Os hóspedes e o vírus (Parte III)

CARLOS ARAÚJO (Blog Outro Olhar) – A quarentena no hotel à beira-mar era como uma prisão. Os hóspedes só tinham algum tipo de comunicação externa por meio do recebimento da alimentação, fornecida em materiais descartáveis, e da retirada do lixo.

Nesse tipo de isolamento, a noção da passagem do tempo sofre alterações em virtude da descarga de adrenalina. Adicionem-se fortes doses de ansiedade, pavor, incerteza. Muitos hóspedes perderam a conta de quanto tempo durou a quarentena. Foram vários dias. Só recobraram a esperança numa manhã em que o sistema de som anunciou que finalmente todos estavam livres para deixar o hotel na hora em que quisessem.

A suspensão da quarentena foi um alívio para a jornalista e todos os outros hóspedes. Estavam eufóricos. Podiam agora retomar a rotina interrompida. Isso tinha significados valiosos. Podiam  voltar para casa, abraçar familiares e amigos, reocupar postos de trabalho. Era hora de recomeçar a vida.

Não estavam preparados para uma realidade que os surpreendeu de forma assustadora. A recepção do hotel estava deserta, sem funcionários, sem atendentes. Os primeiros hóspedes que se aventuraram a sair à rua depararam com calçadas e ruas vazias. Não havia pedestres, táxis, outros carros, ônibus, nada. Lojas, bares e restaurantes estavam fechados. Todos os habitantes estavam recolhidos em suas casas e o cenário era  de uma cidade fantasma.

As comunicações estavam precárias. Não havia sinal de celular também fora do hotel e as tentativas de ligações não se completavam. Desesperados, alguns hóspedes correram a pé em direção ao aeroporto, mas chegaram lá e depararam com tudo fechado. Agora não era só um hotel em quarentena. O mundo inteiro estava em isolamento por conta do terror causado pelo vírus.

Sem destino, esse grupo de hóspedes tentou se abrigar num shopping anexo ao aeroporto. Encontraram as portas fechadas. Vagar pela rua por tempo indeterminado era perigoso demais. Então preferiram retornar ao hotel a correr mais riscos no deserto das ruas.

A jornalista estava nesse grupo. Enquanto caminhava no retorno ao hotel, ela ficou impressionada com a condição humana de tristeza e desamparo perante a tragédia de dimensão coletiva. Viu uma mulher chorar, um homem evocou sua fé religiosa para pedir a salvação de todos e os outros seguiam em silêncio, como se não acreditassem em palavras soltas ao vento.

A sensação é de que estamos sonhando, vivendo um terrível pesadelo, parece até que tudo isso não é real, pensou a jornalista na tentativa de fazer comparações possíveis. Não há quem diga quanto tempo essa situação vai durar, não há garantia de que não haverá novos infectados, ela continuou a pensar. É como se estivéssemos num barco prestes a afundar na tempestade em alto mar ou como se fôssemos náufragos agarrados aos destroços que ainda flutuam no oceâno vasto e profundo.

Ainda no percurso de retorno ao hotel, o grupo de hóspedes cruzou com um homem que vinha em sentido contrário. Ele carregava a Bíblia aberta nas mãos, no Salmo 91, e pregava para uma plateia imaginária: “Não terás medo do terror de noite nem da seta que voa de dia, nem da peste que anda na escuridão, nem da mortandade que assola ao meio-dia.” Passou pelos hóspedes e foi como se não os visse. E tomou o rumo de lugar nenhum.

As comunicações precárias dificultavam ainda mais os cálculos de probabilidades quanto à melhoria da situação. No hotel, nem mesmo a televisão funcionava. Os hóspedes estavam incomunicáveis com o resto do mundo e não podiam falar com outras pessoas porque todos os prédios vizinhos estavam com as entradas barradas por obstáculos físicos e tecnológicos.

Daqui a pouco vai faltar água, comida, produtos de limpeza e higiene e aí será o caos total, previu a jornalista. Por enquanto, sistemas eletrônicos garantem as operações de abastecimento de água e energia elétrica, mas chegará o momento em que essas atividades também serão prejudicadas. E aí, como é que vai ser?

Incrível como de repente um vilão microscópico ataca a humanidade com tal poder de destruição e causa  estragos de guerras e revoluções, ainda raciocinou a jornalista. O inimigo foi mais esperto. Nem toda ciência, nem todo o poder, nem toda a glória, foram suficientes para conter o vírus. Ficamos atentos às ameaças de tamanho gigante como os meteoros e, para ironia da história, quem nos ataca é um elemento invisível.

Se ao menos soubéssemos quantos estão infectados, quantos são os que se salvaram e quais as regiões mais atingidas, ao menos poderíamos traçar um mapa de previsibilidade, lamentou a jornalista.

Em conversa com alguns hóspedes que ainda conseguiam manter o controle emocional, a jornalista organizou um grupo de comando de sobrevivência no hotel. O grupo assumiu o controle de funcionamento do prédio com o objetivo de garantir os meios para as necessidades de alimentação e o longo tempo de espera que tinham pela frente. Decretaram o racionamento de água e alimentos para prolongarem ao máximo as condições mínimas de sobrevivência, enquanto esperavam a situação melhorar.

Quem conseguia preservar a esperança em meio ao caos ainda tinha que administrar uma certa lucidez e compreender que não havia mais nada a fazer. Agora só podiam esperar que o amanhã os surpreendesse com boas notícias.

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