Os hóspedes e o vírus (Parte I)

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – Não era dia, não era noite. Era aquele momento em que os últimos raios de luz travam uma espécie de duelo com a aproximação da noite e o efeito é de desequilíbrio entre as diferentes percepções de tempo e espaço.

Foi exatamente nessa hora que os hóspedes do hotel à beira-mar receberam a ordem para permanecerem nos quartos. O alerta veio pelo sistema de som que fazia comunicação com todos os ambientes, dos corredores às escadas, da cozinha à lavanderia, do quarto mais simples à suíte presidencial.

Nessa hora, um hóspede que acabava de fechar a conta e se preparava para deixar o hotel foi obrigado a ficar no hall de entrada, pois as portas foram travadas. Ocorreram situações de desespero. Famílias ficaram separadas. Num dos casos, o pai tinha acabado de sair à rua em busca de uma farmácia, a fim de comprar um remédio para o filho com gripe, e ficou impedido de retornar ao hotel. O filho estava com a mãe. O pai entrou em estado de choque diante da porta travada. Não podia encaminhar o remédio para o interior do hotel e sua falta podia agravar o estado de saúde da criança. E não podia falar com a mulher, pois o celular ficou sem bateria.

O governo acabava de decretar o hotel na condição de quarentena. Todos os hóspedes e funcionários deviam ficar isolados a partir do instante em que a medida foi baixada. Ninguém mais entrava e ninguém mais saía. Um hóspede fora identificado como portador de um vírus terrível e o isolamento tinha a finalidade de evitar que o perigo se espalhasse.

Não havia nenhuma segurança de que o isolamento tivesse o resultado pretendido. O confinamento era uma aposta calculada. Ignorar o alto risco de contaminação seria muito pior. Não tomar nenhuma medida seria uma irresponsabilidade. Assim avaliavam os representantes do governo.

No instante em que as portas do hotel foram travadas, um grupo de hóspedes se enfileirava na recepção para fazer os devidos cadastros e receber as chaves dos quartos. Alguns tentaram correr para fora, mas não conseguiram. As portas eram blindadas. Seguranças agiram rápido para conter os ânimos.

Uma mulher idosa começou a chorar. O gerente do hotel pediu calma a todos, disse que tudo ficaria bem e não adiantava se desesperar. Ele garantiu que o isolamento era para o bem de todos os que estavam no interior do prédio e lá fora também. Todos passariam por uma agenda de exames. Nada lhes faltaria durante a quarentena, desde a alimentação aos cuidados com a higiene. Estavam garantidos os acessos à internet.

Entre os hóspedes que acabavam de chegar, um arquiteto viera para uma conferência e logo soube que o evento foi cancelado por medida de segurança. Uma jornalista, que veio para trabalhar na cobertura de uma competição esportiva, surpreendia-se agora com a mudança de pauta. Impedida de sair à rua, ela passou a transmitir conteúdo pela internet com informações sobre o clima de apreensão no hotel.

O sistema de som havia comunicado o motivo da quarentena e a existência de um hóspede contaminado com o vírus. Todos os confinados exigiram informações sobre o paciente. O gerente disse que ele estava numa área isolada do hotel, assistido por uma equipe médica, e todos os cuidados foram tomados para evitar contágio.

Da rua, o pai que comprou o remédio para o filho com gripe entrou em contato com o hotel, pelo celular, e insistiu para encaminhar o medicamento, mas foi inútil. Como consolo, recebeu a notícia de que o menino estava bem. O pai se sentou na calçada, a cabeça entre as mãos, e começou a chorar.

Quanto aos hóspedes que aguardavam atendimento em fila na recepção quando as portas foram travadas, receberam as chaves dos quartos e foram orientados a permanecer trancados até segunda ordem. A jornalista foi a única integrante desse grupo que desobedeceu a ordem. Não se sabe como não foi vista no sistema de câmeras. Alguns vigilantes podem ter cochilado. O fato é que, sem obstáculo,  ela conseguiu acessar o local designado para abrigar o hóspede contaminado pelo vírus.

O local era uma ampla sala situada no último andar do prédio, no fim de um corredor. Havia um aviso na porta: proibida a entrada. A jornalista entrou na sala. Viu uma maca de hospital num canto da parede e sobre ela havia o cadáver de um homem idoso. Ela se sentiu gelar. Compreendeu que o gerente mentiu para não gerar pânico.

Assim que saiu da sala, a jornalista teve que se esconder num vão do corredor para não ser vista. Dois homens com roupas especiais de proteção e máscaras de gás passaram empurrando outra maca com o corpo de um menino. “Foi de repente, apareceu uma gripe e o pobrezinho não resistiu”, disse um homem para o outro. E se dirigiram com a maca para a sala no fun do corredor.

A jornalista correu para o quarto. Estava em transe. Não sabia se devia omitir o que acabava de testemunhar, em nome da necessidade de evitar o pânico, ou se contava ao mundo tudo o que sabia e cumpria o seu dever profissional.

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