dalton Trevisan, outro genial contista, autor de “O vampiro de Curitiba”. J. D. Salinger, o autor de “O apanhador no campo de centeio”, era outro recluso incorrigível. E Thomas Pynchon, autor de “V”. se associa a esses perfis. Mais do que autores literários, estes nomes se tornaram lendas culturais que atravessam gerações.
O caso do silêncio de Rubem Fonseca também resgata o problema do quanto autor e obra podem ser confundidos ao ponto de um ser tomado por parte do público como determinante para a exclusão da obra ou do autor. A França tem um caso famoso em torno disso: L.F. Céline, o autor dos clássicos “Viagem ao fundo da noite” e “Morte a Crédito”, caiu em desgraça total quando revelou seu apoio às ideias nazistas. Por isso foi penalizado com a perda do prêmio Concourt de melhor romance em 1933. Que ficou em boas mãos por “A Cindição Humana”, romance de André Malraux.
Certamente o homem e a obra são indissociáveis, pois somos todos fontes de contradições e estamos sujeitos simultaneamente ao sublime e ao grotesco. Quem se sentir totalmente livre desses abismos, atire a primeira pedra. E creiam que toda forma de arte não é produto somente dos nossos sonhos coloridos, mas também e principalmente dos nossos piores pesadelos. A obra de Fonseca é um retrato dessas contradições.

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